Curiosidades
Após sucesso vivendo Elis Regina, Laila Garin chega ao Rio com peça sobre Édith Piaf
Com novo texto que passeia pela vida e obra da cantora parisiense do sucesso internacional à atuação política, espetáculo estreia no Teatro Riachuelo Rio
Filha de pai francês e mãe baiana, Laila Garin cresceu ouvindo os discos de Édith Piaf (1915-1963) em casa. Como só encontrava o pai nas férias, as canções da artista francesa eram também uma maneira de se aproximar daquele lado de suas origens. Décadas depois, a atriz, que ganhou projeção nacional ao interpretar Elis Regina no teatro, encarna a cantora europeia no musical “Piaf — Eu não me arrependo”, que estreia nesta sexta-feira (9) no Teatro Riachuelo Rio, após temporada de sucesso em São Paulo.
“Eu ouvia aquele timbre, que é bem especial, e até prestava atenção em partes da letra, mas era mais uma relação sensorial. Agora, depois desse estudo todo, percebo o quanto ela era atriz interpretando. Cada música tem uma história que ela conta, é uma jornada”, diz Laila.
No teatro brasileiro, a imagem de Piaf está indissociavelmente ligada a Bibi Ferreira (1922-2019), que estreou em 1983 “Piaf, a vida de uma estrela da canção”, com texto da britânica Pam Gems, tradução de Millôr Fernandes e direção de Flávio Rangel. O espetáculo permaneceu seis anos em cartaz no Brasil, fazendo com que Bibi voltasse ao repertório da francesa diversas vezes, inclusive em “Bibi canta e conta Piaf”, apresentado em 2013, com ela aos 91 anos.
Agora, a trajetória da cantora ganha uma dramaturgia original, assinada por Newton Moreno e Alessandro Toller. A direção é de Sérgio Módena, que idealizou a montagem da Aventura, produtora responsável também por “Elis, a musical”, estrelado por Laila.
“Piaf era uma figura transgressora, uma mulher com uma capacidade de resistência imensa e que desafiava as convenções sociais de sua época. Resolvi trazer essa figura à luz da sociedade contemporânea e entender o que ela tem para nos dizer hoje”, diz Sérgio sobre sua escolha por uma obra autoral.
Num espaço que remete a uma estação de trem, Piaf recebe memórias e personagens de seu passado, que vêm e vão enquanto ela narra a própria trajetória ao público. Cantadas em francês com legendas em português, canções como “La vie en rose”, “Hymne à l’amour”, “Milord” e “Non, je ne regrette rien” ajudam a contar episódios de sua vida, da infância pobre em Paris ao sucesso internacional. A montagem também passa pela série de tragédias e problemas que marcaram sua vida, como a perda do boxeador Marcel Cerdan, considerado seu grande amor, num acidente de avião, o reumatismo, o vício em álcool e remédios e os acidentes de carro que comprometeram sua saúde.
<p“Se não fossem a generosidade e alegria que ela tinha, acho que teria morrido na primeira tragédia. Mas Piaf tinha uma fúria intensa de viver e uma força muito grande. O que mais me encanta nela é esse sorriso persistente,” comenta Laila, que disse se impressionar ao conhecer também o lado mais politizado da artista.
Descoberta em 1935 após anos cantando nas ruas de Paris, a francesa retratou prostitutas e outras figuras marginalizadas no começo da carreira, nas chamadas canções realistas. Anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial, atuou na resistência francesa, ajudando prisioneiros de guerra.
“A resistência política foi um dos capítulos que mais nos emocionaram na leitura das biografias. Piaf era uma entusiasmada pela vida, pelo canto, mas também pela justiça social. Ela tinha plena consciência de onde veio, e de como viviam os menos privilegiados das ruas e periferias de Paris”, diz Newton Moreno.
Os relacionamentos amorosos de Piaf são retratados na peça, incluindo encontros com artistas como Charles Aznavour, Jacques Pills e Georges Moustaki. E a dramaturgia também dá destaque às mulheres que marcaram sua trajetória, como a compositora e pianista Marguerite Monnot, a amiga de juventude Simone Berteaut e até Santa Teresa de Lisieux, de quem era devota. A partir dessas figuras, os autores reforçam a imagem de uma artista que não aceitava as limitações sociais impostas às mulheres de sua época.
“Piaf sempre se vangloriou de ser uma mulher que desobedece, daí o incômodo e o fascínio, talvez”, diz Newton.
Depois de interpretar cantoras de voz inconfundível em “Elis, a musical” e no filme “Chacrinha: o velho guerreiro”, em que viveu Clara Nunes, Laila conta que seu objetivo não é fazer uma imitação, mas incorporar gestos e códigos de cada cantora de forma intuitiva. Além da transformação corporal, que acompanha a deterioração da saúde de Piaf, a atriz canta e atua durante quase todas as cenas do musical, de 150 minutos. Mas é a preparação vocal que exige maior esforço.
“Ela é mais grave que eu, então é um desafio técnico, porque o grave cansa muito mais”, explica Laila, que também precisou trabalhar a pronúncia da cantora.
A atriz também destaca o que aprendeu ao mergulhar nas trajetórias de figuras que enfrentaram, muito antes dela, os desafios de ser mulher no meio artístico: “Muitas vezes elas foram consideradas agressivas só por serem firmes. Isso me fez ver o machismo, mas também reconhecer que felizmente os tempos são outros. Ainda precisamos ser firmes, mas temos que canalizar nossa força, porque às vezes essa intensidade toda acaba engolindo a gente.”
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