Curiosidades
Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto falam sobre 'segredo' que guardaram antes de turnê pelo país: 'Estratégia'
Dupla lança álbum de inéditas 'Vice-versa' e passará por seis cidades brasileiras no ano que vem; pré-venda dos ingressos começa hoje.
Os compositores, cantores e escritores Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes não sabem bem onde nem quando seus caminhos cruzaram pela primeira vez. É mais fácil enumerar, eles explicam, os diversos encontros ao longo de mais de três décadas de coexistência na música brasileira. Ainda na década de 1990, houve um telefonema de Adriana pedindo a Arnaldo uma canção inédita para um novo álbum, que viria a ser o celebrado “A Fábrica do Poema” (1994). Deu certo, e assim ela colocou seu vocal em “Estrelas”, de Arnaldo com Sérgio Britto. Na década seguinte, os dois dividiram a criação de “Para lá”, que surgiu num modelo insólito de partilha: Adriana levou a melodia para um tipo de “amigo oculto” realizado por Marisa Monte com colegas compositores, que levam ao evento melodias, trechos de letras e poesias para compartilhar. Adriana sorteou Dadi Carvalho, que também tinha composto outra melodia. Ou seja, não deu jogo. Um tempo depois daquele encontro, a cantora conta que Arnaldo apareceu no camarim de um show em Lisboa dizendo que tinha levado uma música criada pela dupla e queria que Adriana ouvisse. “Que música?”, ela se surpreendeu ao saber da visita.
— Não sei como foi isso, porque nunca te passei essa melodia! — disse Adriana a Arnaldo durante evento de anúncio do álbum e da turnê, na capital paulista.
Ele tampouco lembra como a faixa caiu em suas mãos. Mas a combinação deu certo e foi lançada por ambos em gravações solo.
Depois desses e outros encontros, a dupla decidiu se juntar de vez para criar o álbum “Vice-versa”, que chegou ontem ao streaming e conta com 11 músicas ao todo, sendo dez inéditas. A parceria também será levada ao palco, a partir de março do ano que vem, quando começa uma turnê por seis cidades brasileiras: São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Curitiba. A leva de shows é produzida pela 30e e tem pré-venda marcada para hoje, a partir das 10h, para os clientes Itaú, e na sexta-feira para o público geral.
Da leva de novidades, a única regravação é “Sorriso livro”, lançada pelo grupo Timbalada há 20 anos — e uma verdadeira paixão de Arnaldo e Adriana.
A jornada de composição das faixas do “Vice-versa” se deu entre Rio e São Paulo, nas casas dos artistas e numa visita até Marisa Monte (que assina com eles a faixa “Na minha carne viva”). O disco, com produção de Pupillo, foi mantido em absoluto segredo por eles e por suas respectivas equipes. Adriana contou que chegava a criar codinomes para falar de Arnaldo em algumas ocasiões para não vazar a história.
— Demos o o.k. para o projeto na Flip de 2025. Ele fez uma fala linda sobre Paulo Leminski, depois disso fui ao camarim dele, que me esperava. E a conversa foi: “O.k.?” “O.k.!” “Você topa?” “Eu topo!” “Então vamos?” “Vamos!” Isso em 2025, vivemos todo esse tempo de trabalho e de segredo — conta Adriana ao GLOBO.
E Arnaldo completa:
— Passamos o ano todo em segredo, até aqui. Pensamos nisso como uma estratégia mesmo. O normal é falar do disco, soltar pílulas no Instagram. Mas não, quisemos vir com o disco pronto, com vídeos prontos, e vamos lançar tudo de surpresa. A notícia, o impacto, a surpresa é o interessante — diz.
Da imersão ao lado do colega paulistano de 66 anos, a gaúcha, de 60, diz que mudou um detalhe na maneira que compõe as músicas: deixou de fazê-las apenas em telas digitais.
— O que aconteceu logo depois dos nossos encontros é que comprei uma impressora! Eu ficava nessa coisa de (reduzir) o papel, não imprimia mais. Ele anota as músicas na mão, depois passa para a tela — comenta Adriana.
Arnaldo explica:
— É que isso muda o olhar, o circuito neurológico que você precisa para ler no cristal líquido e no papel são diferentes. A sensibilidade muda, não dá para trabalhar só no computador. Se a gente escrevesse em plástico, eu teria aberto mão também. Mas o papel ainda dá para tolerar — diverte-se.
Ah, o amor
Da leva de composições, surgem novidades como a canção “Se for pra ser agora”, sobre um descompasso de interesse entre duas pessoas. Nela, a dupla canta: “Não vê que eu tô te dando bola/ eu já colei na sua cola/ o que tá bom também melhora/ não dá para segurar.” Se perguntados se é mais difícil escrever sobre o amor em tempos de crises nas relações, Adriana é categórica ao dizer que não.
— O amor em si não muda, é o mesmo amor da Grécia. Vão mudando algumas circunstâncias, vivemos um tempo fragmentado, mas o amor está acima dessas coisas. É superior. A escrita sobre o amor não vejo mudar. O tempo está acelerado, mas cada época é sempre mais acelerada do que a anterior — avalia. — E estamos falando de canções de amor, não muda o mecanismo só porque o tempo é diferente.
A dupla — que tinha dividido o palco em 2024 numa edição do Coala Festival em São Paulo — diz que “não precisa” de mecanismos como a inteligência artificial para dar vazão à verve criativa. Prova disso, eles enumeram, é a seleção de vídeos que acompanham o lançamento, dirigidos por Daniela Thomas. Gravados na Casa do Povo, um centro cultural no bairro paulistano do Bom Retiro, os clipes têm elementos como reflexos de espelhos e junção de planos para sempre mostrar fragmentos de Arnaldo e Adriana unidos, mas distintos. Adriana, inclusive, se mostra dançante nas gravações — um dos aspectos mais marcantes das performances de Arnaldo.
— Nem é uma postura “não vamos usar IA”, mas é que não precisa. Fizemos experiências ópticas, até projeção em vídeo em nossas caras (como na faixa da canção “Por ti, por mim, por nós”). São efeitos que a IA não vai te dar — defende ela, que chegou a estudar a área na Universidade de Coimbra, em Portugal, com a qual mantém sólida relação. — A ideia era me esparramar mais para além só da faculdade de letras, mas achei tão chato... Me interessei mais pela computação quântica.
Como será nos palcos
Arnaldo, por sua vez, brota com a solução:
— A IA tem que fazer as tarefas chatas para que a gente tenha mais tempo para criar, o que é uma exclusividade do ser humano. Não vejo possibilidade de a IA fazer poesia. Até faz…
Adriana completa:
— Faz, mas é ruim.
Unida, a dupla esbanja sintonia e costuma trocar olhares antes de topar dar detalhes da jornada de um ano de criação em conjunto. E se elogiam: “Há admiração mútua”, diz Arnaldo. Eles, inclusive, não querem dizer muito como serão os shows da turnê. “A gente não sabe”, afirma Arnaldo. E Adriana ri: “Mas se a gente soubesse também não diria!”
— Deu tanto trabalho chegar aqui, que vamos respirar aliviados. E então vamos pensar no show — despista o cantor paulistano.
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