Curiosidades
Companhia Barca dos Corações Partidos estreia ‘Gonzaguinha é’, espetáculo que ressalta atualidade da obra do artista
Grupo começou trajetória em 2012 com musical sobre pai do homenageado, Luiz Gonzaga
O teatro é o mesmo: Sesc Ginástico, no Centro do Rio. Em 2012, Luiz Gonzaga. Agora, Luiz Gonzaga Jr.. A companhia Barca dos Corações Partidos começou sua trajetória com “Gonzagão — A lenda”, peça escrita e dirigida por João Falcão. Esta sexta-feira (25), estreia “Gonzaguinha é”, texto de Braulio Tavares e Ana Carbatti, com direção de Inez Viana.
'Mestre Zu':
'Uma deusa, uma louca, uma feiticeira':
É uma espécie “de volta ao começo”, para citar o título de uma canção de Gonzaguinha. Se, em 2012, o filho era só mais um personagem na história do pai, o inverso acontece agora. A tensa relação entre os dois — tema principal do filme “Gonzaga: de pai para filho” (2012), de Breno Silveira — não tem importância maior do que outros aspectos.
— Ele dizia: “Sou compositor de músicas românticas, como minha mãe (Odaléia, que morreu jovem de tuberculose)”. Por mais que fosse filho de Luiz Gonzaga, é muito interessante ver que quase tudo o que ele construiu são sucessos que têm a ver com outro universo — pontua o ator, cantor e músico Alfredo Del-Penho, integrante da Barca. — A gente pensou: temos que honrar o que o Gonzaguinha disse. Ele não viveu em função do pai. É claro que tem um impacto grande, mas o que ele construiu é independente do pai.
Seleção de 50 músicas
Alfredo é o diretor musical do espetáculo ao lado de Beto Lemos, outro integrante da Barca. Eles cuidaram dos arranjos de cerca de 50 músicas, que são ouvi-das em menos de duas horas.
Inez Viana separou o que chama de “25 canções indispensáveis”. (“Senão, as pessoas vão bater na gente.”). A seleção partiu das 260 composições de Gonzaguinha — apenas 22 com parceiros. Todas foram escutadas, e as letras foram lidas por diretora, autores e atores para se entender como poderiam ajudar a contar a história.
— Ela começa no Morro de São Carlos (onde Gonzaguinha cresceu, na Zona Norte do Rio, criado por Dina e Xavier) e passa por algumas fases, mas não é wikipédico, não tem essa preocupação de contar vários fatos da vida. A forma da dramaturgia é poética — avisa Inez, também atriz e cantora, de volta aos musicais após 16 anos.
As estruturas dos espetáculos da Barca não são convencionais. Gonzaguinha não é vivido por apenas um ator, mas por todos do elenco: os quatro da Barca (Alfredo, Beto, Ádren Alves e Ricca Barros) e as quatro atrizes convidadas: Ana MaGa, Luiza Loroza, Nívea Magno e Thati Dias. E todos tocam vários instrumentos.
O repertório tem sucessos românticos como “Explode coração”, “Grito de alerta” e “Começaria tudo outra vez”, mas o leque de assuntos é amplo.
— A gente não tinha noção da pluralidade dessa obra, das experimentações, da diversidade temática, de gêneros, de como se ele reinventa o tempo inteiro — exalta Alfredo. — As músicas falam de incesto, suicídio, prostituição infantil, de homem gay sem estigma, até do amor mais rasgado. São muitos temas e abordagens. Daria para fazer, só com a Barca, uns 30 espetáculos sobre Gonzaguinha.
Creditada como consultora criativa, Nanan Gonzaga, uma das três filhas do artista — o outro é o cantor e compositor Daniel Gonzaga —, forneceu material inédito para o espetáculo. Há uma crônica intitulada “Nada como ser cantor e compositor no Brasil”, em que ele, ali pelo final dos anos 1970/início dos 1980, ironiza como era preciso fazer muitas coisas sozinho para se manter como artista.
E há uma carta, datada de 22 de outubro de 1990, na qual ele parece realizar um balanço da vida. No final, diz: “O equilíbrio não é estático, o ponteiro oscila. Zerei legal. Falta pouco.” Ele morreria em 29 de abril do ano seguinte, aos 45 anos, num acidente de carro. Na terça passada, ele teria completado 81 anos.
— Procurei mostrar mais a pessoa do que o artista. É a vida em casa, com a família, a rotina — diz Nanan, que já gravou um disco com músicas do pai e hoje trabalha como diretora teatral.
Ela recordou o dia em que Gonzaguinha chegou de viagem trazendo um cubo de tecido e o transformou num dado, para brincar com as filhas. A história deu origem a uma cena interativa do espetáculo: o público escolhe entre seis músicas qual será a cantada naquela sessão.
Nanan celebra o pai ser muito lembrado. Houve homenagens em 2025, por causa dos 80 anos, e neste mês estreou nos cinemas o documentário “Gonzaguinha, da maior liberdade”, de Susanna Lira.
— Acho maravilhoso ele ainda ser um artista presente 35 anos depois da morte num país em que a memória é curta — afirma ela, destacando ainda o lado político e social da obra de Gonzaguinha. — Ele não está aqui para testemunhar que algumas coisas, infelizmente, não mudaram.
Brasil que avançou pouco
Na peça estão, por exemplo, “Comportamento geral” e “É”. Gonzaguinha ganhou, na década de 1970, a alcunha pejorativa de <strong“cantor rancor”, por causa do inconformismo com a situação do país, então sob uma ditadura.
— Ele é muito atual. Não à toa, o título da peça é “Gonzaguinha é” — ressalta Inez. — Fala de um Brasil que avançou pouco. A gente ainda luta pelas mesmas coisas.
Uma cena mostra Gonzaguinha no Riocentro na noite de 30 de abril de 1981. Foi ele quem avisou ao público que, do lado de fora do show, duas bombas haviam explodido. Uma delas no carro em que estavam dois militares responsáveis pelo atentado. O público e artistas saíram ilesos.
A morte do compositor, ocorrida numa estrada do Paraná, não é narrada em detalhes.
— É mais falar da saudade do que da morte — diz Beto Lemos. — Mais para o final, tem uma cena em que uma filha diz: “Você vai viajar?” Nisso se canta uma canção linda, “Coração”. A letra já trata disso, de despedida.
A Barca, hoje com quatro pessoas, já teve sete. O grupo fez muito sucesso com “Gonzagão — A lenda” (cinco anos em cartaz, viajando pelo país), “Suassuna — O auto do reino do Sol”, “Auê” e “Ópera do malandro”, entre outros. Sempre trabalhou com a Sarau, de Andréa Alves, que é próxima da família Gonzaga há muito tempo e idealizou “Gonzaguinha é”.
Segundo a produtora, a Barca já recebeu 145 indicações a prêmios, conquistando 56. Apenas “Suassuna” — que deverá retornar em 2027, nos 15 anos da companhia — ganhou 27. As apresentações chegaram a cerca de 670 mil espectadores.
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