Curiosidades

Zuenir Ventura, o doce vampiro

Quando jovem repórter, "lá ia eu, cumprindo as ordens do vampiro...", lembrou Joaquim Ferreira dos Santos

Agência O Globo - 22/09/2026
Zuenir Ventura, o doce vampiro
Zuenir Ventura

Quando Zuenir Ventura, que morreu nesta terça (22/9), completou 95 anos em junho deste ano, o colunista do GLOBO, Joaquim Ferreira dos Santos, publicou uma homenagem ao jornalista. Leia o texto.

A primeira vez que vi Zuenir Ventura – 95 anos hoje – ele vestia um macacão de frentista de posto de gasolina, talvez na cor azul tinteiro, um traje tão exuberante quanto o seu atual fardão, verde de frisos dourados, da Academia Brasileira de Letras. Foi no final dos anos 1970.

Ele acabara de lançar o macacão, e também as meias listradas, entre a vanguarda intelectual de Ipanema. Era reflexo, certamente, de sua temporada como correspondente na França dos modismos, quando esteve em Saint-Tropez. A visita coincidiu com o momento em que as moças da cidade baixavam as cinturas das saias e das calças:

"O umbigo, ah, umbigo", escreveu o futuro imortal em sua primeira crônica para a revista Senhor, em 1961. Em seguida, com estilo e bom humor, especulava qual seria a forma perfeita da pequena joia recém-revelada: "O barroco retorcido, verdadeiro labirinto de espirais, rico, volumoso, heroico? Ou o clássico, redondo, profundo, misterioso?"

Naquela primeira vez em que vi Zuenir Ventura, ele assumia a chefia da redação onde eu era parte de uma equipe de repórteres, todos 20 anos mais jovens. Zuenir era um “doce vampiro”. Gostava de cravar os dentes no pescoço suculento dos moços sob seu comando e, em troca do sangue renovado, oferecia a todos, sem professorar, lições de um jornalismo ético, moderno e bem escrito. A propósito, reparem no pescoço da foto acima os sinais de quem foi mordido e agora escreve, como se acendesse uma vela, para agradecer.

Certa madrugada, insatisfeito com os números sobre a multidão reunida para uma missa papal em frente ao Monumento dos Pracinhas, Zuenir foi até lá munido de um rolo de barbante. Sob o olhar atônito dos guardas, mediu a área ocupada pelos fiéis, multiplicou o resultado pela densidade média de pessoas por metro quadrado – e, o dia já nascendo, chegou a um número mais confiável do que o olhômetro das demais fontes.

Grandes jornalistas costumam preferir as editorias das manchetes, dos melhores salários e da ilusão de ali se exercer o degrau mais elevado da profissão. Zuenir foi grande em todas. Preferia, porém, cultura, comportamento, moda, cidade e outras pautas desprezadas pelos demais monstros sagrados, fanáticos da Ordem Primeira da Pirâmide Invertida.

E lá ia eu, cumprindo as ordens do vampiro, cobrir o verão da abertura política de 79/80, a amizade colorida entre Caetano e Regina Casé, a sunga de crochê da Leda Nagle usada pelo guerrilheiro Gabeira e os casais que se anunciavam dispostos ao troca-troca nos classificados do Jornal do Brasil. Um pauteiro genial.

Um dia, ao iniciar o expediente, encontro uma lauda espremida no rolo da máquina de escrever. Era um bilhete de Zuenir:

- Joaquim, por que você não se inscreveu no curso do Hélio Silva? Você leu o ‘Conversas na Catedral’, do Vargas Llosa? Viu a exposição do Tunga na Funarte? E o “Trate-me Leão” no Dulcina?

Eu era jovem e, de início, zanguei – repórter esforçado, tinha ticado a maioria dos itens. Hoje, emoldurado no centro de um fino passe-partout, o bilhete me olha da parede ao lado da mesa onde escrevo. É mais uma vela acesa ao seu autor. A cobrança renova todo dia a necessidade de, mesmo tendo visto isso ou lido aquilo, procurar outros interesses. Cravar os dentes em jugulares desconhecidas para honrar a geração dos vampiros de Zuenir – 95 anos hoje, mas eterno como é próprio aos da sua espécie.