Curiosidades
Morre Zuenir Ventura: em última coluna no GLOBO, jornalista refletiu sobre pandemia, racismo e a violência no Brasil; leia
Jornalista e imortal da ABL morreu nesta terça-feira aos 95 anos; em sua despedida no jornal, publicou texto sobre Moïse
A última coluna no GLOBO foi publicada em 8 de fevereiro de 2022, em meio à pandemia de Covid-19 e à nova onda provocada pela variante Ômicron. No texto, intitulado “A causa do cansaço”, o jornalista tratou do desgaste dos profissionais de saúde, criticou a condução da crise sanitária pelo governo e, na parte final, relacionou a violência contra Moïse Kabagambe ao preconceito e ao racismo no Brasil. Zuenir morreu nesta terça-feira, aos 95 anos.
A coluna começava com a chegada de Marcelo Queiroga ao Ministério da Saúde e uma comparação com a gestão de Eduardo Pazuello. Zuenir reproduziu uma declaração atribuída ao então ministro: “Um manda, e o outro obedece”.
O jornalista também mencionou a CPI da Covid e o relatório final que apontava Jair Bolsonaro como um dos principais responsáveis pela tragédia sanitária.
Na coluna, Zuenir afirmou ainda que havia acusações de nove crimes contra o então presidente, entre eles charlatanismo e prevaricação. Na segunda parte, escreveu sobre a mãe de Moïse, que havia contado que veio com a família para fugir da violência e buscar paz. A história levou o jornalista de volta a Paris, em 1960, quando fazia um curso de extensão em jornalismo como bolsista.
Leia na íntegra:
A causa do cansaço
Alguns otimistas esperavam que o quarto Ministério da Saúde do governo Bolsonaro fosse oferecer resultado melhor, já que seria preenchido por um médico, o cardiologista Marcelo Queiroga. Esqueciam o que o ocupante anterior do cargo, o general Eduardo Pazuello, havia afirmado publicamente: “Um manda, e o outro obedece”. O presidente é quem manda. Sentado ao lado, o alvo da declaração deu um amplo sorriso de apoio.
Se precisasse de confirmação, ela viria com a CPI da Covid, que apontou em seu relatório final o presidente Bolsonaro como um dos principais responsáveis, senão o principal, pela maior tragédia sanitária da história do país, que já havia causado 600 mil mortes. Pesaram então sobre ele a acusação de nada menos que nove crimes, entre os quais charlatanismo e prevaricação.
O que há de mais impactante na recente pesquisa revelada pela jornalista Evelin Azevedo, promovida pela Associação Médica Brasileira (AMB) em parceria com a Associação Paulista de Medicina (APM), é que a maioria dos participantes (51%), a própria classe, reprova a condução da pandemia pela atual gestão. Trinta e quatro por cento classificaram a atuação como péssima; 16,6%, ruim; e 21%, como regular. Apenas 14,6% dos médicos têm a pasta como referência para indicar um tratamento. A maior parte (65,1%) se baseia na orientação das associações de especialidades e associações médicas.
A nova onda de Covid-19 provocada pela Ômicron gerou um forte impacto emocional nos médicos, que se disseram apreensivos (51,6%), esgotados (51,1%) e ansiosos (42,7%). Sem falar nos colegas de trabalho que se sentem estressados (62,4%), sobrecarregados (64,2%) ou exaustos (56,2%).
Quem melhor resume o atual estado físico e de espírito geral é o médico José Luiz Gomes do Amaral, presidente da APM. Além do aumento de casos e da diminuição de profissionais em atividade devido à contaminação, ele aponta como causa maior do cansaço físico e emocional a “sensação de que estamos enxugando gelo e de que a pandemia não vai acabar logo”.
Essa “sensação” é confirmada pelos números, que continuam superando as 700 mortes diárias, vítimas do que Bolsonaro considera uma “gripezinha”.
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A mãe de Moïse explicando que veio com a família fugindo da violência, em busca de paz, me remete a Paris, 1960, quando, bolsista, fazia um curso de extensão em jornalismo. Éramos uns 20 alunos — a maioria africanos e dois brasileiros, Roberto Muggiatti e eu. Nosso ídolo era Patrice Lumumba, herói da independência do Congo, cuja história de lutas e conquistas elevou-o ao lugar mais alto do panteão de glórias do continente africano.
O fascínio de nossos colegas estrangeiros, porém, baseava-se numa ilusão: que o Brasil como eles sonhavam era feito de “Garrinchá e Pelê”, seus ídolos. E de mulheres oferecidas. “Et les femmes, Vanturrá!”, diziam para mim. Achavam, com certeza, que em Copacabana belas cariocas de biquíni não lhes dariam sossego.
Confesso que, quando vejo dona Ivone inconsolável com a morte brutal do filho, me comovo lembrando que essa ainda é a ilusão de muitas donas Ivones em relação a esse Brasil, preconceituoso e racista.
Mais de duas décadas no GLOBO
Zuenir começou a escrever como colunista de O GLOBO na edição de 30 de janeiro de 1999. Na estreia, falou justamente sobre mudança e o desconforto provocado por transformações pessoais e profissionais:
“Não é a primeira vez que mudo de emprego, deve ser a décima, mas espero que seja a última. Agora, no que depender de mim, só saio desta para melhor. Não mudo mais nem de assunto. Mudança dá sempre um friozinho no estômago, mexe com nossas inseguranças e mobiliza nossas velhas incertezas. Por melhor que seja, ela não existe sem dor. Ah, é horrível”.
Ele começou no jornal com uma coluna semanal no Segundo Caderno e, posteriormente, passou a publicar duas crônicas por semana na editoria de Opinião. Ao longo dos anos, escreveu sobre costumes, política, futebol, violência, cultura, a cidade e experiências pessoais.
Na mesma estreia, Zuenir também refletiu sobre a relação entre mudança e inércia:
“Enquanto a mudança é transformadora, a inércia, por natureza, não leva a lugar nenhum, ou leva ao desastre. O Brasil, por exemplo, acaba de ir para o beleléu por não saber ou não ter tido a coragem de mudar na hora certa — de política, de economia ou de presidente”.
A carreira de Zuenir Ventura
Nascido em Além Paraíba, em Minas Gerais, Zuenir se mudou para Rio de Janeiro em 1954. No início da carreira, trabalhou em Paris como correspondente da Tribuna da Imprensa, durante o período em que estava na capital francesa por causa de uma bolsa de estudos.
Depois de voltar ao Brasil, passou pelo Correio da Manhã, pela revista O Cruzeiro e pela chefia da sucursal carioca de Visão. Em 1977, assumiu a chefia da sucursal carioca de Veja.
Em 1969, escreveu para a Editora Abril a série “Os anos 60: A década que mudou tudo”, que posteriormente virou livro. Recebeu o Prêmio Esso por reportagens produzidas em conjunto com outros colegas sobre a morte de Cláudia Lessin e também por uma série sobre o assassinato de Chico Mendes. Este último trabalho lhe rendeu ainda o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos.
Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, e os dois filhos do casal, o jornalista Mauro e a editora Elisa.
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