Curiosidades
O conceito de galã mudou? Thiago Lacerda responde; assista
Em entrevista ao videocast 'Conversa vai, conversa vem', ator reflete sobre o arquétipo do herói, diz que seu personagem atual na novela 'Por você' discute as 'dificuldades do masculino' e afirma que nunca acreditou em rótulo
Thiago Lacerda
Conversa vai, conversa vem
O rótulo de galã já te incomodou ou definiu suas escolhas?
Sempre compreendi que era uma necessidade cultural. Temos essa necessidade da caixinha. Está tudo certo. Se funciona, se é uma necessidade do público, das pessoas, da crítica, legal, eu aceito. Talvez, seja um aspecto de quem somos. Mas, para mim, nunca fez sentido. Tem gente que recebe como crítica ou algo depreciativo. Recebo como um elogio. Minhas escolhas nunca passaram por essa lógica. Não tinha por que me fazer mal, mas também nunca acreditei nisso.
Mas o conceito de galã viril, de Francisco Cuoco e Tarcísio Meira pra cá, mudou bastante, né? Como deve ser o galã de hoje?
Não sei como deve ser esse masculino hoje no lugar do protagonismo, do herói, do anti-herói. O que sinto é que ele precisa ser repensado com coragem. As coisas estão muito estranhas nesse debate.
Que herança da masculinidade tradicional precisa ainda abandonar?
Não tenho nenhuma intenção de criar a ilusão de que não somos inseridos num contexto histórico. Somos herança e produto de 500 anos de uma história de colonização, preconceito, opressão, machismo. O patriarcado tem muito mais do que 500 anos. Tudo isso habita a gente. O meu trabalho cotidiano é jogar luz sobre essa natureza e vigiar ela. Me transformar, me modificar e aprender. Quando o tema vira patriarcado, machismo e a masculinidade que está em xeque, e que bom, prefiro mais ouvir do que da opinião. Busco ser esse masculino que aceita o processo de transformação, de reflexão. Me mantenho atento pra desconstruir essa constituição que faz parte de mim, é herança concreta. Lutar contra essa natureza preconceituosa, machista é um propósito cotidiano.
Gabriel, seu personagem na novela 'Por você', é diferente dos heróis românticos e épicos que interpretou na TV. É um homem contemporâneo fora do estereótipo de macho alfa, com masculinidade menos rígida, cheio de afeto, insegurança, vulnerável...
Gabriel parte do trauma do abandono na infância. A possibilidade de buscar essa fragilidade, a sensibilidade com que transmuta a dor em dedicação, atenção e amor nas relações, principalmente com a filha... A despeito do protagonismo feminino ser evidente e concreto, os temas da ausência da paternidade, machismo, dificuldades do masculino são urgentes de debater. Gabriel investiga esse masculino que precisa ser tratado com mais dignidade e cuidado. Fico feliz em ser instrumento de provocação a respeito do que pensamos sobre a natureza masculina.
Como homens devem contribuir no processo de apoio à igualdade de gênero, no combate da violência contra a mulher? De cara, não se eximir da importância de se perguntar: 'Que tipo de masculino eu represento'. A humildade de olhar pra si primeiro. E não se eximir, não se furtar da responsabilidade do debate. De forma humilde, com a escuta atenta e coragem de repensar comportamentos, cultura e o lugar de onde a gente vem.
O que tem de você no Gabriel? Muita coisa. Me reconheço nele. No final das contas, é sobre isso: a gente se misturar com as figuras que investiga. A arte é também transmutação, caminho de cura e transformação, oportunidade de processar nossas dores, tristezas, memórias, saudades.
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