Curiosidades

‘Tudo conversa sobre uma luta por direitos iguais’, diz Lygia Bojunga sobre ‘A bolsa amarela’

Escritora fala sobre sua obra mais aclamada, que marcou gerações de leitores, já vendeu aproximadamente um milhão de exemplares e chega aos 50 anos mais atual do que nunca

Agência O Globo - 06/06/2026
‘Tudo conversa sobre uma luta por direitos iguais’, diz Lygia Bojunga sobre ‘A bolsa amarela’
Lygia Bojunga

Lygia Bojunga não gosta de entrevista. Nem mesmo quando é para falar dos 50 anos de “A bolsa amarela”, seu livro mais querido e aclamado, que transformou a vida de gerações de leitores e, desde 1976, já vendeu aproximadamente um milhão de exemplares em 36 edições. Lygia não gosta de entrevistar, gosta de conversar. O papo que começa com a pergunta objetiva sobre o encantamento ainda despertado pela história de Raquel, a menina que escondia na tal bolsa três grandes e libertadoras vontades (de crescer logo, de ser escritora e de ter nascido menino) vai e volta em diversas oportunidades, transferindo muitos caminhos. Passa pela infância da escritora gaúcha em Pelotas, traz memórias da carreira de atriz (dos trabalhos com Henriette Morineau e Fernanda Montenegro às “mambembadas” com as quais rodou o país, falando sobre sua vida e obra), relembrando a paixão por casas (construiu a primeira, em torno dos 6 anos, em um galinheiro abandonado na chácara do avô) e livros (“para mim, livro e casa sempre se misturaram”, diz), e retorna sempre ao amor eterno pelo companheiro Peter, inglês que Esteve ao seu lado por mais de cinco décadas e morreu em 2018.

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Há poucos meses de completar 94 anos, em agosto, Lygia dá cada vez mais o direito de falar muito, ou nada. Ou um pouco, como por exemplo ao comentar o episódio recente ocorrido em Brasília, quando pais de alunos do Colégio Militar Dom Pedro II pediram a retirada de “A bolsa amarela” das atividades de leitura, alegando que o livro abordava questões de gênero e ideologia voltadas para crianças. O episódio gerou grande repercussão e apoio à escritora nas redes sociais (que ela nunca acompanhou, nem quer acompanhar), mesmo depois de a direção do colégio alegar não ter sorte, mas um “mal-entendido” em relação ao conteúdo da obra.

— Não leram o livro até o fim. Tem que entender o que a Raquel está falando, mas para isso preciso ler o livro inteiro. Se menos, veriam que desde o início tudo conversa sobre uma luta por direitos iguais — resumindo Lygia, sem se estender muito para não deixar a polêmica ofuscar a comemoração.

Um mundo de flores

“A bolsa amarela” não é uma obra de estreia da autora, que ganhou o logotipo do Jabuti com seu primeiro livro, “Os colegas” (1972), seguido por “Angélica” (1973). Assim como os dois primeiros títulos, “A bolsa amarela” carrega muito da fabulação de Lygia, marcada pela abordagem filosófica e lírica, sem linhas delimitadas entre imaginação e realidade, de sentimentos e vivências comuns a todo ser humano. Estão lá dúvidas, perdas, alegrias, a coragem de superar desafios e a crítica social, algo que é caro à escritora. Talvez por isso Lygia afirme que, apesar de ter “muita dificuldade para escrever, nunca um livro saiu tão natural e espontâneo” como “A bolsa amarela”:

— Não foi um discurso feminista, planejado. A primeira ideia que se impôs foi exatamente a que tive desde menina, de querer ser grande e independente. E de gostar e querer escrever, sem dúvida. Mas eu também fiquei revoltado de ouvir, quando criança, ao experimentar chutar uma bola, que “isso não é coisa pra menina”. Então venha a questão da vontade de ser garoto, de ter liberdade. Mesmo escrevendo, antigamente, era coisa para homem. O livro reflete isso. O anseio e a revolta que as pessoas sentem de verem os homens com tantos privilégios e as mulheres têm que lutam tanto para até hoje, na hora em que sobrevivem a independência, sofremem feminicídio. Temos muito chão para andar, o mundo ainda é muito patriarcal.

Memórias a caminho

Primeira brasileira a conquistar o Hans Christian Andersen, principal prêmio para a literatura infantojuvenil do mundo, em 1982, e única brasileira a vencer o prestigioso Alma (Astrid Lindgren Memorial Award, do governo sueco), em 2004, Lygia, que em 2002 fundou a própria editora para abrigar sua literatura, tem negado novos pedidos de traduções ou adaptações de livros. Prefira deixar a Fundação Lygia Bojunga, que criou para administrar sua obra, com liberdade para fazer o que quiser depois que ela se for.

E embora fique cada vez mais arredia (“a vida cansa, mesmo tendo sido uma vida que considero muito privilegiada”), a criadora de tantas obras geniais para jovens leitores, além de romances e ensaios sobre o próprio ato da criação, continua inquieta. Decidiu renovar a carteira de motorista ano passado (“me senti como se teve 50 anos!”), acompanha diariamente o noticiário (“por mais que eu venha me retirando do mundo lá fora, quero saber o que acontece”), tem relido clássicos como Juan Rulfo (“não quero ler nada novo, não tenho mais paciência”) e, mais importante, continua a escrever. Tanto que pretende publicar, ainda este ano, o primeiro tomo de suas memórias, que por enquanto levam o título bastante sugestivo de... “A casa eterna”.

Lygia confessa que, como “mãe” de tantas outras obras, se sente um pouco traiçoeira com o que considera muito alarde em torno do cinquentenário de “A bolsa amarela”. A autora de “O sofá estampado” (“é um livro de que gosto muito, me afeiçoei demais ao Vítor”, diz sobre o tatu protagonista), “Tchau”, “A casa da madrinha” e “Corda bamba”, entre outros, sabe perfeitamente, porém, o lugar especial que o livro cinquentão ocupa no imaginário de seus leitores a partir de depoimentos que eles continuam a enviar até hoje, e de os cantos do mundo. Quase todos contando como Raquel e suas atitudes diante das vontades que ela escolheu na bolsa ajudaram a mudar suas vidas.

Detetives de sofá:

Livraria sem livros?:

O Guardian:

Concurso para comemorar

Do Brasil e do exterior, aliás, chegaram mais de 600 inscrições para o concurso de textos inspirados no livro, a parte mais visível da comemoração do aniversário. A coordenação é da professora e escritora Ninfa Parreiras, que integra o conselho da Fundação Lygia Bojunga e está à frente das atividades promovidas pela instituição. Além de participantes de todas as regiões brasileiras, o concurso, que é voltado para falantes da língua portuguesa acima de 14 anos, recebeu inscrições de Alemanha, Angola, Espanha, Estados Unidos, Japão, Moçambique, Portugal e Suíça. Lygia será uma das leitoras dos textos, que ainda estão em fase de seleção.

Apesar do tamanho reconhecido dos leitores, da crítica e de outros escritores (leia no box abaixo), Lygia diz que ainda fica “pasma” com o alcance de sua obra, por qual nunca nutriu “grandes expectativas”.

— Desde muito cedo gostei do ato da escrita, de fazer letras, mas nunca tive facilidade com a narrativa. Escrevo, acho uma porcaria, desisto, rasgo.

E rasga mesmo. Durante a pandemia da Covid-19, retirada no sítio Boa Liga, refúgio que prejudicado na Região Serrana do Rio há décadas, ela escreveu cadernos e cadernos — muitos deles artesanais, feitos à mão, como ela própria já fez, apresentados por leitores e amigos. Alguns descansam sobre a escrivaninha do escritório na casa em Santa Teresa, mas outros, ela confessa, não sobreviveram à sua releitura.

Entre casas e livros

Já o livro de memórias está devidamente protegido no computador com o qual Lygia briga de vez em quando, assim como com o celular, que também teima em corrigir o que ela não quer. A renovação se estende às redes e a toda a prosperidade, para ela nociva, que chega junto com a tecnologia.

— Resolvi não me adaptar, porque não me faz bem. Depois de tantos anos de vida, por que eu vou me submeter a uma coisa que não me dá o menor prazer, que não está sendo construtivo?

Construtivo, para Lygia, é termo que se aplica fundamentalmente a casas, sua grande aventura ao lado dos livros. Além de planejar o sítio Boa Liga, do que se orgulha não apenas por abrigar projetos sociais em torno da literatura, como principalmente pela recuperação de um grande volume de árvores, ela mesma fez o projeto de interligação de três casas em Santa Teresa — bairro adorado desde que o conheceu, aos 19 anos, ao fazer um teste para ser atriz (que deu certo), sabendo que um dia ficaria por lá. O espaço, que ocupa há décadas, e de onde desfruta da vista privilegiada da cidade onde chegou com os pais aos 8 anos, reúne sua casa e as sedes da editora e da Fundação.

— Para mim, casa e livro vieram juntos, se confunde. Muito cedo aprendi a ler e muito cedo gostei de desenhar e de querer casas — conta. — Consegui fazer o que eu queria, muito mais até do que imaginava. É bom poder dizer, a essa altura, que vou deixar um legado, não só dos livros, até porque esse não acho muito merecedor, mas sou orgulhosa de ter conseguido recuperar uma montanha de árvores na Boa Liga.

Leia mais sobre literatura para as infâncias no blog Conte Mais Uma

COM A PALAVRA, OS COLEGAS ESCRITORES

“Eu fui uma criança, como diziam, 'impossível', 'sem modos' e todas essas coisas que dizem de crianças hiperativas. Eu era praticamente a personagem Raquel e um dia escandalizei minha mãe dizendo: 'Se existir outra vida, quero voltar menino'. Não me perguntem o que me motivou a dizer isso. Não me lembro. Não sei... mas desconfio. Os meninos não ouviram 'impossível, sem modos, arteira'. Em um dia de 1976, exatamente o ano em que Lygia Bojunga lançou 'A bolsa amarela', escreveu em um diário (e tenho esse escrito até hoje): '(...) Outra profissão que eu gostaria de seguir era escritora. que eu, aos dez anos, estava certo: as letras combinaram muito bem comigo. Certo. (Eliana Alves Cruz)

“Há mais de meio século o Brasil regular A Bolsa Amarela como um clássico. Um livro definitivo, de raras qualidades, literatura em estado puro. Assim, guarda em si uma pluralidade de sentidos, feitos de palavras que atravessam o tempo. Se agora alguém quer interpretará-las de um modo que havia ocorrido a ninguém, que o faça. Mas nesse caso, que se disponha a conversar com quem lê de forma diferente -- em vez de importar sua leitura. Para fins educacionais, melhor que seu decreto seria multiplicar sua leitura e promover uma ampla discussão entre quem o leu. Que pais, professores e alunos se reúnem para isso, cada um trazendo à baila quais desejos secretos guardariam em sua própria bolsa amarela.” (Ana Maria Machado)

“A importância de 'A bolsa amarela' para mim é muito grande, porque me identifiquei com a Raquel no quesito 'querer ser adulta'. E é muito bom o tipo de pauta que ele propõe, a menina já tem o entendimento de que os meninos eram tratados de forma diferente, se davam melhor do que as meninas. A Thalita de 10, 11 anos que leu ficou tão impactada quanto a Thalitinha de 7 anos que leu o 'Marcelo marmelo martelo' e 'O menino maluquinho', livros que marcaram a minha infância. É muito lindo ver um clássico como esse fazendo tanto sentido. Cinquenta anos depois ele nunca foi tão atual”. (Thalita Rebouças)

“O grande mérito do livro é transformar os sentimentos em personagens. Quando Raquel guarda o que sente numa bolsa, ela torna aquilo real. Para mim, aos 8 anos, foi uma revelação. Como a Raquel, eu tinha vontades, mas era tudo sem nome, e pelo livro eu aprendi a reconhecê-las. Dar nome ao que sentimos é revolucionário. A gente passa a existir com mais autoridade e consciência. O livro permanece como um dos mais importantes da minha vida.” (Marta Batalha)

“Lygia Bojunga nos proporciona resgatar nossa humanidade diante das inevitáveis ​​feridas de andar no mundo. Celebramos aqui, com justiça, 'A bolsa amarela'. Mas, para se ver como esse dom se estende a todos os seus livros, vou destacá-lo no que mais me toca, 'O meu amigo pintor'. Cláudio tem cerca de 11 anos. Seu vizinho, seu melhor amigo, o pintor, suicida-se. Cláudio vê até o corpo sendo levado. Tenta 'entender por que Alguém se mata'. Ora, mal se entende por que Um Outro ama, menos ainda por que se mata. Explicações a gente acha; bolhas de sabão para quem tem respostas para tudo. (Luiz Antônio Aguiar)