Curiosidades
Artigo: O palco e o chão de fábrica
Entre 2024 e 2025, foram lançados cerca de 400 filmes nacionais. Mais da metade não vendeu nem mil ingressos
Na semana passada o governo promoveu uma série de anúncios para o setor audiovisual, em cerimônia no Rio2C, um dos principais eventos do audiovisual no país. Linhas de crédito, um plano de exportação, o lançamento de um streaming público de acervo. Tudo embrulhado como política industrial: Ministério da Indústria à frente, plano nacional, o audiovisual apresentado como setor que pesa no PIB.
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Curiosamente, na mesma semana, acontecia em Campos do Jordão o encontro anual entre distribuidores e exibidores, onde se revelam os filmes que vão ocupar os cinemas nos próximos meses.
No primeiro palco, presidente, ministra, tela montada. Anúncios grandes e mecanismos pequenos. Ou nenhum. O plano de exportação não tem taxa, não tem teto, não tem critério. O streaming paga R$ 20 mil por um longa, sem exclusividade, e se chama política para o audiovisual. As linhas de crédito existem no comunicado, mas não no edital.
No segundo palco, o mundo real. Line-up contra line-up. Data contra data. Bilheteria contra bilheteria. O filme nacional medido, de igual para igual, contra o que as majors despejam no mercado. É ali que se decide o que o brasileiro vai, ou não vai, assistir. É o chão de fábrica. É a vida real do setor.
Não havia cadeira oficial do governo nesse segundo palco.
E essa ausência não é detalhe de agenda. É a tese inteira num gesto.
Não se faz política industrial sem compreender a indústria. E não se compreende a indústria de longe, por anúncio. O governo quis o nome, mas faltou ao lugar.
Examinemos as três medidas anunciadas.
A primeira, o streaming Tela Brasil. Acervo público, gratuito, login do governo. Memória, não mercado. Não move uma única tela, não disputa um único espectador pagante. É política de patrimônio vendida como política de competitividade.
A segunda, linhas de crédito a juros subsidiados. Ótimo. Só que isso já existe, via FSA, e com recurso sobrando, não acessado. O problema nunca foi a oferta de crédito. Financiamento reembolsável é para empresa estruturada, que pode oferecer garantias. Quem o programa diz querer ajudar não tem garantia a dar. E quem tem, já acessa. Anunciar como novidade o que já existe e sobra é não conhecer o gargalo.
A terceira, um plano de exportação. Aqui o erro é de ordem. Exportação é consequência, não ponto de partida. Os modelos citados pelo próprio governo, Índia, China, Coreia do Sul, conquistaram primeiro o mercado interno. Cota de tela, integração vertical, público em casa. Só então venderam lá fora. Não se exporta o que o próprio país não assiste. Começar pela exportação é começar pelo fim.
Enquanto isso, a vida real mostra o caminho. Entre 2024 e 2025 foram cerca de 400 filmes nacionais lançados. Perto de 200 por ano. Bilheterias irrisórias: mais da metade não vendeu nem mil ingressos. De toda essa produção, os que cruzaram a barreira do milhão de espectadores se contam nos dedos. Sete títulos. “Farofeiros 2”, “Minha irmã e eu”, “Nosso Lar 2”, “Chico Bento e a Ggoiabeira maraviosa”, “Ainda estou aqui”, “O agente secreto”, “Auto da Compadecida 2”.
Não poderiam ser mais diferentes entre si. Mas têm um denominador comum. Orçamentos robustos, para o nosso padrão. E projeto estruturado, focado, sabendo exatamente o que era e para quem era antes de gastar o primeiro real. Capital de escala somado a projeto coerente. Uma coisa sem a outra não cruza o milhão. Essa é a competência que vence mercado.
Exemplos, informações e recursos não faltam para implantar uma verdadeira política industrial para o audiovisual brasileiro. Mas seguimos com a nossa incrível capacidade de perder oportunidades.
Dois palcos na mesma semana. Em um, anunciou-se o que se quer que o setor seja. No outro, viu-se o que o setor de fato é. O governo escolheu o primeiro. E não mandou ninguém ao segundo. E uma única ação mudaria o jogo: a regulamentação do streaming. O governo teve quatro anos para fazê-la e não fez. Somos talvez o último grande mercado audiovisual relevante do mundo a operar sem qualquer obrigação de investimento local. Bilhões gerados aqui seguem drenados para fora do sistema produtivo nacional. Simplesmente inaceitável. Esse show pirotécnico poderia ter sido trocado por essa única medida. E o aplauso seria merecido.
* Bruno Wainer é diretor da Downtown Filmes
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