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Regina Casé sobre filha PCD: 'Só não virou atriz antes por capacitismo meu e dela'

Em entrevista ao 'Conversa vai, conversa vem', atriz lembra quando médicos disseram que Benedita Casé jamais conseguiria falar após sofrer perda significativa de audição e elogia estreia dela no cinema e teatro: 'Explodindo de orgulho'

Agência O Globo - 04/06/2026
Regina Casé sobre filha PCD: 'Só não virou atriz antes por capacitismo meu e dela'
Regina Casé - Foto: Reprodução

Regina Casé

Conversa vai, conversa vem

Deborah Colker.

Luana Piovani.

O fato de ter um filho preto (Roque) e uma filha PCD (Benedita) abriu os horizontes?

A gente sabe das grandes questões, alguém xingou de macaco... Mas ter um filho preto e uma filha PCD me levou para a sutileza, as nuances que não via antes. Por mais que estude, tenha letramento racial, anticapacitista, viver o dia a dia é diferente...

Benedita um antibiótico ototóxico e teve uma perda grande da audição ainda bebê. Os médicos diziam para eu ensinar libras, que ela não ia oralizar, falar. Ela se tornou uma ativista anticapacitista. Ela tinha pensado em ser atriz e não foi por capacitismo meu e dela.

Eu via que tinha ela uma observação do outro mais aguçada que a minha. Talvez, a surdez tenha contribuído. Como faz leitura labial, está o tempo todo olhando na cara da pessoa e prestando atenção. Nunca está com uma audição dispersa ou paralela. Eu achava ela engraçada, emocionante. Via que ela tinha uma intensidade na percepção do outro. E falava: "Tem que ser o psicanalista ou mãe de santo".

E acaba de estrear no teatro e rodar um filme...

Ela foi convidada para fazer um teste, tipo, na terça. Na sexta, estava filmando como protagonista. Eu fiz 30 filmes, ponta e participação especial até fazer uma protagonista. Ela já estreou como protagonista do longa "90 decibéis", que vai entrar na Globo e no Globoplay. Ah, que legal. Isso antes da peça, "Surda".

Fui ver o filme e parecia que era o trigésimo filme da Benedita. Fernandona (Montenegro) me mandou um de seus famoso áudios 2h da manhã, dizendo: "Regina, minha amiga, não consigo dormir". E disse a mesma frase que te falei sobre Benedita, que parecia que ela já tinha feito vários filmes.

Aí, ela foi para o teatro...

E eu disse: "Benedita, teatro é outra coisa. Tem que olhar as pessoas ali, não é só a coisa com a câmera". E ela arrasou. Tá engraçada, tem momentos dramáticos em que as pessoas caem no chão de chorar. Ela tem uma comunicação com a plateia incrível. E a primeira peça que ela faz é um monólogo, um solo. Está o tempo inteiro sozinha, dominando a plateia. Teve um domingo que faltou luz. Um apagão de 15 minutos.

A Daniela Thomas (diretora) estava assistindo e me disse no dia seguinte: "Regina, a Benedita voltou depois de 15 minutos no mesmo ponto, no mesmo lugar, como se ela fosse a atriz mais experiente". Eu tô explodindo de orgulho. E acho que ela tem qualidade que sempre intuí e, agora, como atriz, estou vendo: ela é de uma integridade, tão verdadeira que. Falei pra ela: "Se ser atriz dependesse de fingir, você não ia ser atriz". Porque tudo que ela faz... Ela não tem uma mãozinha, um olho sobrando. Ela está ali inteira. O tempo todo é verdade.