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‘Curucucus’, máscaras de boi e cavalos ornamentados: Cavalhadas de Pirenópolis completam 200 anos; conheça a festa em Goiás

Evento reúne encenações entre mouros e cristãos, mascarados e rituais religiosos que atravessam gerações e mobilizam milhares de visitantes em Goiás

Agência O Globo - 01/06/2026
‘Curucucus’, máscaras de boi e cavalos ornamentados: Cavalhadas de Pirenópolis completam 200 anos; conheça a festa em Goiás
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O Rio tem os desfiles das escolas de samba. Parintins, no Amazonas, reúne multidões em torno dos bois-bumbás. Pernambuco traz as festas de São João, enquanto Santa Catarina atrai turistas com a Oktoberfest. No interior de Goiás, porém, existe uma tradição marcada por cavalos ornamentados, mantos bordados, máscaras de boi e batalhas simbólicas que mobiliza moradores e visitantes todos os anos. Em Pirenópolis, as Cavalhadas ganharam um significado especial em 2026: a tradição completou 200 anos e reuniu mais de 60 mil pessoas no final de maio, entre domingo (24) e terça-feira (26), durante a Festa do Divino Espírito Santo.

Entre tambores e chamas:

Ruas de pedras, casarões e cachoeiras:

Reconhecida como patrimônio cultural brasileiro, a festa mistura religiosidade popular, teatro, música e cultura popular em uma programação que começou ainda no domingo de Páscoa, com ensaios, missas, novenas e cortejos. No campo das Cavalhadas, 24 cavaleiros divididos entre cristãos, vestidos de azul, e mouros, de vermelho, recriam batalhas inspiradas em conflitos medievais da Península Ibérica. Ao fim das apresentações, os mouros simbolicamente se convertem ao cristianismo.

Assista:

Há 44 anos participando da encenação, o empresário Adail Cardoso, de 61 anos, ocupa hoje o posto de rei cristão, posição máxima entre os cavaleiros. Ao GLOBO, ele afirmou que, das mais de quatro décadas na festa, 24 anos foram exercendo o cargo de rei, responsável por conduzir a apresentação e coordenar os demais participantes da encenação.

— Eu sou o puxa-fila, o que comanda a Cavalhada no total. É uma responsabilidade muito grande manter as tradições, porque, se deixar, algumas brincadeiras e competições vão acabando com o tempo. São 200 anos de festa. Isso aqui é o cartão-postal da cidade — afirmou em entrevista.

Adail mantém dois cavalos em uma baia particular durante todo o ano. Segundo ele, os animais recebem acompanhamento diário, alimentação e treinamento específicos antes das apresentações, cuidado compartilhado por muitos moradores que participam da tradição.

— Os cavalos ficam em uma baia fechada, com pessoas cuidando deles todos os dias. Eles são parte fundamental da festa — disse.

Além dos cavaleiros, a cidade também se movimenta nos bastidores. Costureiras, bordadeiras, artesãos e famílias inteiras passam meses preparando roupas, flores, máscaras e acessórios usados durante a festa. Em Pirenópolis, boa parte dessa produção continua sendo feita manualmente por moradores nascidos e criados na cidade, que mantêm a tradição passada entre gerações.

Mas tão populares quanto os cavaleiros são os mascarados, conhecidos como “curucucus”. Montados a cavalo, usando roupas coloridas e escondidos atrás de máscaras, eles circulam pelas ruas e invadem a arena para “atrapalhar a guerra” entre mouros e cristãos. Diferentemente dos cavaleiros, que seguem regras rígidas e representam posições hierárquicas dentro da festa, os mascarados simbolizam a participação popular nas Cavalhadas.

A máscara de boi, com grandes chifres e formatos artesanais, é considerada o principal símbolo dos mascarados e uma das imagens mais tradicionais da própria cidade de Pirenópolis. Ao lado dela, também aparecem figuras como as máscaras de catulé, feitas de tecido preto com olhos, nariz e dentes pintados em branco formando uma caveira, além de personagens inspirados em animais e figuras populares. O anonimato é parte central da tradição: além das máscaras, os participantes alteram a voz, emitindo o famoso som “curucucu”, que acabou dando nome aos personagens, conhecidos por trazer humor, irreverência e até críticas sociais para a festa.

Veja imagens:

Há mais de duas décadas saindo mascarado, o pirenopolino Anderson Batista, de 39 anos, mantém a tradição usando máscara de boi, confeccionada por artesãos locais. Para ele, a preparação da festa envolve praticamente o ano inteiro.

— A preparação vai muito além da roupa. Tem as máscaras, as flores dos cavalos, os bordados. Minha namorada ajuda, as costureiras ajudam, todo mundo participa. É uma tradição que veio do meu pai e do meu avô. A festa emociona a família inteira — contou ao GLOBO.

O estudante de 26 anos, Mateus Figueiredo, que já saiu com máscaras de boi e de catulé, afirma que a experiência de participar das Cavalhadas é difícil de traduzir para quem nunca esteve na cidade durante os festejos.

— A pessoa precisa vir conhecer para entender a sensação. A gente passa o ano preparando os cavalos, as roupas e as máscaras para manter viva uma tradição que vem dos nossos pais e avós — disse.

Parte importante dessa tradição é mantida por artesãos locais, responsáveis por produzir manualmente as máscaras usadas pelos mascarados. Há 22 anos trabalhando com o ofício, Edson Trindade, conhecido como Delão, fabrica máscaras de boi em um ateliê improvisado na própria casa, em Pirenópolis. Ele explicou ao GLOBO que o processo, chamado de papietagem, leva dias e envolve sucessivas camadas de papel, água e grude até que a peça ganhe firmeza suficiente para receber pintura, acabamento e os tradicionais chifres.

— Primeiro vem o papel seco, depois a cola, camada por camada. Vai para o sol várias vezes até chegar no ponto certo. Depois ainda tem que montar os chifres, fazer as orelhas e juntar tudo. É tudo artesanal — explicou.

Tradição passada de geração em geração

Além dos mascarados, tornar-se cavaleiro também é um processo longo dentro das Cavalhadas. O dono de uma estância de cavalos na cidade, Jorge Parreiras, de XX anos, esperou oito anos até conseguir entrar oficialmente na encenação neste bicentenário. Agora, ocupa a posição de 10º soldado entre os cristãos.

— Era um sonho de infância. Hoje eu me sinto privilegiado de ser um cavaleiro definitivo justamente nos 200 anos da festa — afirmou ao GLOBO.

Segundo Jorge, os novos integrantes são escolhidos em votação pelos próprios cavaleiros, seguindo uma fila de espera que pode durar anos. Antes de entrar oficialmente, muitos ajudam nos bastidores, participam dos ensaios ou acompanham a tradição como mascarados até surgir uma vaga.

As Cavalhadas chegaram a Pirenópolis em 1826, trazidas pelo padre Manuel Amâncio da Luz, mas têm origem em tradições portuguesas ligadas às histórias de Carlos Magno e aos conflitos entre cristãos e mouros na Idade Média. No Brasil, as encenações foram difundidas pelos jesuítas como instrumento de catequização.

Além de Pirenópolis, o Circuito das Cavalhadas de Goiás, organizada pelo governo de Goiás em parceria com as prefeituras municipais, também passa por cidades como Jaraguá, Santa Cruz de Goiás, Luziânia, Niquelândia, Palmeiras de Goiás e Posse, consolidando a tradição como uma das maiores manifestações culturais do estado. Em 2026, porém, Pirenópolis ganhou destaque especial ao celebrar os 200 anos das Cavalhadas, encenação que se tornou a principal atração da Festa do Divino Espírito Santo, reunindo mais de 60 mil pessoas, segundo a prefeitura da cidade.

Celebrada na cidade desde 1819 e reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan, a Festa do Divino mistura devoção católica e manifestações populares ao longo de várias semanas durante o período de Pentecostes, celebrado 50 dias após a Páscoa. A programação inclui o tradicional Giro das Folias, quando grupos percorrem áreas urbanas e rurais levando a bandeira do Divino, além de missas, alvoradas, cortejos, apresentação das Pastorinhas, levantamento do mastro, a coroação do Imperador do Divino e a distribuição de refeições, quitutes e doces, servidos gratuitamente para moradores e turistas. As Cavalhadas encerram a programação como principal atração da festa bicentenária.

A força visual e simbólica da tradição também ultrapassou Goiás neste ano. A encenação foi tema da exposição “Curucucu divino”, realizada na Galeria da Gávea, no Rio de Janeiro. O fotógrafo Fernando Young reuniu imagens produzidas durante as Cavalhadas de Pirenópolis de 2025 para retratar os bastidores, os mascarados e a atmosfera da celebração que, dois séculos depois, continua mobilizando gerações.