Curiosidades
'Intolleranza 1960': opera inédita no Brasil chega ao Municipal de SP com uma centena de artistas no palco
Montagem marca primeira vez de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska na direção de um drama lírico
Faz 25 anos que os artistas visuais Nuno Ramos e Eduardo Climachauska se aventuram em parcerias que vão do samba às exposições — em uma delas colocaram motoqueiros para rodar em um globo da morte em uma exposição de arte — passando ainda por cooperações cinematográficas. Depois, decidiram fazer um concerto de orquestra inspirado em distorções sonoras retiradas do filme "Terra em Transe" (1967), um clássico de Glauber Rocha. Faltava, quem diria, uma ópera dirigida pela dupla. E assim foi feito em “Intolleranza 1960”, do compositor italiano Luigi Nono (1924-1990).
Conversa vai, conversa vem:
Faz porque gosta:
A montagem, que começou sua temporada no dia 29 e seguirá até 6 de junho, com ingressos ainda disponíveis, reflete um mundo combalido pelo desfecho atômico da Segunda Guerra. Nele, o protagonista — chamado de apenas “Um imigrante” — é impactado, para além do pesado clima histórico, por revoltas trabalhistas e mais a truculência do Estado (a montagem tem soturnas figuras em cena que parecem oficiais de segurança, com câmeras presas ao uniforme descendo por cabos de aço presos ao teto).
— Essa história parece uma carta ao nosso tempo, existe a questão da migração, tem a violência do estado. Tem até a questão atômica que está voltando — afirma Nuno. — Tivemos que lidar com duas forças: uma música muito livre e com um funil de conteúdos muito forte. Há coisas inovadoras feitas na montagem já na época de seu lançamento como, projeções, sons gravados.
O caminho que a dupla encontrou para mostrar a lista de tragédias foi posicionar a ópera em um momento “após o desastre”, nas palavras de Nuno. Não era preciso encenar o personagem sendo torturado de maneira explicita, como ocorreu em outras montagens, por exemplo. A violência surge como forma de relato contado.
A ideia de que a peça relata um tempo distante, quase uma memória, é reforçada pelo poema do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) que faz parte do libreto.
— Esse trabalho tem justamente o nome de "Aos que vierem depois de nós" e se dirige aos que sobreviveram — diz Climachauska.
Cúpula de Hiroshima
Uma das primeiras decisões ligadas à realização da montagem foi a de recriar a cúpula do Memorial da Paz de Hiroshima, prédio que sobreviveu ao bombardeio atômico de 1945. A estrutura metálica é usada como uma divisão do palco, onde se desenvolvem partes da trama — é lá inclusive que são interpretadas reproduções "vivas" de gravuras do pintor Francisco de Goya (1746-1828) em que se mostra a crueza da guerra. Depois disso, a mesma estrutura torna-se suporte para uma centena de cubos de gelo, que representam a força da natureza contra os seres humanos.
Uma centena de artistas
A montagem também conta com 80 componentes do Coro Lírico Municipal, além de 16 bailarinos e cinco solistas. A certo ponto, a montagem chega a ter mais de uma centena de pessoas em cena (e fica difícil saber para onde é para olhar). O corpo de dança, porém, extrapola os limites do tablado e também se aventura por uma rampa construída do corredor central da plateia até a boca do fosso da orquestra — regida pela maestrina Priscila Bomfim.
A lógica do balé segue uma ideia de duplas. Há sempre duas figuras fazendo movimentos correspondentes, mas não com uma repetição exata. A ideia, explica o coreógrafo Alejandro Ahmed, é um “modo fantoche”.
— Cada solista tem um fantasma (um bailarino que fica imediatamente ao seu lado) e um contra-fantasma (outro profissional localizado na rampa). Desse modo, triangulamos os movimentos — avalia.
último contrato
"Intolleranza, 1960" é o último trabalho da Sustenidos sob as mãos da gestora do Municipal. O contrato acaba no fim deste mês e, depois disso, os rumos do Theatro serão de responsabilidade do Instituto Baccarelli. Que responderá pelo municipal nos próximos cinco anos. De acordo com a prefeitura de SP, o acordo tem valor total de R$ 663 milhões.
Antes do final oficial do contrato, o prefeito Ricardo Nunes chegou a demonstrar intenção de cancelar o contrato com a Sustenidos, em setembro do ano passado, após um funcionado da organização social ter comemorado, nas redes sociais, o assassinato do influenciador conservador americano Charles Kirk. A Sustenidos, porém, conseguiu se manter a frente da gestão até o fim de seu contrato e chegou a candidatar-se novamente, mas perdeu a concorrência.
Da experiência da adaptação da ópera italiana de Luigi Nono a dupla de amigos Eduardo Climachauska e Nuno Ramos lamenta apenas um aspecto: a temporada durar apenas duas semanas.
— Podia durar mais. (Por vezes) A potência do que é criado parece que é maior do que o modo que (esse trabalho) é assimilado. As coisas poderiam, por exemplo, se institucionalizar, ganhar forma em outro circuito — diz Nuno.
Há, porém, uma pequena sobrevida prevista: a gravação da ópera deverá ficar disponível no YouTube do Municipal por um ano.
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