Curiosidades

Pensador Edgar Morin morre aos 104 anos em Paris

Um dos mais destacados intelectuais da esquerda francesa do século passado veio diversas vezes ao Brasil para discutir educação

Agência O Globo - 30/05/2026
Pensador Edgar Morin morre aos 104 anos em Paris
Edgar Morin

O filósofo francês Edgar Morin morreu nesta sexta-feira (29), aos 104 anos, em Paris. Morin estava sob cuidados paliativos após uma dupla infecção e completaria 105 anos no dia 8 de julho. A notícia foi confirmada por seu secretário pessoal, Nelson Vallejo Gomez, que publicou uma homenagem em seu perfil no Instagram.

"Ao pôr do sol de uma majestosa tarde de primavera, no Hospital Americano de Paris, nesta sexta-feira, 29 de maio de 2026, encerrando um fabuloso ciclo existencial que começou em Paris em 8 de julho de 1921, o espírito brilhante do amado sábio da #PoéticaDaCivilidade, meu pai espiritual, querido e admirado Condor, Edgar Morin, tornou-se pura energia", escreveu Gomez. "Agora ele está muito mais intensamente presente em nós. Sempre carregarei seu sorriso em meu coração como um farol de inteligência viva, e o manual da Unesco, que é como um legado."

Intelectual de referência

Morin foi um dos mais destacados pensadores da esquerda francesa do século XX e se manteve produtivo mesmo após completar 100 anos. Aos 102, publicou "L'année a perdu son printemps" ("O ano perdeu sua primavera", em tradução livre), obra de inspiração autobiográfica iniciada em 1946.

Autor de mais de 30 livros, Morin publicou "Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro" em parceria com a Unesco e esteve no Brasil em diversas ocasiões para debater questões educacionais.

Trajetória marcada pelo engajamento

Nascido Edgar Nahoum em Paris, Morin foi pesquisador emérito do Centre National de la Recherche Scientifique e formado em Direito, História e Geografia, além de ter realizado estudos em Filosofia, Sociologia e Epistemologia. Judeu de origem sefaradita, participou da Resistência Francesa durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial, quando aderiu ao Partido Comunista em 1941 e adotou o pseudônimo pelo qual se tornaria conhecido.

Ao fim do conflito, atuou como adido do Estado-Maior do Primeiro Exército Francês na Alemanha ocupada, em 1945, e, no ano seguinte, como chefe do departamento de propaganda do governo militar francês. Nesse período, escreveu seu primeiro livro, "L'An zéro de l’Allemagne" ("O Ano Zero na Alemanha"), sobre a situação do povo alemão no pós-guerra.

A partir de 1949, Morin se afastou do Partido Comunista, sendo expulso definitivamente em 1951 por suas posições críticas ao ditador soviético Joseph Stálin. Em 1955, coordenou um comitê contra a guerra da Argélia e defendeu a luta anticolonial, especialmente apoiando Messali Hadj, líder da independência argelina.

Pioneirismo e legado

Morin fundou, em 1960, na École des hautes études en sciences sociales (EHESS), o Centro de Estudos de Comunicação de Massa, ao lado de Georges Friedmann e Roland Barthes, com o objetivo de propor uma abordagem transdisciplinar. Também criou a revista "Communications" e foi fundador da revista "Arguments" (1957-1963).

O pensador revolucionou o modo de compreender o conhecimento ao criticar a divisão das ciências em áreas isoladas, defendendo a interligação entre todos os campos do saber, da natureza e da sociedade. Na educação, propôs um ensino voltado para a cidadania planetária, a compreensão humana, a preparação para lidar com incertezas e a valorização do afeto e do respeito às diferenças.