Curiosidades

Heranças femininas bordadas em história: Bea Lema e Sole Otero investigam o próprio passado familiar em ‘O corpo de Cristo’ e ‘Naftalina’

Quadrinhos foram premiados pelo público no festival de Angoulême

Agência O Globo - 08/03/2026
Heranças femininas bordadas em história: Bea Lema e Sole Otero investigam o próprio passado familiar em ‘O corpo de Cristo’ e ‘Naftalina’
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Há uma investigação da genealogia feminina em dois quadrinhos recém-lançados no Brasil, ambos assinados por mulheres. Enquanto em “Naftalina” (WMF Martins Fontes) a argentina Sole Otero busca compreender a si mesma ao resgatar a história da avó, com quem teve pouco contato, em “O corpo de Cristo” (Comix Zone) a espanhola Bea Lema relata de forma contundente a infância e o início da vida adulta ao lado da mãe, diagnosticada com transtornos psiquiátricos.

As duas narrativas têm mais em comum do que o idioma e o fato de serem sagas femininas de herança: ambas venceram, em anos consecutivos, o Prêmio do Público do Festival International de la Bande Dessinée d'Angoulême, tradicional láurea do universo dos quadrinhos franceses. A argentina foi premiada em 2023; a espanhola, no ano seguinte.

— O livro nasceu de uma necessidade muito profunda de entender o que tinha acontecido na minha família, especialmente com a minha mãe — conta a espanhola Bea Lema em áudio enviado por aplicativo de mensagem. — Durante muito tempo convivi com perguntas sem resposta: o que a levou à loucura? Em determinado momento, percebi que o desenho poderia ser uma forma de investigar tudo isso.

Já para a argentina Sole Otero, o estopim para a produção do quadrinho “Naftalina” foi a morte da avó:

— Senti a necessidade de expressar os sentimentos contraditórios que me invadiram quando ela faleceu. Eu queria explorar, em forma de narrativa, o impacto que cada geração da minha família teve em quem eu sou agora, mas de uma maneira um pouco afastada de mim. Por isso decidi fazer em forma de ficção, com outros personagens, mas com traços dessa história pessoal.

Bordado como influência

Por incrível que pareça, há mais elementos em comum entre as duas autoras, separadas por um oceano. Ambas têm 41 anos e usam o bordado como referência estética, familiar ou mesmo como recurso gráfico. Otero utiliza a técnica em seus trabalhos como designer, enquanto Lema distribui o bordado de forma impressionante ao longo de “O corpo de Cristo”, com fortes referências à fé de sua mãe. A HQ, aliás, virou curta-metragem no ano passado, com roteiro e direção da própria autora.

— Aprendi bordando, experimentando, pesquisando técnicas e explorando as possibilidades do material — conta Lema. — O bordado exige tempo, repetição e paciência, e isso influencia diretamente o ritmo do meu trabalho. Ele traz uma dimensão física e corporal à narrativa, uma espécie de resistência do material que também faz parte do discurso.

Por outro lado, no trabalho da quadrinista argentina, o bordado aparece como influência na paleta de cores nada naturalista de “Naftalina”.

— Acho que o design têxtil influencia principalmente a maneira como planejo e penso o uso da cor desde os primeiros passos do processo — explica Otero. — Mas a cor também é algo que aprendi a partir da minha curiosidade pelo cinema. Em “Naftalina”, em particular, algumas tramas têxteis acompanharam meu uso expressivo da cor. Quanto ao ritmo, faço quadrinhos muito antes de bordar, e as particularidades da narrativa gráfica próprias do quadrinho sempre me fascinaram.

Lema diz que precisou entender o que tinha acontecido no passado, o que tinha levado sua mãe àquela situação e como a espiritualidade e a religião surgiram nesse contexto.

— Pesquisei muito, li bastante, revisitei memórias — conta Lema. — Mas também houve algo mais intuitivo: desenhar sem saber exatamente para onde eu estava indo. O processo criativo tem esse lado incontrolável e caótico. Se você confia nele, as coisas vão se organizando.

Para a autora espanhola, o trabalho também foi de investigação familiar:

— O mais difícil foi conseguir articular tudo o que eu queria contar e fazer com que houvesse coerência entre as partes, de modo que o leitor percebesse claramente como elas se relacionam. Foi um exercício de paciência, dedicação e confiança. No fim, tudo acabou encontrando um sentido.