Curiosidades

Crítica: entre a construção e a ruína

Gabriel Leone retorna às suas origens após sucessos nas telas, em atuação que alia intensidade e precisão técnica

Agência O Globo - 06/03/2026
Crítica: entre a construção e a ruína
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Em “Hamlet, sonhos que virão” , tudo se equilibra entre construção e ruína. A montagem dirigida por Rafael Gomes para a tragédia de William Shakespeare ganha vida em meio às obras do incêndio (e futuro) Cine Copan. Situado no emblemático edifício homônimo, o espaço deve ressurgir em 2027, no coração de São Paulo, após duas décadas sem projeções e uma passagem como templo evangélico. A impermanência do local transforma-se, quase sempre, em trunfo para o espetáculo, especialmente pelo uso criativo do design visual e da iluminação. Os figurinos precisos de Alexandre Herchcovitch reforçam a atemporalidade do texto. Em mãos menos talentosas que as de Gabriel Leone, tamanha exuberância poderia desviar a atenção do público do papel-título, tão cobiçado por grandes nomes do teatro.

Retorno marcante

Após oito anos longe dos palcos, Leone retorna às origens depois de uma sequência de sucessos na televisão e no cinema, com destaque para os papéis principais nas séries “Senna”, sobre o ícone da Fórmula 1, e “Dom”, inspirado em um famoso crime carioca dos anos 2000. Recentemente, surpreendeu o público como o matador Bobbi, em “O agente secreto”, filme de Kleber Mendonça Filho indicado a quatro Oscars. Não por acaso, o silêncio absoluto do público só é quebrado pelo ar-condicionado quando o ator de 32 anos se aproxima a poucos centímetros da plateia em cenas emblemáticas de “Hamlet”.

Intensidade e rigor

O fascínio por Leone é justificado por uma interpretação que une a intensidade e o rigor técnico que marcam sua carreira. A violência da trama do príncipe da Dinamarca — que desconfia do crime na morte do pai, após o casamento apressado da mãe, Gertrude, com o tio, Cláudio, provável assassino — é revisitada com um tom ainda mais sombrio, em mais um acerto da montagem.

A tempestade pública é recebida pelo barulho impactante de uma antes mesmo do início da ação. O fantasma do rei ganha tratamento cinematográfico, enquanto a reinvenção do fim de Ofélia, vivida por Samya Pascotto, emociona pela beleza trágica. As trevas do Centro de São Paulo se misturam às do clássico, indicando que há algo de podre tanto dentro quanto fora do teatro improvisado.

Limites e potência

Loucura, desejo de vingança diante das injustiças, hesitação diante do ímpeto e a corrupção escancarada no jogo pelo poder invadem o limbo do futuro Cine Copan de forma arrebatadora. O êxtase, porém, dura menos do que o ideal devido à sonorização irregular, que dificulta a compreensão das falas de Leone e do bom elenco, que inclui Susana Ribeiro como a rainha Gertrude.

“Hamlet, sonhos que virão” segue em cartaz nas obras do Nu Cine Copan até 19 de abril, com sessões de quarta a domingo, em temporada única.

Cotação: bom