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António Lobo Antunes: Portugal decreta luto nacional após morte de escritor

Um dos autores portugueses mais lidos e traduzidos do mundo e vencedor do Prêmio Camões, Antunes morreu aos 83 anos nesta quinta

Agência O Globo - 05/03/2026
António Lobo Antunes: Portugal decreta luto nacional após morte de escritor
- Foto: Reprodução / Instagram

O governo de Portugal decretou um dia de luto nacional pela morte do escritor António Lobo Antunes, um dos mais importantes nomes da literatura em língua portuguesa. A homenagem será observada no sábado, 7 de março de 2026, após decisão aprovada nesta quinta-feira.

Entenda o caso:

Líder do Museu do Amanhã,

“O Governo também propôs ao Presidente da República, que eventualmente aceitou, a atribuição do Grande-Colar da Ordem de Camões a António Lobo Antunes”, informou uma nota divulgada pelo gabinete do primeiro-ministro, Luís Montenegro.

Segundo o comunicado, o Conselho de Ministros — presidido nesta quinta-feira pelo presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa — “aprova o decreto que determina um dia de luto nacional em homenagem a António Lobo Antunes, que será apresentado no dia 7 de março de 2026”.

De acordo com a legislação portuguesa, cabe ao governo decretar o luto nacional, definindo a sua duração e abrangência. A medida costuma ser aplicada em casos como morte de chefes de Estado e de governo ou “pelo falecimento de personalidade, ou ocorrência de evento, de relevância excepcional”.

Blombô:

António Lobo Antunes morreu nesta quinta-feira, aos 83 anos. A informação foi divulgada inicialmente pelo jornal Expresso e divulgada à imprensa pela editora Grupo Leya, responsável pela publicação de seu último romance, lançado em 2022.

— A morte está confirmada. Divulgaremos uma nota de condolências — afirmou à AFP uma porta-voz da editora.

Homenagens das autoridades

Em nota publicada no site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa lamentou a morte do escritor e declarou-se “leitor, admirador e amigo há décadas” de António Lobo Antunes.

O presidente destacou ainda que “poucos representaram tão bem a grandeza literária de um país” e informou que depositará junto ao escritor o Grande-Colar da Ordem de Camões, honraria que será concedida postumamente.

O primeiro-ministro também prestou homenagem ao autor, classificando-o como um dos maiores nomes da cultura portuguesa.

"Presto muito sentida homenagem a Antonio Lobo Antunes - figura maior da cultura portuguesa. O seu legado é uma crónica da humanidade e da originalidade do olhar português e por isso continua a inquietar-nos e a inspirar-nos", escreveu Luís Montenegro na publicação na rede social X.

O chefe de governo expressou ainda, em nome do Executivo, “as mais sentidas condolências à família e aos amigos”.

Carreira literária

Considerado um dos romancistas portugueses mais influentes das últimas décadas e frequentemente apontado como possível vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, Lobo Antunes construiu uma obra de grande repercussão internacional.

Ao longo da carreira, publicou 29 romances e cinco volumes de crônicas originalmente escritos para a revista Visão. Entre seus livros mais conhecidos estão Os Cus de Judas e Memória de Elefante (1979), Conhecimento do Inferno (1980), Auto dos Danados (1985), Fado Alexandrino (1987), As Naus (1988) e Manual dos Inquisidores (1996).

Em 1999, recebeu o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro Exortação aos Crocodilos. Já em 2007, foi laureado com o Prémio Camões, considerado o mais importante reconhecimento literário da língua portuguesa.

Origem e formação

António Lobo Antunes nasceu em 1º de setembro de 1942, na freguesia de Benfica, em Lisboa. Formou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa em 1969 e especializou-se posteriormente em psiquiatria, profissão que exerceu no Hospital Miguel Bombarda.

Filho do neurologista João Alfredo Lobo Antunes — assistente de Egas Moniz e professor de medicina — cresceu em uma família de forte presença intelectual. Entre os irmãos faziam parte o neurocirurgião João Lobo Antunes, membro do Conselho de Estado Português, além de Nuno Lobo Antunes, neuropediatra; Miguel Lobo Antunes, programador cultural; Manuel Lobo Antunes, jurista e diplomata; e Pedro Lobo Antunes, arquiteto e ex-vereador da Câmara Municipal de Torres Novas, falecido em dezembro de 2023.

Após concluir o curso de Medicina, foi mobilizado como médico militar durante a guerra colonial portuguesa entre 1971 e 1973, realizada no leste de Angola, nas regiões de Lumbala, Guimbo, Chiume e posteriormente Malanje.

A experiência no conflito marcou profundamente sua obra e se tornou tema central de vários de seus livros.

Durante esse período, escreveram cartas à primeira mulher, Maria José Lobo Antunes, que mais tarde foram reunidas pelas filhas do casal e publicadas no livro D'este viver aqui neste papel descrito. A correspondência também contribuiu para o filme Cartas da Guerra, dirigido por Ivo Ferreira.

Da psiquiatria à escrita

Depois de regressar à guerra, Lobo Antunes trabalhou como psiquiatra em Lisboa. Em 1985, decidiu abandonar definitivamente a medicina para se dedicar à literatura em tempo integral.

Seu primeiro romance, Memória de Elefante, publicado em 1979, alcançou grande repercussão e marcou o início de uma trajetória literária que se consolidaria dentro e fora de Portugal.

Reconhecimento e legado

Além do Prêmio Camões, o escritor recebeu diversos reconhecimentos ao longo da carreira. Desde 2016, era sócio correspondente da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa.

Em 2018, a prestigiosa coleção literária da Bibliothèque de la Pléiade anunciou a publicação de sua obra, tornando-o o segundo escritor português — depois de Fernando Pessoa — e um dos raros autores ainda vivos a integrar o catálogo.

Na cidade de Nelas, onde uma família mantém uma casa desde a década de 1940, uma biblioteca pública leva o seu nome — homenagem a um autor cuja obra marcou profundamente a literatura contemporânea em língua portuguesa.