Curiosidades
Filha de fotógrafa exposta no CCBB do Rio, a atriz Maeve Jinkings fala da influência da mãe: 'Olhar despido de tabus'
Entre as pioneiras da cena cultural de Belém (PA), nos anos 1970, Leila Jinkings atuou como fotojornalista e produziu séries autorais, até a década de 1990
Durante o curso de arquitetura, iniciado em 1975 na UnB (Universidade de Brasília), onde participou do movimento estudantil, Leila Jinkings frequentou o curso do fotojornalista e cineasta Kim-Ir-Sen, decisão que a levou para longe das pranchetas e moldou sua atuação profissional a partir do final dos anos 1970. Com uma Pentax MX em punho, ela se tornou fotógrafa profissional, participando de coberturas para veículos como a revista IstoÉ e o jornal O Diário do Pará, nas décadas de 1980 e 1990.
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'Achados & perdidos':
Neste período, participou de coberturas importantes, como a visita do Papa João Paulo II a Brasília, em 1980, as eleições de governadores de 1982, ou o assassinato de Gabriel Pimenta, advogado de trabalhadores rurais e defensor dos direitos humanos, em Marabá (PA), no mesmo ano. Também assinou séries autorais icônicas, como as realizadas no Círio de Nazaré e nos shows de travestis da Boate Aquarius, pioneira na cena LGBTQIA+ da capital federal.
Às coberturas jornalísticas, somou-se o cuidado às duas filhas, Isadora e a atriz Maeve Jinkings, que seguiram com Leila de Brasília para Belém após seu divórcio. Com imagens em publicações e algumas exposições coletivas, o acervo da fotógrafa ficou guardado em casa após ela aposentar sua câmera, nos anos 1990. Até que, por insistência da historiadora da arte e curadora Sissa Aneleh, passou a integrar a até 30 de março, após passar pelas sedes de Belo Horizonte, Brasília e São Paulo.
Decorrente da tese de doutorado em Artes Visuais defendida pela curadora em 2018, na UnB, a exposição mapeia a produção de 11 profissionais nascidas no estado, desde os anos 1970, com 170 obras de Leila e fotógrafas de diferentes gerações, como Jacy Santos, Renata Aguiar, Evna Moura, Bárbara Freire e Paula Sampaio.
— Há 50 anos, artistas fomentaram a cena em Belém, muita gente se destacou na fotografia, nas artes visuais, a cidade virou um polo cultural do Norte. Na época, muitas dessas pioneiras não tiveram o mesmo reconhecimento dos artistas homens, mas foram uma referência para as gerações de profissionais mulheres que vieram depois, a exemplo da Leila — aponta Sissa, idealizadora do Museu das Mulheres, projeto sediado em Brasília. — Elas desenvolveram um olhar sobre esse universo feminino amazônico, abordando identidades, território, memória.
Leila conta que o interesse pela fotografia vem da infância. Ao ser chamada de “filha de comunista” por outras crianças nos anos iniciais da ditadura militar, o pai, o jornalista, livreiro e militante do PCB Raimundo da Costa Jinkings, mostrou-lhe uma revista Manchete com fotos de soviéticos ajudando refugiados.
— Lembro dele abrindo a revista, aquelas fotos imensas, ficou na minha cabeça. Ainda adolescente eu ganhei uma Kodak, e, depois que casei, uma Olympus Trip, fotografei muito minhas filhas com ela. Revendo essas fotos, acho que já tinha mesmo um olhar — recorda Leila.
Maeve Jinkings diz que a referência da mãe foi fundamental para a decisão da carreira artística. Ainda assim, ela, que sabia querer ser atriz desde os 10 anos, contou apenas para a irmã e a melhor amiga a intenção de ganhar a vida atuando. Até que, aos 18 anos, foi confrontada pela mãe ao decidir fazer vestibular para odontologia.
— Passei na adolescência por uma fase mais conservadora, aquilo de se contrapor aos pais. Minha mãe percebeu que eu estava perdida e, uns seis meses antes do vestibular, perguntou se eu não queria fazer um teste vocacional. Logo na primeira sessão, a terapeuta me disse, sobre atuar: “Você não tem dúvida, você tem medo” — lembra Maeve. — Depois, quando contei que iria fazer teatro em São Paulo, ela respondeu: “Que bom, minha filha. Você estava ficando tão caretinha” (risos).
A atriz diz que, além de aprender com a experiência da mãe a construir um olhar despido de tabus, também viu em suas imagens uma busca por revelar histórias. Registros esses que, por vezes, envolviam risco de vida para a fotógrafa.
— Tudo o que eu queria era viajar e mostrar o que estava acontecendo, na hora não pensava muito. Estive em Tucuruí, nos protestos pela construção da barragem, cobri as eleições de 1982 numa época de muita violência, tínhamos medo real de morrer — conta Leila. — Teve lugar que só dormia em casa com lage, com medo de alguém invadir pelo telhado. Só não consegui entrar em Serra Pelada porque fui proibida.
Cinema autoral na matinê
Rosto presente em vários longas brasileiros desde a década de 2000, a exemplo de “Falsa loura” (2007, de Carlos Reichenbach), “O som ao redor” e “Aquarius” (2012 e 2016, de Kleber Mendonça Filho), e “Ainda estou aqui” (2024, de Walter Salles), Maeve também credita à mãe as primeiras referências do cinema de autor.
— Em Belém, os cinemas que programavam algo diferente exibiam os filmes comerciais à noite e deixavam as coisas mais alternativas para as matinês de sábado. Ela sempre nos levava, foi assim que vi “O baile”, do Ettore Scola, “Asas do desejo”, do Wim Wenders, “2001”, do (Stanley) Kubrick. Não eram filmes para a nossa idade, eu não entendia direito, mas sabia que tinha algo a mais ali, ficava fascinada — comenta a atriz. — Tinha uma relação com o que ela via na tela e o que contava nas fotos. E também com aquela menina de nove anos que viu o pai foragido em 1964, que vai vistá-lo depois na prisão. Acho que essa tentativa dela de entender o humano pelas fotos me fez buscar personagens diferentes ao longo da carreira.
Para Leila, a oportunidade de mergulhar em seu acervo pessoal, guardado em sua casa no Recife, onde vive desde 2009, foi como “abrir uma caixa de Pandora”.
— Tenho tudo bem arquivado, mas fiquei muito tempo ser ver esse material. Acho que ficava bloqueada, dava uma certa tristeza. Com o convite da exposição redescobri muita coisa, negativos que achava ter perdido. Foi bom para reorganizar, fazer a limpeza desse acervo — diz a fotógrafa, que diz ter se animado a usar a câmera digital. — É outro bloqueio que tenho de destravar, mas estou com muita vontade.
Maeve espera que, após “Vetores-vertentes”, Leila volte a ser exposta com frequência:
— Ver essa mulher com com mais de 70 anos redescobrindo sua própria história, sua obra, me dá muito orgulho. Ela nunca teve uma individual, é meu sonho.
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