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AC/DC quebra jejum de 16 anos sem shows no Brasil com repertório celebrado e vigor em dia

Com mais de meio século de existência, banda mostrou que segue resistente ao tempo e aos perrengues do caminho

Agência O Globo - 25/02/2026
AC/DC quebra jejum de 16 anos sem shows no Brasil com repertório celebrado e vigor em dia
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Pontualmente às 21h, o AC/DC botou fim ao jejum de mais de 16 anos sem pôr os pés, as guitarras e microfones em shows no Brasil. A chegada, ao som de “If You Want Blood (You’ve Got It)”, quase cinquentona, com guitarra marcada e Brian Johnson se esforçando quanto pode, colocou fim à espera do público, que esgotou os 70 mil ingressos disponíveis no estádio do Morumbis, na Zona Oeste paulistana. O mesmo endereço em que haviam feito sua última passagem pelo país, em novembro de 2009. Eles ainda voltam para o palco paulistano nos dias 28 de fevereiro e 4 de março.

E Johnson logo saudou a plateia:

— Como está São Paulo? Vamos trazer um pouco de rock’n’roll para vocês. E isso é o suficiente de conversa! — disse.

Logo após o papo rápido, a banda lançou mão de “Back in Black”, com ares apoteóticos e gritos da plateia formada majoritariamente por homens a partir dos 40 anos (mas que também abrigou um grande volume de crianças, empoleiradas sobre as costas dos pais para espiar o palco). A faixa é fruto da primeira lavra de canções lançada após a morte do vocalista Bon Scott (1946–1980) e a chegada de Johnson e foi repetida com exatidão em seus riffs inconfundíveis de guitarra na introdução.

Lenda do rock,

Filme símbolo de uma era,

A todo tempo o guitarrista Angus Young,com seu tradicional uniforme escolar (mas desta vez em verde e amarelo) demonstrou agilidade e habilidade invejáveis. Os gritinhos de Johnson, vale dizer, também estavam lá, mesmo com a voz por vezes vacilante (mas ainda capaz de dar conta do recado). Ao mirá-lo, porém, é até difícil acreditar que o britânico passou por um quadro de surdez progressiva, que o fez deixar os palcos em 2016, quando foi substituído por Axl Rose na turnê “Rock or Bust”. A performance de hoje só é possível com apoio de um aparato tecnológico experimental.

Esse não foi, porém, o único percalço que a banda enfrentou ao redor da última década. Em 2017, Malcolm Young irmão de Angus e igualmente fundador da banda morreu por complicações de um quadro de demência que já o havia afastado das atividades na música. Em paralelo, o baterista Phil Rudd enfrentou uma condenação na Nova Zelândia. Todos tiveram de ser substituídos por novos músicos, o que permitiu a chegada do guitarrista Stevie Young, sobrinho de Angus.

De volta ao presente, “Demon Fire” foi a primeira canção do álbum Power Up (que dá nome à turnê) a aparecer no show. A faixa coube direitinho no repertório mais antigo do grupo, que tomou conta do show em São Paulo. Trata-se de uma “novidade”, com jeitão de AC/DC.

O tamanho da montanha “vocal” que Johnson precisa escalar a cada show, porém, ficou claro na mais aguda “Thunderstruck”, imortalizada na cultura pop, do filme “Homem de Ferro” ao seriado “Sobrenatural”. As guitarras, porém, seguiram num som intenso e cristalino. A todo tempo, o show seguia entre dobradinhas de Angus Young e Brian Johnson.

Em “Have a Drink on Me”, com vigor oitentista, a banda reafirmou o espírito de moleque rebelde, celebrada — mas não tão cantada — pelo público. Foi assim também com a mais nova “Shot in the Dark”, também do álbum Power Up, duas vezes indicada ao Grammy e cheia de intensidade, numa boa interpretação de Johnson. “Hells Bells” foi a deixa para que um sino gigante descesse ao palco, numa visão divertida.

Nada se comparou, porém, à força emanada em “Highway to Hell”, com seu refrão explosivo que deu a deixa para a plateia finalmente gritar e pular. O som, bastante assemelhado ao da gravação original, foi acompanhado por labaredas de fogo que pululavam pelo palco, que contava com um pardeão de amplificadores. A divertida “Shoot to Thrill” estava lá para reafirmar a vocação da banda para falar de sexo e outros divertimentos. “Sin City”, por sua vez, ganhou uma etapa de distorções na guitarra feita por um animado Angus Young passando sua gravata pelo instrumento.

Já caminhando para os momentos finais da apresentação, “You Shot Me All Night Long”, um hit peso-pesado da banda (e um bocado radiofônica), exibiu certa cumplicidade de Johnson and Young. A essa altura a dupla já mostrava sentir a intensidade do show que ultrapassou as duas horas de duração. O vocalista exibia seu tradicional colete empapado de suor, enquanto Young já tinha se livrado do blazer, da boina e da gravata e aberto quase todos os botões da camisa.

Em “Whole Lotta Rosie”, houve a deixa para que Angus fizesse um longo solo de guitarra com um ronco que lembrava certa inspiração no blues. Foi mais ou menos nessa parte em que ele foi alçado para um patamar alto do estádio sob uma plataforma elevada — utilizada unicamente nesse momento. E dá-lhe chuva de papel picado nas cores do Brasil e impressos um a um com o nome da banda.

Para encerrar, só faltava mesmo a enérgica “T.N.T”, com distorções na guitarra, gritos e celebração da plateia. Com quase 2 horas de apresentação, “For those about to rock (We salute you)” fechou a conta numa ode aos roqueiros e aos fãs. Sob declarações de “eu te amo, Brasil”, de Brian Johnson, uma saraivada de fogos de artifício saídos de canhões cenográficos encerrou o show. Trata-se da metáfora perfeita: mesmo com o bombardeio do tempo, o AC/DC segue adiante.