Curiosidades

Donos do frevo de ‘O agente secreto’ em Cannes, os Guerreiros do Passo chegam ao Rio para mostar sua dança

Atração desta sexta-feira no CasaBloco, grupo que acompanhou a trupe do filme de Kleber Mendonça Filho no festival francês recupera as origens de sua arte, que vem de uma Recife dos tempos ‘do furdunço’

Agência O Globo - 30/01/2026
Donos do frevo de ‘O agente secreto’ em Cannes, os Guerreiros do Passo chegam ao Rio para mostar sua dança
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Imagine o começo do século XX, alguns anos após a abolição da escravatura, em que a população recém-liberta ficava perambulando, entre tantas outras pessoas, pelas ruas do Recife. Aquela era uma cidade dada a levantes populares e a movimentos políticos exaltados, com a realização de muitos comícios, boa parte deles animados por bandas militares, com seus metais em brasa. Os capoeiristas eram contratados para fazer a segurança dos candidatos de um lado e de outro. E o pau comia até que viesse a polícia.

De malas prontas para divulgar '', tem ideia para um novo filme e só um lamento na campanha pelo Oscar:

Sarajane:

Está ali a origem do frevo, a dança celebrada pelos Guerreiros do Passo, grupo recifense que, no Festival de Cannes, na França, do filme , de Kleber Mendonça Filho, desembarca esta sexta-feira pela primeira vez no Rio, para se apresentar no CasaBloco, festival que acontece à noite no Jockey Club.

— Muitas vezes, os capoeiristas começavam a disfarçar seus movimentos para não parecer, na visão das autoridades, que aquilo ali era capoeira, mas uma dança — explica o diretor e fundador do Guerreiros do Passo, Eduardo Araújo. — Esse disfarce começou a ser repetido e a ser assimilado como uma agremiação carnavalesca. O frevo, em si, não era só a dança, era aquele encontro na rua, no período momesco ou quando passava uma banda militar, o que acabava excitando o povo. E na rua, com um sol daqueles de arrebentar, muitas vezes dançando umas perto das outras, as pessoas acabavam entrando em choque.

Faz sentido ver a inteligência artificial como algo divino?

Enfim no Rio, “uma cidade que a gente admira muito, que tem um uma força do carnaval de rua igual à do Recife”, o Guerreiros (grupo que existe há 20 anos) leva para o CasaBloco um aspecto do frevo pouco abordado.

— O frevo é muito conhecido pelo seu colorido, pela beleza plástica de seus passos e movimentos virtuosos. Isso, o grupo tem também, mas a gente traz um um aspecto mais da historicidade, de como o frevo surgiu nas camadas populares e quais foram os elementos que se fundiram para ele poder ser uma cultura como é hoje, uma identidade do povo de Pernambuco — diz. — Então, é dança, é aula, é espetáculo, é teatro, mas eminentemente movimento. E no Rio a gente vai fazer com o maestro Spok, com a orquestra dele (que se apresenta no CasaBloco também nesta sexta-feira com ). Tem um outro molho.

Os Guerreiros do Passo contam hoje com oito dançarinos, cujas idades vão dos 40 aos 50 anos, todos eles professores, com vasta experiência em frevo, e um deles mestre de capoeira. Todos são discípulos de Nascimento do Passo (Francisco do Nascimento Filho, 1936-2009), mestre pernambucano do frevo que, informa Eduardo Araújo, “formou escola, criou metodologia e batizou alguns dos passos”.

Passista e professora do Guerreiros do Passo, Lucélia Albuquerque diz que o trabalho dos Guerreiros “foge da padronização e estilização que o frevo foi sofrendo ao longo dos anos”.

— Nossos figurinos remetem ao povo na rua, às pessoas que estavam no Centro quando passava uma agremiação ou uma orquestra, àquele ambiente do furdunço.

Voz do Erasure, do hit ‘A little respect’, Andy Bell jura:

Passos históricos do frevo, como tesoura, ferrolho, enxada, dobradiça, parafuso e chave de cano são recuperados pelo trabalho do grupo.

— Tentamos entender como esses passos surgiram lá em 1920 — diz Lucélia.

Eduardo Araújo observa que as pessoas estranham quando assistem à apresentação dos Guerreiros do Passo, porque ficam sentindo falta da sombrinha colorida.

— A gente usa guarda-chuva, que é o embrião do frevo. Com o tempo, os mestres começaram a diminuir ele, justamente para facilitar alguns movimentos, algumas acrobacias na execução do passo. E, na década de 1970, o guarda-chuva começou a ter as cores do arco-íris da bandeira de Pernambuco — ensina. — A gente faz um recorte do carnaval de rua do Recife de um tempo em que ele estava em ebulição.

Cossacos e mais fontes

Como cidade portuária, diz Eduardo, Recife recebeu influências do mundo inteiro. E o frevo foi a reboque:

— Vinha companhia de dança da Europa para cá, teve balé russo que chegou a se apresentar aqui no Teatro Santa Isabel, e muitos dos passos do frevo remetem a esses passos do balé russo, que chamam de cossaco. E ainda tem a forte influência da capoeira, e de tudo que se fazia, inclusive de gente imitando ferramentas de trabalho.

A relação dos Guerreiros do Passo com Kleber Mendonça Filho começou quando este os filmou numa saída do bloco Escuta Levino e a incluiu em seu longa de 2023, “Retratos fantasmas”. Depois, ele chamou o grupo para figurar numa cena de rua de “O agente secreto”. E, em segredo, os levou a Cannes para causar impacto no lançamento.

— Foi um negócio de louco, porque a gente começou a tirar documento, passaporte, teve gente que nunca tinha andado de avião. Foi uma loucura, para um grupo popular que trabalha com frevo, conhecer a Europa. Tem passista que ainda sonha estar entrando lá em Cannes — emociona-se Eduardo Araújo, lembrando que o grupo depois foi recebido no Palácio da Alvorada, em Brasília, pelo presidente Lula. — Achei que (a aparição no festival) ia ter uma alguma repercussão aqui em Recife, que ia sair em algum jornal ou alguma TV... Só quando quando a gente voltou para o hotel, com acesso à internet, foi que viu que todas as emissoras, todo mundo estava falando da gente. Um vídeo de uma página do Museu Passos do Frevo de repente já tinha 2 milhões de visualizações!

Kleber Mendonça é fã dos Guerreiros do Passo.

— Durante muitos e muitos anos, o padrão do frevo era o de uma coisa muito colorida, tinha as sombrinhas coloridas, as roupas coloridas, e principalmente os dançarinos muito sorridentes, muito felizes, era uma imagem muito comercial e pasteurizada — reclama o diretor. — Mas o que eu lembro, como criança pequena, é de que o frevo era uma coisa meio radical, com certeza não tinha ninguém sorrindo. E os Guerreiros do Passo fazem uma espécie de dramatização do frevo a partir dos anos 1940, na apresentação deles existem tensões que vêm muito de um Brasil em que a capoeira era proibida e quem era pego jogando capoeira levava a porrada da polícia.