Curiosidades
Artigo: 'O agente secreto' não é sobre a ditadura, é sobre o Brasil
De caráter pessoal à gota serena, o cinema de Kleber Mendonça Filho sempre surpreende, a quem goste ou não
Eu amo o Recife, só por isso o filme já me conquistaria. Mas é mais que isso, eu amo cidades, mesmo as de que não gosto, e amo filmes sobre cidades. Na tela, as cidades são esquadrinhadas, se dão a conhecer como só à distância as coisas se permitem conhecer. E a distância que o cinema se nos coloca não é lonjura, não, ao contrário — é separação que permite o encontro, desapego que cria o destaque. No cinema, a cidade abre sua intimidade, um território feito só de memória.
Variety:
Festival de Berlim:
Ecléa Bosi demonstrou em seu livro clássico de 1987, “Memória e sociedade: lembranças de velhos”, que a memória, imaterial, se entrega por via da pedra — a mão precisa tocar o concreto para que o abstrato ganhe forma legível. No cinema, a ambivalência da imagem abstrata/concreta decifra a teia urbana através de seus habitantes. Figuração protagonista, é assim a Tóquio de Yazuhiro Ozu e a Berlim de Wim Wenders. Mesmo quando personagem nomeada, como o Rio de Janeiro de Nelson Pereira dos Santos e a Nova York de Woody Allen e Martin Scorsese, na tela não importam tanto seus traços físicos, arquitetura e urbanismo, se não como expressões de seu espírito, manifesto em seus moradores-amantes. O Recife de “O agente secreto” está para Kleber Mendonça Filho como a Rimini de “Amarcord” está para Federico Fellini.
Na recepção crítica a “Bacurau”, surgiu uma metáfora culinária para definir a mistura de gêneros que o diretor salteia em seus filmes: sarapatel. Tá tudo ali, coração, fígado, rins, pulmão, língua, sangue, de porco, carneiro ou bode; tudo picado, cozido, ricamente temperado. Não se passa indiferente pelo sarapatel, receita radical que atrai muitos à mesa, mas divide gostos. Quando esteve no “Conversa com Bial”, em 2019, Kleber curtiu a analogia sarapatélica, reconheceu o caráter de miscelânea de seu cinema. Parece não ficar tão à vontade quando apontam em sua obra ecos de Tarantino, Fellini, Hitchcock e Ford, prefere identificar-se com Nicholas Ray, Michelangelo Antonioni (vide a sequência de abertura no posto de gasolina de “O agente secreto”), John Carpenter. Artista liquidificador de gêneros, apontar influências talvez não tenha mesmo grande valia na fruição e compreensão do cinema de Mendonça Filho. Estamos diante de um autor que é original mesmo na “imperfeição” de seus filmes. Toda arte é imperfeita, o belo precisa do “defeito” na busca pelo sublime.
Linhas entrelaçadas
Reagiu-se bastante a supostos “fios soltos” no roteiro de “O agente secreto”. Discordo do reparo. Se há cordões desatados, o roteiro os tem como linhas desembaraçadas, entrelaçadas com fluência. Ainda que se possa identificar “apêndices” pouco explicáveis, como a sequência-declaração de amor a Udo Kier, isso é prerrogativa de autor, desde que, como é o caso, isso não comprometa o ritmo.
Questiona-se também o transplante extemporâneo do atroz Caso Miguel, em que o filho de 5 anos da empregada morre, vítima da crueldade banal da patroa. A meu ver, a ousada transposição funciona, serve com justeza de síntese (in)feliz de nossa iniquidade.
Oscar de melhor ator ou Copa do Mundo para o Brasil?
Aponta-se o comportamento anacrônico de Fátima, a mulher de Marcelo/Armando, interpretada pela tigresa Alice Carvalho, na cena da briga fatal no restaurante. Pois, taí a mão do autor, presente em toda a história, num toque deliberadamente anacrônico. Mesmo a escolha do ano de 1977 é aleatória. Ano do início da “distensão lenta, gradual e segura”, ali a ditadura permanecia fincada no estatismo, comprometida com a Sudene, e com o projeto de descentralização do ensino superior. Mais uma vez: esse anacronismo compromete a fluência do filme? Não.
Anacronismo e irrealismo podem ser bem-vindos, como na perseguição do matador Bobbi, do brilhante Gabriel Leone, ao matador Vilmar, do desconcertante Kaiony Venâncio. Em meio à ação, sem que se explique ou se careça de justificativa, cai do céu um irresistível menestrel a declamar Manuel Bandeira para todos e ninguém, no centro do Recife. Funciona belamente.
Quanto à Perna Cabeluda, é uma deliciosa digressão nutrida por lenda urbana local, história dentro da história, construída desde o início do filme para se encaixar, precisa, no arco de tensões e distensões da trama.
Conclusão moral
Também não alcanço as objeções ao final da história, anunciado com clareza no decorrer de toda a trama. Uma conclusão moral, como é a arte de Kleber, mas dessa vez não moralista, tendência explícita em sua filmografia.
Seria óbvio e limitante atribuir as críticas à polarização política, em que Kleber é ator ativo e partidário. Antes vejo na resistência a seu cinema, reações previsíveis a uma forte personalidade artística, contundente. Parece-me que muito da rejeição a sua arte é só repulsa ao artista. E penso que não interessa a uma reflexão sobre o filme se Kleber, militante que é, se apraz em provocar adversários, se gosta de uma briga. É do jogo.
Como todo autor que faça por merecer este título, Kleber Mendonça Filho cultiva suas flores de obsessão, por exemplos: a luta de classes com CEP, entre Sul/Sudeste e Norte/Nordeste; e a transposição da mitologia modernista para o campo do concreto, numa espécie de “alegoria realista”. O professor Jorge Coli bem aponta o parentesco entre o industrial Henrique Ghirotti e o gigante canibal Venceslau Pietro Pietra, de Macunaíma — ambos vilões “carcamanos”. Só que Marcelo/Armando passa longe de ser Macunaíma. O personagem irresistivelmente macunaímico de “O agente secreto” é Dona Sebastiana, e, i, o, u, ipisilone, mais que alívio cômico, alicerce humorístico do filme, espetáculo em si de Tânia Maria.
O substrato ideológico da obra de Kleber não busca se esconder, é claro, flerta sem pejo com o maniqueísmo. Mas, e daí? Grandes artistas ergueram monumentos sobre bases igualmente ambíguas, e se a construção se sustenta, repito; e daí? Eu mesmo respondo: e daí que causa desconforto repelir a ética e abraçar a estética do discurso, uma dissonância cognitiva aflitiva.
De caráter pessoal à gota serena, o cinema de Kleber Mendonça Filho sempre surpreende, a quem goste ou não. Para os apreciadores de sua complexidade, “O som ao redor” é seu melhor filme. Os devotos de oximoros, como suas “alegorias realistas”, preferem “Bacurau” e “Aquarius”. Outros cinéfilos apreciam quando nem realista, nem alegórico; testemunhal.
Como em “Retratos fantasmas”, não há saudosismo na viagem a um Recife passado de “O agente secreto”. No mergulho em seus afetos, Kleber compõe uma cidade atemporal, e mais, um Brasil atemporal. Isso evidencia um traço da obra que parece nem seu criador previu: a história de Marcelo/Armando poderia acontecer hoje, os sintomas e patologias brasileiras que o filme expõe — violência, corrupção, desigualdade, patrimonialismo, hipocrisia, anomia —, estão presentes em toda nossa História. “O agente secreto” não é um filme sobre a ditadura, é um filme sobre o Brasil.
Com efetivo apelo internacional, “O agente secreto” viaja bem, pode ser desfrutado por qualquer público gringo, sem necessidade de maiores contextualizações. Além do enredo com pinceladas de thriller, sem sê-lo integramente, a narrativa enleva o espectador, mantendo a atenção em suspensão, ora, o que se chama suspense.
Atração cosmopolita à parte é o painel etnográfico exposto pelo filme. Sucessão arrebatadora de tipos brasileiros, a beleza rascante de nossa gente violenta a tela, mesmerizante de dar medo.
Ainda na observação da paisagem humana do Recife mítico, reluz a direção de atores! Não há participação sem brilho próprio, menor que seja. Exemplo da maestria na condução do elenco é ver materializada por Kaiony Venâncio a rubrica que descreve seu personagem no roteiro: “Vilmar tem uma expressão extraordinária no rosto, especialmente por esconder o que se passa ali por dentro”.
Tudo coroado por nosso Marlon Brando, um Wagner Moura que faz de um suspiro, trovão. Stradivarius bem regido, arestas aparadas, excessos domados, Wagner tem um desempenho singular em sua plural carreira. Quem conhece Kleber, diz que, na composição de Marcelo/Armando, Wagner faz o próprio Kleber, em gestos, tempos e expressões do diretor no trato pessoal — se a observação procede, é uma bem-vinda simbiose.
Duas virtudes destacam “O agente secreto” de outros filmes de Mendonça Filho. São qualidades herdadas de monumentos da cultura pernambucana, a ver: a presença de humor “à la Chacrinha”, na linhagem dos velhos safados do pastoril, graça inocente de tão maliciosa; e a ausência de moralismo, herança (ir)refletida de Nelson Rodrigues, talvez. Apesar do final, trata-se de um filme amoral (ou imoral, como queiram), assim como o país que retrata.
Se há chances de reconhecimento “oscarizável” ao filme, e há, oxalá!, isso se deve ao desejo assumido do realizador de comunicar, de ir além da franquia criadora de se exprimir — como se deixasse de pretender, para querer ambicionar. Sorte e sucesso para “O agente secreto”!
(Ah, e concordo com Eduardo Escorel quando diz que o agente secreto do filme é tão secreto que ninguém descobre quem é... rsrs)
* Pedro Bial é jornalista e apresentador de TV
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