Cultura Pop
O que Nossa Senhora Aparecida revela sobre a cultura e o racismo no Brasil
No livro 'Tantas Marias', o historiador Luiz Antonio Simas investiga como a devoção à Virgem Maria atravessa a formação do Brasil e as suas contradições
Entre as promessas feitas em momentos de sufoco e manifestações de fé que atravessam gerações, a devoção à Virgem Maria no Brasil não se limita ao sagrado, mas ganha diferentes formas de expressão que ajudam a contar a história do país. É por esse caminho que o historiador e professor Luiz Antonio Simas pesquisa, em “Tantas Marias” (Civilização Brasileira, R$ 59,90), seu novo livro, lançado na próxima segunda, as relações entre Nossa Senhora, a cultura popular e a formação do Brasil.
Segundo ele, que vai destrinchar a obra numa aula pública às 14h, no Bar do Bode Cheiroso, no Maracanã, a devoção a Maria mostra como as crenças se misturam às experiências culturais de cada lugar. No caso da padroeira do Brasil, a representação é de uma santa negra, com um espaço importante, mas que carrega as contradições de uma sociedade racista.
— A Virgem Maria aparece com características das culturas locais: indígena em Guadalupe (México); camponesa em Lourdes (França); negra no Brasil. O que, por um lado, fortaleceu um discurso, sobretudo na Era Vargas, que buscou legitimá-la como exemplo de harmonia entre as raças, por outro demonstrou o contrário: esse discurso conciliador encobriu a violência e o racismo expressos diariamente no Brasil — explica o escritor.
A pesquisa sobre as diferentes faces de Maria dá continuidade a um interesse que ele já tinha explorado num livro dedicado a São Jorge. Mas em “Tantas Marias”, essa presença se espalha por muitas vertentes:
— Maria está presente no futebol, na música popular, nos desfiles de escolas de samba, na culinária amazônica, no vai e vem das ruas... Nossa Senhora é símbolo de um Brasil possível como projeto de liberdade e respeito às diferenças.
Recentemente, Nossa Senhora foi assunto nas campanhas eleitorais, sendo defendida e atacada. Para Simas, o debate deve partir da defesa da liberdade religiosa, incluindo o direito até de não professar fé alguma.
— É importante que a religião esteja no centro do debate público, não a partir da desqualificação da fé do outro, mas a partir da luta por liberdade de culto, de crença e de descrença. Há um processo que se desenha há anos de disputa por um mercado religioso e montagem de um projeto de poder estimulado por algumas (não todas, evidentemente) designações evangélicas que depredam terreiros, demonizam religiões afro-indígenas e vez por outra voltam suas baterias de ódio contra Nossa Senhora Aparecida — diz.
Mas, se a imagem da santa pode ser convocada para disputas e discursos de intolerância, sua presença na cultura popular também aponta para outros caminhos. E é nesse limite entre o sagrado e o profano que Simas encontra uma das características mais instigantes: o modo como o povo aproxima os santos da vida cotidiana.
— Profanamos o sagrado e sacralizamos o profano o tempo todo. Se a igreja santificou os humanos, o povo adora humanizar os santos. É isso que me seduz como um estudioso — reflete.
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