Cultura Pop
Vitória da paz: história revelada pelo EXTRA vira documentário e estreia no Festival do Rio com imagens inéditas
Novo longa mostra gravações feitas por Joana da Paz, denunciando o tráfico na Ladeira dos Tabajaras, em 2005
Ela não era repórter, não tinha treinamento para fazer filmagens, mas afirmava, na época, que aquelas imagens eram “para um documentário”. Da janela de seu apartamento, em Copacabana, Joana Zeferino da Paz começou a registrar o tráfico na Ladeira dos Tabajaras. Em agosto de 2005, o EXTRA contou a história de Dona Vitória pelas mãos do então repórter Fábio Gusmão, hoje editor-executivo do jornal. Mais de duas décadas depois, após virar livro e filme protagonizado por Fernanda Montenegro, o material daquela idosa que decidiu mostrar o que acontecia diante de seus olhos chega aos cinemas no documentário “Vitória da Paz”, que estreia hoje no Festival do Rio.
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— Nosso trabalho foi, sobretudo, honrar as imagens que Dona Joana fez e organizar o material. Esse, de alguma forma, é o documentário sobre uma documentarista que não treinou para isso, mas que fez imagens muito potentes, capazes de ajudar a transformar a realidade que ela filmou — diz Ricardo Calil, diretor do longa-metragem junto com Fábio Gusmão e Dudu Levy.
Devido ao risco de vida, Joana entrou no Programa de Proteção a Testemunhas e seu nome foi retratado como Vitória. Sua identidade foi revelada após sua morte, em 2023, aos 97 anos. O documentário reúne filmagens originais dela, às quais Gusmão teve acesso na época, além de materiais inéditos.
— Revisitamos quase uma centena de horas de fitas e descobrimos novas, inclusive. São momentos em que ela conta a sua história durante e após o Programa de Proteção a Testemunhas. Para mim, esse documentário é um sonho desde o momento que peguei as fitas que ela gravava. E com certeza era um sonho dela, porque numa das gravações, ela diz que estava fazendo um documentário — destaca Gusmão, que conta: — Dona Fernanda Montenegro, no lançamento do filme “Vitória”, me disse: “A história é dela, merece um documentário”. Foram vários incentivos.
As gravações originais feitas por Joana integram 90% do novo longa. Além delas, há ainda algumas entrevistas.
— Entrevistamos o filho adotivo dela, os policiais que investigaram o caso que ela denunciou na época. Reunimos a melhor versão que conseguimos para contar quem era essa mulher e o caminho que ela percorreu, o que conseguiu construir até o fim da vida — frisa o sempre repórter, que completa: — Foi a primeira vez que me aventurei em um documentário. Estava acostumado a fazer entrevistas como jornalista, para uma reportagem convencional. Mas no documentário, a forma muda completamente, com uma visão e uma escuta mais apuradas. Aprendi muito e consegui dar um pitaco ou outro para ajudar na construção. Calil me entrevistou por quase cinco horas, revisitei toda a história. Foi emocionante. Ele me fez reviver aquilo como se estivesse acontecendo.
A chance de ver a Joana verdadeira ali
Além de ser a concretização de um desejo de Gusmão desde que descobriu a história, Ricardo Calil reforça a relevância do documentário:
— Essa é uma chance de o público conhecer a história contada por ela mesma. Ver a realidade que ela viu e conhecer aquela pessoa. Talvez esse documentário ofereça mais da Joana verdadeira do que qualquer outro formato anterior. Além disso, esse longa aborda muito da realidade do Rio, do Brasil. É sobre o passado, mas também é muito atual.
Gusmão ressalta:
— Essa história continua após 21 anos. Pelas denúncias que Dona Joana fazia sobre crime organizado, violência, controle de território e pela sua própria história. Quando a voz de uma pessoa está imbuída de um propósito poderoso assim, pode ter um efeito que ultrapassa o tempo. Acredito que cada formato traz uma nova maneira de as pessoas a conhecerem, bem como tudo que ela fez.
O maior desafio
“Foi a edição, porque tínhamos muito material rico. Queríamos dar conta das imagens e da história dela”, afirma Calil.
Mensagem
“Espero que consigamos passar a mulher que Joana foi, uma heroína brasileira. Ela buscava o protagonismo da própria vida, fazendo com que as coisas acontecessem de maneira justa e correta, mesmo que isso custasse algo a ela. Uma sobrevivente que não vivia como uma sobrevivente”, resume Gusmão.
Festival do Rio
“Faz todo sentido estrear esse documentário no Festival do Rio porque é uma história bem carioca. Vamos ter as primeiras sessões a poucos quilômetros de onde a história aconteceu, uma história que diz coisas importantes sobre a cidade”, destaca Calil.
Sessões e horários
Hoje a sessão é para convidados. Amanhã (no CineCarioca José Wilker 1, às 18h) e quinta-feira (no Estação Clar Rio 5, às 19h) haverá sessões abertas ao público. Ingressos e mais informações em festivaldorio.com.br/br/filmes/vitoria-da-paz. Após o festival, o doc será exibido na TV Globo, com data a confirmar.
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