Cultura Pop
MC Carol aponta desafios na atuação e relembra passado difícil, expulsa de casa aos 14 anos: 'O que aconteceu na minha vida foi um milagre'
Cantora fala sobre o amor que recebeu dos bisavós, do sonho da casa própria, do casamento e mais na entrevista exclusiva
“Quero ouvir Ana Moura (cantora portuguesa)”, pediu MC Carol numa sexta-feira nublada no Rio, ao posar para as fotos desta reportagem. A artista, de 32 anos, tem feito sucesso como a Mirtes de “Quem ama cuida”, personagem que começou boazinha, criando Camilo (Antonio Caramelo) enquanto a cunhada, Nancy (Jeniffer Nascimento), estava presa, mas logo passou a mostrar suas garras ciumentas ao colocar o menino contra a mãe, quando ela ganha a liberdade. Na entrevista a seguir, a cantora fala sobre os desafios na atuação, abre o coração ao relembrar o passado difícil e reflete sobre a surpresa das pessoas ao encontrarem nela uma mulher tímida, que fala baixo e é apaixonada por música árabe, além das canções de Portugal. Confira!
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O que você tem de parecido e de diferente da Mirtes?
Somos bem parecidas. Como ela, eu também adoro crianças. Minha casa sempre foi cheia delas, desde a adolescência na comunidade (Morro do Preventório). Naquela época, eu morava num barraco que tinha um cômodo e banheiro. Quando eu conseguia um trocadinho, comprava dez pães, um refrigerante e mortadela, e enchia o lugar de meninos e meninas que ficavam na rua. Alguns deles são meus amigos até hoje, outros morreram, infelizmente, ou foram presos. Depois, quando eu comecei a cantar e melhorei de vida, saí da comunidade, mas continuei fazendo isso. Eu ia ao morro de carro, pegava as crianças que eu conhecia, e elas traziam outras. Eu tentei adotar algumas. Um deles, era um menino de 11 anos. O tráfico ia matar. Certa noite, eu estava subindo o morro e vi os caras com ele. Até que me disseram que ele estava devendo R$ 500. Eu disse: "Me dá ele", e busquei o dinheiro na minha casa. No outro dia, fui no shopping, comprei videogame, roupa, tudo. Um dia, fui trabalhar e, quando voltei, tinha farelo de maconha na minha casa. Eu nunca fumei. Falei pra ele: “Isso nunca entrou na minha casa”. Ele ficou um pouco comigo ainda, mas um dia me disse: “Tia, desculpa, mas eu sou assim, eu não vou mudar. Vou embora”. Eu tive que aceitar. Anos depois, eu o vi numa cracolândia em Niterói. Hoje, não sei se ele está vivo. O amor que Mirtes tem pelo Camilo, eu tenho pelas crianças.
Como o público reage a Mirtes?
Vejo muita gente elogiando. Dizem que, se meu papel era provocar ódio, ser insuportável, consegui. Eu entendo as pessoas detestarem ela, mas também compreendo a Mirtes. Ela criou aquela criança.
Qual o maior desafio na atuação?
Atuar é difícil, exaustivo. Ainda mais porque eu canto. Fiz agora um show no Rock in Rio e, no dia seguinte, tive que gravar oito cenas. Eu fui na van para a Cidade do Rock estudando o texto e fazia isso em toda pausa que tinha. Quando acabei de cantar, dei entrevistas e fui embora para seguir estudando, enquanto minha equipe ficou para ver outros shows. Todo dia que eu chego para gravar, me dá frio na barriga, dor no estômago. Fico com medo. Mas é bom não ter tanta confiança, porque você vai querer fazer o seu melhor. Sempre peço para estudar as cenas no camarim com os atores com quem vou contracenar. Eu sou novata ali, não sabia como seria tratada, pensei que seria como na época da escola em que eu era um patinho feio, que ficaria isolada. Mas todo mundo é legal comigo, eles me abraçam, me tratam muito bem. A primeira vez em que a Flávia Alessandra me viu, por exemplo, ela começou a cantar uma música minha! Eu nunca imaginei que a Flávia Alessandra sabia quem eu era ou o que eu cantava. São mundos muito distantes. Eu pintei um quadro para o Tony Ramos, mas demorei uns três dias para entregar. Eu pensei: ele é um cara chique, rico, o que é um quadro meu? Até que entreguei. Depois, Ricardo Teodoro falou que ele se emocionou no camarim com o presente. Isso é muito maneiro!
Pintar é um hobby seu?
Eu já fiz algumas aulas, mas não consegui continuar. Faço por hobby, sim, quando tenho tempo em casa. Desenhar é uma coisa que eu sempre gostei desde criança.
Você já disse que o seu trabalho como atriz a paga bem. O que mais encontra na atuação?
Essa novela é meu trabalho mais bem pago. Mas na época em que minha agente me contou, eu disse: “Aceita, nem que seja de graça”. Eu amo atuar. E estar numa novela da Globo em horário nobre é algo que nunca imaginei. Um sonho que nunca nem consegui sonhar na vida, nunca tive a audácia. Eu comecei cantando em favela. Nunca achei que fosse viajar a trabalho, ainda mais para fora do país; cantar, pisar no Rock in Rio... Não é só sobre dinheiro. Tem que ser mais, porque é muito cansativo.
Em 2024, você usou todas as suas economias para comprar sua casa. Como foi?
Fiquei sem nada. Mas, antes disso, meu sonho mesmo era dar uma casa para a minha bisavó, que me criou. Não me importava em viver de aluguel, desde que eu desse uma casa para ela. A gente tinha uma casa, mas meu bisavô morreu, me botaram para fora com 14 anos e convenceram a minha bisavó a sair da casa. Acabaram vendendo a casa dela, e ela ficou morando na casa de outros filhos. Ela sentia que estava incomodando. Quando eu tinha 18 anos, fiquei sabendo que ela estava morando num porão de aluguel. Aí botei essa meta. Comprei e reformei uma casa na comunidade para a minha avó ficar perto da família. Botei tudo rosinha pra ela. Depois, comecei a juntar dinheiro para um dia comprar a minha casa. Foram muitos anos trabalhando para conseguir isso, num lugar seguro. Virei 2025 no vermelho, mas não me arrependo. Hoje tenho quintal, moro perto da natureza, tem até salão de festas aqui! Tem uma viatura na porta do condomínio. Algo que nunca imaginei viver assim (Carol se emociona e segue entre lágrimas). Quando eu fui expulsa da minha casa, fiquei na casa dos outros. Depois, minha avó (bisavó) conseguiu, com muito custo, construir um cômodo e um banheiro para mim. Eu tinha que lavar louça no balde. Não tinha esgoto, cano, embolso, essas coisas. Por isso que eu falo na música “Minha vó tá maluca”: “Minha casa no tijolo, minha geladeira pura”. Também não tinha porta nem janela. Lembro que em um dos meus meus aniversários, a minha madrinha perguntou o que eu queria de presente. Eu pedi: “A senhora pode me dar uma porta?”. Eu tinha medo de entrarem e fazerem alguma maldade comigo. Eu dormia segurando um canivete.
É uma história triste, Carol. Mas é bonito ver onde você chegou...
Obrigada. Eu fui criada com tanto carinho. Meu bisavô fez tudo que podia. Nunca falei sobre isso. Quando eu tinha 14 anos, o filho dele (um tio-avô de Carol) inventou uma mentira na véspera do aniversário do meu bisavô. Ele não aceitava que meu bisavô me criasse. Queria que ele me devolvesse para minha mãe. Mas minha mãe era irresponsável. Aí esse filho dele sempre inventava alguma coisa. Naquele dia, inventou que eu tinha roubado um anel. Meu bisavô sabia que não, conhecia minha índole. No dia seguinte, na noite do aniversário do meu bisavô, ele enfartou e morreu. Esse filho me botou para fora e eu vivi as piores coisas. Mas eu tinha a criação do meu bisavô e foi isso que me protegeu. Não me envolvi com drogas, com bandido, com nada errado nunca, nunca, nunca. E, quando você está sozinha na rua, toda hora chega alguma coisa para te levar para o caminho errado. Pessoas mais velhas ficavam me oferecendo (droga) e eu nunca nem experimentei. Eu pensava: não posso. Lógico que eu queria fugir daquela dor que eu sentia, mas pensava que meu bisavô estava me vendo, então não podia fazer nada errado. Eu chegava em casa depois de cantar num baile funk e chorava muito. Botava naquele canal de igreja de manhã cedinho e pedia perdão ao meu bisavô por estar cantando funk, falando palavrão. Eu conversava com ele. Fui criada ouvindo Roberto Carlos, sabe? Mas ali eu ganhava R$ 50 por show, era com esse dinheito que eu comprava comida, gás. Então, hoje, estar na novela e vivendo numa casa confortável, levantar de manhã e ver minha geladeira cheia... Nossa, eu sou muito grata a Deus, à criação que eu tive, ao funk, a tudo que vem acontecendo na minha vida. É uma surpresa grande sair de onde eu vivia, da forma como eu vivia. Eu tenho duas pessoas da minha família que foram assassinadas pelo tráfico. O funk me deu tudo, salvou a minha vida. Sempre tive algo que me protegeu. Não sei se foi Deus, meus orixás, meu bisavô. O que aconteceu na minha vida foi um milagre.
Nas suas músicas, você fala sobre sexualidade e de uma forma bem empoderada. Você se sente assim?
Quando eu era criança, achava meu rosto bonito, meu bisavô falava isso. Ele cantava várias músicas com o meu nome, Carolina. Eu achava que ele inventava, depois descobri que existiam mesmo. Mas quando eu saía de casa, ia para a escola, sofria muito bullying, racismo, gordofobia, machismo... Em casa era diferente. Eu brincava na rua. Meu bisavô falava sobre eu crescer, estudar, ser policial, ter meu dinheiro, minhas coisas. Depois que eu o perdi, comecei a engordar muito. Cheguei a quase 200kg, foi quando operei. Antes eu atuava no palco, passava uma mensagem de que era inabalável, forte, mas essa não era minha realidade. Nunca fui escolhida por ninguém. As meninas de 15 anos tinham namoradinhos, eu não. Por eu brincar muito com os meninos, minha família pensava que eu era lésbica. Eu precisava me masculinizar também para ser respeitada e para não sofrer, para tentar não ser violentada na rua. Nunca passei maquiagem na cara. Antes da bariátrica, cheguei numa fase em que eu só vivia deitada e sentada, com dores nas costas, nas pernas. E isso começou a prejudicar meu trabalho. Eu comecei a fazer show sentada na cadeira no palco. Eu já me sentia morta. Depois que operei, em um mês perdi cerca de 15kg e ganhei uma saúde, um bem-estar, uma vontade de levantar de manhã, de ir no cinema, no shopping... Até cinco anos atrás, eu só vestia um estilo de roupa, que era um blusão de paetê. Eu tinha essa peça de todas as cores. Não tem como eu não me sentir bonita hoje ao ver fotos de antes e de agora. Eu não tinha pescoço, eu dormia com travesseiro para ficar quase sentada para poder conseguir respirar à noite, não podia botar as roupas que eu queria, que eu gostava. Hoje já perdi uns 65kg. Minha autoestima foi lá no alto. Claro, tem muita coisa que eu ainda quero melhorar. Tirei a pele da barriga e do peito, mas ainda falta da perna e do braço.
Mirtes sente ciúme do marido com Silvana (Belize Pombal). Você é ciumenta?
Já tive um relacionamento bem ruim por conta de ciúme (por parte do parceiro), principalmente do meu trabalho. Tem situações que são normais, mas tem gente que fantasia coisas. Vê pessoas te olhando, você olhando para as pessoas, e nada aconteceu. Eu acho isso horrível. Mas aquela cena na novela (em que Mirtes encontra Silvana na sua casa, conversando com Laurentino, interpretado por Alan Rocha) foi difícil de fazer. Tive que repetir algumas vezes porque o diretor queria que eu fosse mais pacífica e educada. Eu falei: “Diretor, não vou cumprimentar, não vou apertar a mão”.
Você segue casada (com o ator e modelo Cosme Santiago)?
Sim, mas não queria entrar nesse assunto. Eu vivi um momento em que eu só postava fotos com o meu marido. Eu até recebi um toque de uma antiga empresária minha. Ela falou: “Carol, o seu perfil é profissional, tem que ser sobre você, seu trabalho”. Então esse ano, quero falar sobre o meu trabalho.
Mirtes também cozinha no restaurante do marido, Laurentino. Você gosta de cozinhar?
Eu não sabia que gostava. Comecei a cozinhar quando me casei. Comecei a olhar no YouTube algumas receitas. Gosto mais de fazer coisas salgadas, comida mesmo, como carne de panela, feijão... Faço tudo.
Você pediu para ouvir música portuguesa na hora das fotos. Há mais características suas que as pessoas não conhecem?
Eu gosto de desenhar, meu sonho era ser desenhista, só que o meu bisavô falou, na época, que não era profissão. Junto, a gente decidiu que eu seria policial. Tem desenhos em paredes que eu fiz até hoje na minha comunidade. Amo ouvir músicas portuguesas, fado, bem como o instrumental de música árabe. Não sei de onde veio isso. Quando eu era adolescente, ia para a lan house e botava as músicas no YouTube para ficar ouvindo. Quando eu quero me acalmar, boto música árabe ou fado em casa. Ana Moura canta um fado triste, mas também vai para uma batida alegre. Gosto disso. Não sei se as pessoas sabem que já fiz muitos esportes também, como vôlei e capoeira. Já fiz aula de miçanga, argila... Sempre me ocupei muito. Tudo que envolve arte eu gosto, mas nunca tinha imaginado cantar. Não sabia que eu gostava de escrever músicas, subir ao palco.
E quais os próximos objetivos que quer alcançar?
Já vivi coisas incríveis profissionalmente. Meu próximo objetivo é ser mãe, acho que no ano que vem. Vou fazer 33 anos daqui a alguns dias (6 de outubro). Não tive filho ainda por conta da correria de trabalho, é complicado, sei que ficarei um tempo sem trabalhar. Eu digo que, na verdade, quero ser pai porque eu quero continuar trabalhando, dar uma vida boa para a minha filha, transformá-la numa afropaty.
Você acredita na importância da sua representatividade numa novela das nove?
É difícil ver assim porque eu sempre fui muito criticada por cantar funk, então eu nunca imaginei que alguém se inspiraria em mim, que me veriam como algo bom, entende? E foi isso que me levou para o mundo da atuação. Eu queria que as pessoas me tratassem com respeito. Queria ser vista como uma pessoa legal porque as pessoas têm uma imagem de mim muito ruim, muito distorcida. Eu vou nos lugares e me oferecem droga e bebida, até pessoas na plateia dos meus shows às vezes. Mas eu não bebo nem fumo. Quando eu saía dos bailes antigamente e voltava para casa a pé, as pessoas me olhavam com tristeza, tipo: o bisavô dela morreu e ela foi para o caminho errado agora. Mas eu nunca estive nesse caminho. Trilhei o caminho que dava para trilhar. A porta que foi aberta para mim foi a do funk. E eu nem sei de onde veio isso porque dentro de casa eu não podia ouvir funk. Meu bisavô, ao mesmo tempo que era um homem sensível que criava passarinhos, foi criado em colégio interno, era rígido. Teve um dia em que eu ouvi a música “Rap da felicidade”, de Cidinho e Doca, bem baixinho no rádio. Ele chegou e disse: “Isso é música de chincheiro”. As coisas foram acontecendo e eu nem sei como. Escrevi “Minha vó tá maluca”, fui parar em baile funk, depois no programa “Esquenta”, no “Caldeirão do Huck”, foi muito rápido. Deus me tirou daquele lugar através do funk. E isso não quer dizer que eu me envolva com coisa errada. As pessoas costumam não saber disso, mas eu sempre fui muito correta. Então, comecei a pensar sobre isso: “Preciso fazer alguma coisa, ter uma outra profissão em que as pessoas me respeitem”. Eu pensava que ia ser através do desenho. Mas foi com atuação. Muitos estão me “conhecendo agora”. Tem gente que vem tirar foto comigo no camarim e se assusta, porque eu falo baixo, com educação. Sempre acham que eu estou passando mal. Mas essa sou eu normal, quietinha, tímida. Chego num ambiente que não conheço e fico calada. Essa sou eu.
Créditos
Produção executiva: Gabriela Medeiros
Fotos: Márcio Farias
Beleza: Vivi Gonzo @makegonzovivi
Estilo: Jessica Kelly @jessicakelly____
Assistente de estilo: Pocket @pocketofc
Unhas: Studio preta chic @studiopretachic e Adrielle Máira @adri_nail.designer
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