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Entrevista: educadora americana defende autonomia infantil e 'boas lembranças' para que pais criem filhos de sucesso

Esther Wojcicki propõe protagonismo do estudante e restruturação da cultura da sala de aula em torno de cinco princípios: confiança, respeito, independência, colaboração e amabilidade

Agência O Globo - 01/06/2026
Entrevista: educadora americana defende autonomia infantil e 'boas lembranças' para que pais criem filhos de sucesso
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A substituição do controle parental pela autonomia das crianças e jovens é a principal bandeira levantada pela Esther Wojcicki, de 85 anos. Autora do best-seller “Como criar filhos para o mundo: Lições simples para resultados radicais”, a americana é mundialmente conhecida por ser a mãe de três filhas muito bem-sucedidas: a CEO do YouTube (morta em 2025), a cofundadora e CEO da 23andMe e uma professora universitária. Em entrevista ao GLOBO, ela deixa um conselho para a criação das novas gerações: "dê a eles boas lembranças".

'A gente tem que expulsar':

Enem 2026:

A educadora participará, nesta segunda-feira, de evento em São Paulo a convite da Arco Educação para falar com gestores de escola de educação básica do país. O debate será em torno do papel da autonomia, da confiança e da responsabilidade na formação de pessoas capazes de navegar em qualquer futuro.

Entre as propostas de Wojcicki está o método TRICK, que é uma sigla para Trust, Respect, Independence, Collaboration e Kindness — Confiança, Respeito, Independência, Colaboração e Amabilidade. A metodologia defende o protagonismo ao estudante e a restruturação da cultura da sala de aula a partir dos cinco pilares.

Leia a entrevista completa:

Os pais hoje muitas vezes têm medo de frustrar os filhos. Como equilibrar autonomia e autoridade sem cair nem no autoritarismo nem na permissividade?

A principal coisa que os pais podem fazer hoje é conversar com seus filhos. Eles não fazem isso muito bem. Estão acostumados a dar ordens e dizer o que os filhos devem fazer. Há pouca interação e colaboração. Muitos praticam a chamada "parentalidade helicóptero": supervisionam tudo e se certificam de que a criança faça tudo da maneira considerada certa. Mas quem decide o que é certo? Os pais. Se você cresce em um ambiente em que alguém lhe diz o tempo todo o que fazer e essa pessoa está sempre certa, nunca vai tentar apresentar suas próprias ideias.

Muitos especialistas defendem oferecer opções às crianças em vez de simplesmente dar ordens. Há um limite para isso?

Existe um limite. As crianças não podem ter liberdade irrestrita. Elas precisam aprender que não podem machucar outras pessoas nem animais. Algumas regras são necessárias. Mas isso não significa dizer o tempo todo o que elas devem fazer. Eu tenho um aplicativo chamado Parenting TRICK, que espero que em breve esteja disponível em português. Os pais podem fazer perguntas e receber respostas baseadas na idade, no gênero do filho e também na minha filosofia educacional. Meu objetivo é ajudar os pais.

Muitos pais têm dificuldade em aceitar que seus filhos cresceram. Quais são os erros mais comuns cometidos por aqueles que continuam os tratando como crianças?

Se você continuar tratando um adolescente como uma criança pequena, ele começará a esconder tudo de você. Se fizer algo errado, não vai contar. Porque não quer ser punido e sabe que você detém todo o controle. Você precisa confiar no seu filho o máximo possível. O que você precisa fazer é estabelecer um diálogo, uma forma de colaboração, um ambiente em que ele possa conversar com você sobre qualquer coisa. Muitas vezes, crianças e adolescentes têm medo de dizer o que realmente pensam porque não querem que os pais sejam duros com eles ou riam deles. É justamente por isso que escondem tantas coisas. Todos fazem isso.

Jovens estão demorando mais para buscar independência financeira e sair da casa dos pais. Isso é uma mudança cultural ou reflexo da forma como estamos criando nossos filhos?

Acho que são as duas coisas. Mas por que os jovens estão ficando mais tempo na casa dos pais? Comida de graça, roupa lavada, cama garantida, sem aluguel. Por que alguém abriria mão disso? Além disso, o mundo ficou mais caro. Hoje é mais difícil conquistar independência financeira. E, se você pode continuar morando em casa, ter autonomia e ainda receber todos esses benefícios, por que sairia?

Faz parte do papel dos pais atribuir responsabilidades de adulto aos filhos, mesmo quando eles continuam morando em casa?

Se o seu filho chega aos 18 anos e você nunca o ensinou a cozinhar, lavar a própria roupa ou arrumar o quarto, é claro que ele não vai querer sair de casa. Ele não sabe fazer nenhuma dessas coisas. Quando minhas filhas eram pequenas, já lavavam suas roupas, guardavam nas gavetas e ajudavam a cozinhar. Eu era mãe delas, não empregada. Elas precisavam contribuir para a família. A melhor maneira de preparar os filhos para a vida adulta é introduzir responsabilidades domésticas desde cedo. Se eles entenderem que fazem parte de uma equipe e que todos colaboram, participam. Durante a pandemia, dividimos as tarefas da casa entre as crianças e funcionou muito bem. A mais nova, de 6 anos, ficou responsável por passar o aspirador na casa inteira.

No passado, as famílias trabalhavam mais juntas?

As crianças contribuíam e participavam da rotina da casa. Hoje muitas são tratadas como pequenos reis e princesas. Qualquer coisa que desejam, recebem. Mas a vida não funciona assim. Você está preparando seus filhos para um mundo que não existe.

Até que ponto a superproteção dos pais e o tempo de tela estão relacionados ao aumento da ansiedade e da depressão?

Os pais são muito superprotetores. E existe outro problema: entregam dispositivos eletrônicos aos filhos porque isso torna a vida deles mais fácil. Hoje você entra em um restaurante e vê famílias inteiras olhando para telas. As crianças foram treinadas para agir dessa forma. O mesmo acontece com os adolescentes. Eles chegam a trocar mensagens entre si estando sentados lado a lado. E a culpa é nossa, dos adultos.

Isso tem relação com ansiedade e depressão?

Tem uma relação muito próxima. Você fica conectado a um dispositivo e acaba sem saber interagir com o mundo sem essa muleta chamada celular. Muitos jovens passam cinco, dez horas por dia olhando para a tela.

Como os pais podem ensinar resiliência sem minimizar o sofrimento emocional dos jovens?

Você sabe como se aprende resiliência? Sendo resiliente. É igual a aprender a andar de bicicleta. Você precisa fazer. A resiliência é aprendida quando enfrentamos situações e encontramos soluções por conta própria. A superproteção impede esse desenvolvimento.

Como aplicar a confiança em um mundo em que as crianças passam horas on-line e estão expostas a riscos digitais?

Que tal simplesmente não entregar um dispositivo eletrônico tão cedo?

Qual seria a idade mínima ideal?

Nove anos. E depois de um curso sobre como usar a tecnologia. Nessa idade a criança já consegue ler razoavelmente bem, seguir instruções e tem mais maturidade lógica. Não dê um celular a uma criança de 3 anos. Mas é exatamente isso que muitas famílias fazem.

Os pais devem monitorar celulares e redes sociais dos filhos?

Primeiro, eu evitaria redes sociais antes dos 9 anos. Depois disso, é preciso ensinar todos os riscos envolvidos. Mas, depois da orientação, as crianças precisam aprender a administrar o próprio uso das redes. Se alguém controla você o tempo inteiro, você não aprende nada. Aprende apenas a obedecer — ou a tentar escapar do controle.

Os pais de hoje estão impedindo os filhos de fracassar?

Se você nunca aprende a fracassar, passa a ter medo do fracasso. Eu vejo o fracasso de outra forma. Um erro é uma oportunidade de aprender. Toda falha é uma oportunidade para corrigir o caminho e tentar novamente até acertar.

A busca pela excelência pode produzir o efeito oposto?

Sim. Está produzindo crianças e adolescentes ansiosos. Eles também passam a esperar ajuda para tudo. Quando algo dá errado, em vez de desenvolver resiliência e buscar soluções por conta própria, procuram imediatamente apoio externo.

Quais habilidades humanas serão mais valiosas no futuro?

A criatividade. E posso garantir uma coisa: criatividade não vem da inteligência artificial. A IA apenas reorganiza e reproduz informações. Precisamos dar às crianças oportunidades para criar e pensar. Hoje a escola está ocupada demais fazendo os alunos memorizar respostas para problemas do século passado.

Se pudesse dar apenas um conselho aos pais que estão criando filhos em 2026, qual seria?

Confiem nos seus filhos, respeitem suas ideias, deem independência, colaborem com eles e os tratem com gentileza. Não humilhe seus filhos. Não os faça se sentirem pequenos. As crianças podem esquecer o que você fez ou disse, mas jamais esquecerão como você as fez sentir. Não são menos inteligentes do que nós. São apenas versões menores de nós mesmos. Dê a elas boas lembranças.