Cidades

Cotidiano dos ambulantes do Centro de Maceió vira livro ilustrado

Redação com Ryan Charles - estudante de Jornalismo 25/02/2026
Cotidiano dos ambulantes do Centro de Maceió vira livro ilustrado
Natália Alencar em meio aos ambulantes do Centro de Maceió - Foto: Renner Boldrino

Entre a diversidade de pessoas que passam pelo Centro de Maceió todos os dias, existem aqueles que veem nessa movimentação o seu ganha-pão, que é o caso dos vendedores ambulantes. Tendências mudam, os gostos se transformam e tudo se transmuta, e eles estão sempre lá, prontos para acompanhar estas metamorfoses, ainda que muitas vezes passem despercebidos aos olhos apressados dos transeuntes.

Foi com este olhar poético que a egressa do curso de Design da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Natália Alencar, retratou a realidade desses profissionais no seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), intitulado “O vendedor ambulante no ambiente de comércio: livro ilustrado acerca da vivência no mercado informal do centro de Maceió”, que agora se transformou em livro físico e está pronto para ser lançado.

Com uma história lúdica e livre para todas as idades, o livro é um convite a adentrar na realidade daqueles que saem de casa todos os dias para o bairro mais movimentado da cidade, sempre prontos a atender a população, através das cores, imagens e do design.

“Da pesquisa ao gesto de amor à cidade”

A egressa contou que desde que começou a idealizar seu TCC sabia que fosse conectado à cidade e se ligasse a ela. Mais que um trabalho da graduação, ela queria que sua pesquisa fosse um gesto de amor à cidade.

“O ambiente do Centro é um ambiente que eu gosto muito de estar. Andar, para mim, é muito importante na minha vida pessoal mesmo. O Centro é um dos lugares da cidade que são mais interessantes de andar, de você ver as pessoas, ver a vida acontecendo, que tem interessância mesmo. Por exemplo, a gente tem uma orla que tem um apelo muito grande, tem beleza natural, mas o Centro tem muito mais riqueza social e criativa”, ressaltou.

E ela percebeu, com autenticidade, que a história do centro era intrínseca à presença dos vendedores ambulantes. E afirmou que a presença deles neste local histórico é resistência, devido às fortes lutas que enfrentam para se manter e comercializar.

“Achei interessante trazer os vendedores informais no meu trabalho, justamente por causa das investidas que eles sofreram ao longo dos anos. Eles ficam muito à mercê de cada gestão. Atualmente é uma gestão que vem sendo solidária com eles. Fez uma organização espacial que era uma reclamação muito grande, por exemplo, dos vendedores que têm pontos físicos em lojas. Mas o Brasil é um país que tem uma diversidade econômica, uma desigualdade econômica muito grande, nem todo mundo consegue comercializar com pontos físicos. E, como o centro é um espaço grande, um espaço público, eu acredito que é para todos, para quem quiser e puder comercializar. É um ambiente que deve abraçar essas pessoas e ter uma organização por meio do poder público, para que aconteça tudo da melhor forma para todos”, contextualizou.

Construção do livro

Foi a partir disso que Natália uniu sua paixão pela literatura, imagens e o bairro para construir o livro ilustrado, que tinha o objetivo claro de preservar a memória e a identidade dos vendedores ambulantes. “O Centro é o ambiente onde se passa. A trajetória do livro é como se fosse uma ida até lá mesmo. Eu convido as pessoas a fazer essa caminhada comigo e a ver o que eu estou enxergando como bonito, incentivando as pessoas mesmo a enxergar essa beleza, se elas não já enxergam”, destacou.

Entre as principais curiosidades e aprendizados que ela obteve durante a sua pesquisa, ela ressaltou a capacidade de unir sua graduação em design e a realidade dos vendedores, coisa que pode passar despercebida à primeira vista.

“Uma coisa que eu mostro no livro é a organização das bancas de venda dos vendedores informais, porque tem muitas soluções criativas. Então, o meu interesse está dentro também de um design vernacular organizacional, de como esses instantes estão sendo montados. Porque a gente, enquanto brasileiro, cresceu olhando muito para o mundo lá fora como inspiração, como algo bom, algo certo, algo a almejar. E eu acho que a gente deixou de lado, por um tempo, isso de enxergar que é muito bom e é muita coisa maravilhosa que o brasileiro produz e produziu, mesmo com poucos recursos”, exclamou.

Ela complementou dizendo que a presença dos vendedores ambulantes é um espelho dessa realidade e do quanto se pode criar e desenvolver com diferentes níveis de poder acessível e de instrução, fatos traduzidos em meio às histórias presentes no seu livro.

“Eu acho que é muito importante a gente capturar, registrar e valorizar as pessoas que produzem, que criam mesmo a sua vida, o seu sustento, a sua história. Especialmente falando de um ponto de vista imagético, que a minha pesquisa vem muito nessa área visual. O mercado é uma das formas mais antigas de trabalho. Em vários registros de civilizações antigas a gente vê as cidades sendo criadas em torno de mercados. Então, acho que o mercado e suas várias formas trazem muito da expressão de um povo. O ambiente mais importante de se ir quando você está visitando uma cidade é o centro da cidade, porque ele fala muito sobre aquela cidade. Então, acho muito importante ter materiais que fazem esse retrato e que valorizam essas pessoas que estão construindo esse cotidiano”, reforçou.

Para Natália, a grande potencializadora para a existência de seu livro foi, sem dúvidas, a universidade. Ela relembrou como as vivências que adquiriu dentro das salas de aula foram fundamentais para a construção desse olhar crítico que hoje ela prepara para expor.

“Acho que a universidade é uma facilitadora e uma engajadora de novos projetos. Faz a gente olhar para nós mesmos inseridos dentro de uma sociedade. A universidade também me trouxe a percepção de que eu seria capaz de fazer um livro ilustrado. Teve um evento no curso de design que foi muito marcante para mim. Vieram pessoas de uma editora independente, então eu vi que seria possível. Porque, infelizmente, no nosso estado, é difícil ser artista ou criativo e conseguir publicar o seu trabalho. Reforço que meu livro foi contemplado pelo edital da Lei Paulo Gustavo, na categoria de livro de arte. Então, foi pela universidade e pelos editais de cultura que eu estou conseguindo colocar o meu trabalho no mundo”, salientou.

Realização do sonho

E seu foco em mostrar a beleza no ordinário do cotidiano ganhou destaque: seu TCC foi aprovado com o tão almejado 10, a nota máxima. Ela conta que, mesmo com o nervosismo e a atipicidade da escrita acadêmica, conseguiu entregar algo que faz parte da sua vida, como desejou desde o princípio.

“Eu nasci nos anos 90, então eu só conheço o centro cheio de vendedores informais nas ruas, então nem consigo imaginar um Centro que não seja assim. Esse exercício informal de venda é muito visto como bagunça por muitas pessoas, como algo ruim, como algo que polui visualmente a cidade. E eu queria mostrar que tem beleza nisso, que tem muita criatividade. E a recepção foi muito boa. Foi um desafio escrever o TCC, mas foi uma experiência muito boa de exercitar a escrita acadêmica. As orientadoras acharam muito legal o desenvolvimento de um livro sobre esse tema, e eu acabei conquistando a nota máxima”, comemorou.

Agora ela se prepara para o lançamento oficial do seu livro, que já tem data marcada para o próximo dia 28 de fevereiro, na Casa Tanto, no bairro do Poço, em Maceió, a partir das 16h, e é aberto para toda a comunidade acadêmica e visitantes.

Suas expectativas são para que a leitura dele seja uma experiência antropológica para todos aqueles que compartilham com ela o amor pelas andanças e memórias construídas no Centro de Maceió, e um convite direto àqueles que ainda não a têm.

“Eu espero que as pessoas se sintam dentro do centro. Procurei provocar essa ambientação nas páginas. As minhas intenções principais foram inserir a pessoa na experiência do centro e colocar os vendedores ambulantes como realmente gente central e importante. Quem sabe ele colabore para que as pessoas estejam sempre olhando por eles, admirando eles e, caso em algum momento estejam vulneráveis, que a gente olhe e esteja com eles para lutar pelo direito deles estarem ali”, finalizou.