Poder para os seus familiares, processos para os críticos: o personalismo de JHC

30/09/2026
Poder para os seus familiares, processos para os críticos: o personalismo de JHC
Pernas trocadas, ambição sem freio: JHC e a tentação autoritária à la Janio - Foto: Reprodução

Uma perna aponta para um lado, enquanto o corpo parece seguir para outro. O registro de JHC de costas, junto a um púlpito, lembra uma das fotografias mais emblemáticas da política brasileira: Jânio Quadros com as pernas enroscadas, flagrado por Erno Schneider em abril de 1961. A imagem histórica ficou associada a uma pergunta que continua pertinente: “Qual o rumo?”. i

A aproximação entre os personagens permite uma reflexão que vai além da posição dos pés. Ela alcança a maneira de compreender o poder: como responsabilidade pública, sujeita à crítica e ao contraditório, ou como projeto pessoal que exige a submissão dos demais.

Jânio renunciou à Presidência em 25 de agosto de 1961, antes de completar sete meses de governo. Segundo a interpretação histórica apresentada em reportagem do Arquivo do Senado, pretendia transformar sua saída numa pressão pela volta, então com poderes ampliados. Esperava ser chamado de volta como indispensável. O Congresso aceitou a renúncia e frustrou a manobra. Uma aposta autoritária que terminou em fracasso.

O episódio abriu uma grave crise institucional. Os ministros militares tentaram impedir a posse do vice-presidente João Goulart, e a resistência em defesa da sucessão constitucional mobilizou o país. A renúncia ajudou a alimentar o processo de desestabilização que antecedeu o golpe de 1964, embora não explique, sozinha, sua ocorrência.

Décadas depois, em Alagoas, a fotografia de JHC oferece uma metáfora para discutir outro projeto de poder. O candidato disputa o governo estadual; sua esposa, Marina Cândia, concorre ao Senado; sua mãe, Eudócia Caldas, integra a chapa como primeira suplente da própria nora. A disposição familiar das candidaturas suscita uma pergunta legítima: quanto espaço sobra para a representação plural quando posições tão relevantes se concentram no mesmo núcleo?

O parentesco não torna uma candidatura ilegítima. Mas a reunião dessas posições permite questionar politicamente a concentração de influência, sobretudo quando a promessa de renovação convive com uma estrutura organizada em torno da mesma família. A aparência de novidade pode abrigar um velho método: fazer do sobrenome o centro da vida pública.

Esse personalismo ganha uma dimensão mais preocupante na relação com a imprensa. Segundo a contagem divulgada por jornalistas e veículos alagoanos, mais de 200 ações foram movidas contra profissionais e meios de comunicação por JHC e pelos grupos políticos que sustentam sua candidatura. Os processos vêm sendo denunciados pelos atingidos como assédio judicial e já foi encaminhado para organismos internacionais de apoio a liberdade de expressão.

Recorrer à Justiça é um direito. O efeito de uma ofensiva dessa dimensão, porém, merece escrutínio público: impõe custos, consome tempo das redações e pode estimular o silêncio pelo medo de novos processos. Quando a cobertura crítica passa a carregar uma ameaça judicial permanente, o prejuízo alcança também o cidadão que depende dela para fiscalizar seus representantes.

É nesse ponto que a referência a Jânio adquire sentido político. O personalismo cresce quando o governante se apresenta como maior que as instituições; a inclinação autoritária aparece quando a crítica é tratada como obstáculo a ser removido. Uma liderança democrática precisa conviver com perguntas incômodas, reportagens desfavoráveis e interpretações que não controla.

As trajetórias de Jânio e JHC pertencem a épocas e circunstâncias distintas. A semelhança das fotografias oferece o ponto de partida; a discussão está nas escolhas políticas. Em 1961, a aposta na indispensabilidade de um homem precipitou uma crise nacional. Em Alagoas, a concentração familiar de candidaturas e a ofensiva judicial denunciada pela imprensa exigem atenção ao espaço reservado à divergência.

A fotografia congela um passo. O eleitor precisa avaliar o caminho.

Porque o rumo de um estado não pode ficar subordinado à ambição de uma família nem a liberdade de informar à tolerância de um candidato.

Vladimir Barros

Vladimir Barros

Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e editor do jornal Tribuna do Sertão. Advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com pós-graduação em Direito Processual e Docência Superior. É também membro da Academia Palmeirense de Letras e fundador da Rádio Cacique FM de Palmeira dos Índios.