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Dom Charles-Émile Freppel e o ateísmo da maçonaria

Coaracy Fonseca 11/10/2026
Dom Charles-Émile Freppel e o ateísmo da maçonaria
Coaracy Fonseca - Foto: Reprodução

A incompatibilidade entre a doutrina da Igreja Católica e os princípios filosóficos da Maçonaria não decorre de divergências circunstanciais. Suas raízes encontram-se em concepções distintas sobre Deus, a verdade, a razão humana e os fundamentos da moral.

Em 1885, Dom Charles-Émile Freppel, bispo francês e destacado pensador católico, publicou Sobre a Maçonaria, uma vigorosa crítica teológica e filosófica à instituição, especialmente às suas relações com o naturalismo, o deísmo e o ateísmo.

Freppel sustenta que a Maçonaria representa uma forma moderna de oposição ao cristianismo, sobretudo por substituir a religião revelada por uma concepção naturalista de Deus, fundamentada exclusivamente na razão humana.

Para o catolicismo, razão e fé não são excludentes. A razão pode reconhecer a existência de Deus, mas não substitui a revelação sobrenatural, cuja plenitude se encontra em Jesus Cristo.

A figura maçônica do Grande Arquiteto do Universo não corresponde necessariamente ao Deus pessoal, trinitário e revelado do cristianismo. Admitir racionalmente um princípio criador não equivale a professar a fé católica.

Freppel vai além. Na segunda parte de sua obra, recorrendo ao pensamento de Bossuet, afirma que “o deísmo não é outra coisa senão um ateísmo disfarçado”.

Sua conclusão é contundente: “Uma lógica implacável deveria impeli-la ao ateísmo, como termo derradeiro de suas negações.”

O bispo argumenta que, ao rejeitar a revelação, os milagres e a intervenção sobrenatural de Deus, o naturalismo deísta enfraquece a própria ideia de divindade. A razão humana, transformada em autoridade suprema, passa a ocupar o lugar reservado a Deus.

Freppel identifica uma manifestação histórica dessa tendência na decisão do Grande Oriente de França, em 1877, de retirar de suas constituições a exigência de reconhecimento da existência de Deus e da imortalidade da alma. Para ele, tratava-se de uma consequência lógica do naturalismo maçônico.

O religioso também rejeita a alegada neutralidade diante da existência de Deus, considerando-a filosoficamente insustentável. Sua afirmação é categórica: “A neutralidade em relação a Deus é uma incredulidade sem franqueza, é a hipocrisia do ateísmo.”

A tese central de Freppel é que o deísmo maçônico, ao afastar a revelação e considerar suficiente a razão humana para determinar a verdade religiosa, contém os fundamentos filosóficos de sua evolução para o ateísmo.

Essa interpretação não significa que todos os maçons sejam pessoalmente ateus. Existem diferentes obediências, inclusive algumas que exigem a crença em Deus. A crítica do bispo dirige-se principalmente aos pressupostos doutrinários que considera incompatíveis com a fé cristã.

A oposição católica também alcança a concepção de Jesus Cristo, reconhecido como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Uma filosofia que coloque todas as religiões em posição doutrinariamente equivalente contraria essa profissão de fé.

Outra divergência reside nos fundamentos da moral. Para a Igreja Católica, a ordem moral está vinculada à lei divina e aos ensinamentos de Cristo. Freppel considera insuficiente uma moral desvinculada da revelação e da ordem sobrenatural.

A educação, a família e a organização política também integram sua argumentação. O bispo associa ao naturalismo maçônico a defesa da educação secular, do casamento civil e da separação entre Igreja e Estado. Essas críticas refletem igualmente o contexto histórico de sua obra e não significam que tais instituições civis sejam, por si mesmas, manifestações de ateísmo.

A condenação histórica da Maçonaria pela Igreja Católica possui, portanto, fundamentos essencialmente doutrinários. Não se limita aos rituais, juramentos, segredos ou à influência política das lojas.

A questão decisiva consiste em saber se a razão humana é autoridade suficiente para estabelecer a verdade religiosa e moral ou se deve reconhecer a revelação divina como fundamento superior.

Sob a perspectiva católica defendida por Freppel, não existe conciliação doutrinária entre a profissão integral da fé revelada e uma filosofia que a subordine à autonomia absoluta da razão.

A questão fundamental não é apenas acreditar na existência de um Grande Arquiteto do Universo, mas reconhecer o Deus revelado em Jesus Cristo e as consequências dessa revelação para a verdade, a moral e a existência humana.

É nesse terreno filosófico e teológico que Freppel identifica, no desenvolvimento do naturalismo maçônico, o caminho que pode conduzir ao ateísmo.

A crítica aos fundamentos de uma instituição não representa hostilidade aos seus integrantes. Respeitar a liberdade de consciência e a dignidade individual de cada maçom é um dever. Reconhecer como compatíveis doutrinas essencialmente divergentes, entretanto, é uma conclusão que a teologia católica não admite.

Convivência pacífica não significa comunhão de princípios.

Coaracy Fonseca.


É Promotor de Justiça e Ex-Procurador-Geral de Justiça de Alagoas