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As parcerias estratégicas da maçonaria: o exemplo do Lions Club
Leituras que tenho feito sobre a Maçonaria desde a sua origem até os dias atuais com o objetivo de esclarecer aos católicos sobre a incompatibilidade de seus preceitos filosóficos e princípios cristãos levaram-me a buscar laços de parceria de suas antigas lojas e entidades ligadas à prestação de serviços e à caridade, além da finalidade da concretização de vínculos sociais sólidos entre pessoas de várias profissões e linhagens familiares.
Advirto que os textos que venho construindo não têm por finalidade o combate aos maçons, tampouco aos ateus, agnósticos ou adeptos de outras linhas de pensamento. O objetivo, partindo das obras legadas pelo Papa Leão XIII, é esclarecer aos católicos, pois tenho sentido que houve uma postura de retraimento da Igreja Católica, no momento histórico em que vivemos, em relação à pregação esclarecedora sobre a incompatibilidade de pertencer à Maçonaria e professar a fé católica.
É questão de princípios e com eles não se transige. Antes do atual Código de Direito Canônico, o pertencimento à Maçonaria era punido com a excomunhão. Hoje, o católico está em pecado grave, sendo-lhe proibida a comunhão; não pode receber o pão de Cristo. Houve um abrandamento, mas não uma permissão de associação à seita secreta. A Igreja concede o perdão aos desviados, por meio da confissão e da penitência.
A influência de uma organização não se manifesta apenas por seus atos formais. Ela também pode ser observada nas relações construídas por seus integrantes, nos ambientes que frequentam, nas entidades com as quais cooperam e nas redes de confiança estabelecidas ao longo do tempo. Em Maceió, a relação histórica entre integrantes da Maçonaria e do Lions Club oferece um campo relevante para esse tipo de análise. Importa trazer à luz que o Clube foi criado por um maçom, Melvin Jones.
É preciso estabelecer, desde o início, um limite factual. Não há documentação suficiente para afirmar que o Lions Clubs International seja uma organização maçônica ou esteja subordinado institucionalmente à Maçonaria. Entretanto, existem registros históricos de pessoas que transitaram pelos dois ambientes e exemplos, em outras localidades brasileiras, de cooperação direta entre entidades leonísticas e maçônicas.
A questão relevante, portanto, não é alimentar teorias conspiratórias. É compreender como associações privadas tradicionais podem compartilhar integrantes, relações e espaços de sociabilidade e de que maneira essas redes se projetam sobre a sociedade.
O Lions possui uma história antiga e expressiva em Maceió. A capital não contou com apenas um Clube. Ao longo de sua história, surgiram diferentes unidades, entre elas Maceió Centro, Maceió Lagoa, Maceió Jatiúca e outras posteriormente constituídas.
A presença leonística tornou-se tão incorporada à paisagem da cidade que Maceió possui a conhecida Praça Lions. Segundo registro da Prefeitura, ela foi inaugurada em fevereiro de 1967, durante a primeira Convenção Distrital L-14 do Lions Internacional realizada na capital alagoana.
Outro episódio demonstra a dimensão alcançada pelo movimento. Em 1969, o Lions Clube Maceió Lagoa patrocinou a criação do primeiro LEO Clube brasileiro. Maceió, portanto, ocupa uma posição histórica relevante dentro do próprio leonismo nacional.
Esses fatos demonstram que o Lions não foi uma organização periférica na sociedade maceioense. Seus clubes reuniram pessoas socialmente atuantes e estabeleceram relações com diferentes segmentos da comunidade. É justamente nesse ambiente que a trajetória de Divaldo Suruagy merece atenção.
Divaldo Suruagy foi uma das personalidades políticas mais importantes da história recente de Alagoas. Exerceu, entre outros cargos, a Prefeitura de Maceió, o governo estadual e mandato no Senado Federal.
Sua trajetória associativa também é relevante para compreender as redes existentes na sociedade alagoana. Há documentação biográfica de sua participação no movimento leonístico. Fontes históricas registram sua atuação no Lions, inclusive como fundador e presidente de clube. Também existem registros de sua participação em iniciativas do Lions realizadas em Maceió.
Mas existe outro elemento particularmente importante: Suruagy também pertenceu à Maçonaria. Registro publicado pela Gazeta de Alagoas identifica sua atuação como orador da Loja Maçônica Virtude e Bondade, em Maceió, e registra que recebeu, em 1969, a Medalha do Mérito Maçônico Dom Pedro I.
Estamos, portanto, diante de uma personalidade de enorme projeção política que circulou simultaneamente por diferentes ambientes de sociabilidade: política institucional, Lions e Maçonaria. Isso não demonstra irregularidade alguma. Também não permite concluir que suas decisões políticas tenham sido determinadas por qualquer dessas organizações.
Mas demonstra concretamente que, em Maceió, as fronteiras sociais entre determinados espaços associativos não eram necessariamente estanques.
É exatamente esse aspecto que merece análise. Lions e Maçonaria são organizações distintas. Possuem histórias, estruturas e finalidades próprias. Contudo, pessoas podem participar simultaneamente de diferentes associações e transportar para cada ambiente relações construídas nos demais.
Esse fenômeno é conhecido na análise das elites e das organizações sociais. Redes não precisam possuir direção centralizada para produzir efeitos. Elas funcionam também pela confiança acumulada entre seus integrantes.
Uma pessoa conhece outra em uma associação profissional. Reencontra-a em um clube de serviço. Outra participa de uma entidade empresarial. Outra pertence a uma organização maçônica. Com o passar dos anos, forma-se uma extensa teia de relacionamentos.
Não existe necessariamente ilegalidade nisso. O problema surge quando a existência dessas relações é simplesmente negada ou quando se pretende tornar ilegítima qualquer investigação sobre elas. Os registros encontrados em outras regiões brasileiras demonstram que aproximações entre Lions e organizações maçônicas efetivamente aconteceram.
Existem registros semelhantes de atividades conjuntas em municípios paulistas e mineiros. Esses episódios não autorizam concluir que todos os clubes Lions mantenham relações dessa natureza. Muito menos demonstram que exista uma cadeia nacional de comando entre as duas organizações.
Mas eliminam uma objeção importante: a aproximação entre Lions e Maçonaria não é uma hipótese impossível ou puramente imaginária. Há casos documentados em que ela efetivamente ocorreu.
Sabemos que Maceió possuía diversos Lions Clubes. Sabemos que a cidade possui longa tradição maçônica. Sabemos também que uma personalidade da dimensão de Divaldo Suruagy transitou pelos dois universos. Ainda falta, entretanto, realizar um levantamento histórico sistemático dos quadros dirigentes dessas organizações.
Quem presidiu os diferentes Lions Clubes de Maceió ao longo das décadas? Quem integrava suas diretorias? Quantos desses nomes aparecem também nos registros das lojas maçônicas alagoanas?
Atas, boletins, jornais, registros de diretorias, publicações comemorativas e arquivos das próprias instituições poderiam revelar, com muito mais precisão, a dimensão dessa interseção. Há quem interprete qualquer investigação sobre organizações discretas como tentativa de perseguição. Essa reação é equivocada.
Ninguém deve ser constrangido simplesmente por participar do Lions, da Maçonaria, do Rotary, de uma associação empresarial, entidade religiosa ou organização profissional. A liberdade de associação é uma garantia democrática.
Mas a democracia protege igualmente o direito da sociedade de estudar como se estruturam suas elites e redes de influência, especialmente quando integrantes dessas redes exercem funções públicas relevantes.
Pertencer simultaneamente a duas organizações não demonstra favorecimento. Conhecer alguém dentro de uma associação não demonstra conspiração. Uma fotografia conjunta não demonstra atuação coordenada.
Por outro lado, relações documentadas também não devem ser apagadas ou tratadas automaticamente como irrelevantes.
O caso de Suruagy oferece um exemplo particularmente interessante porque reúne três dimensões: poder político, participação leonística e vinculação maçônica documentada. Isso não autoriza qualquer acusação contra sua trajetória.
Autoriza uma pergunta histórica legítima: qual era a extensão da sobreposição entre as redes leonísticas, maçônicas, profissionais e políticas que participaram da formação das elites de Maceió nas últimas décadas?
Presidentes e diretores de clubes, dirigentes maçônicos, empresários, profissionais liberais e agentes públicos precisam ser analisados cronologicamente. Somente então será possível distinguir coincidências individuais de padrões associativos recorrentes.
Tal investigação seria útil não apenas para compreender o Lions ou a Maçonaria. Ajudaria a compreender a própria estrutura social e política de Maceió.
Porque o poder institucional é visível: possui cargos, competências e documentos públicos. O poder das relações é diferente. Ele se constrói pela convivência, pela confiança e pela capacidade de aproximar pessoas. Estudar essas relações não significa condená-las. Significa torná-las compreensíveis.
No caso de Maceió, a documentação já disponível mostra que Lions, Maçonaria e vida pública não constituíram necessariamente universos humanos completamente separados. A trajetória de Divaldo Suruagy é um exemplo concreto dessa interseção.
Quanto mais completas forem as listas históricas de associados, dirigentes e parceiros dessas organizações, menor será o espaço para especulações e maior será a possibilidade de compreender, com precisão, como essas redes se formaram e qual foi sua verdadeira influência na sociedade alagoana.
Coaracy Fonseca
É Promotor de Justiça e Ex-Procurador-Geral de Justiça de Alagoas
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