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Não é a matemática que afasta os alunos, é a forma como ela é ensinada

Victor Hill 06/03/2026
Não é a matemática que afasta os alunos, é a forma como ela é ensinada
Victor Hill

A rejeição à matemática entre muitos estudantes brasileiros não nasce com eles. Ela é construída, aula após aula, quando o ensino se apresenta como um território de fórmulas a decorar, respostas certas a alcançar e erros a evitar. Ao longo desse processo, muitos alunos deixam de enxergá-la como uma linguagem para compreender o mundo e passam a percebê-la como um obstáculo intransponível. Essa aversão não é inevitável. É resultado de escolhas pedagógicas que priorizam a memorização em detrimento da compreensão, e pode ser revertida quando a disciplina é vivenciada como ferramenta de pensamento, criação e autonomia.

Os dados ajudam a dimensionar o tamanho do problema. No Pisa 2022, avaliação internacional conduzida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançaram o nível mínimo de proficiência em matemática, considerado aquele em que o aluno consegue aplicar conceitos básicos em situações do cotidiano. Na média dos países da OCDE, esse percentual é de aproximadamente 69%. O Brasil obteve média de 379 pontos em matemática, muito abaixo da média da OCDE, que foi de 472 pontos. Apenas 1% dos estudantes brasileiros atingiu os níveis mais altos de desempenho, contra cerca de 9% na média dos países avaliados. Esses números não falam apenas de dificuldades técnicas. Eles revelam um sistema que, majoritariamente, não conseguiu construir sentido para o aprendizado matemático.

Esse distanciamento se manifesta também no campo emocional. O relatório Pisa 2022 Results Volume V, da OCDE, mostra que cerca de 65% dos estudantes nos países membros se preocupam em tirar notas baixas em matemática e aproximadamente 40% relatam sentir-se nervosos ou ansiosos ao resolver problemas. No Brasil, os percentuais são ainda maiores. Reportagens baseadas no mesmo relatório indicam que quase 80% dos estudantes brasileiros ficam ansiosos em relação ao desempenho na matéria e mais de 60% se sentem inseguros ao lidar com exercícios. Quando uma disciplina se associa tão fortemente a medo e tensão, não surpreende que tantos jovens se afastem dela.

Romper esse ciclo exige mudar a experiência em sala de aula. A superação dessa realidade passa por práticas pedagógicas que rompam com o discurso expositivo e a memorização. Metodologias ativas de aprendizagem, que envolvem os estudantes em tarefas colaborativas, problematizações e desafios, estão alinhadas, inclusive, às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que defende o desenvolvimento do pensamento crítico, da resolução de problemas e da autonomia intelectual. Também dialogam com relatórios da UNESCO sobre o futuro da educação, que apontam a necessidade de experiências de aprendizagem mais significativas, centradas no estudante e conectadas a situações reais. Pesquisas educacionais mostram que abordagens baseadas em resolução de problemas, aprendizagem entre pares e projetos tendem a aumentar engajamento, participação e atitudes positivas em relação à matemática.

Nesse contexto, iniciativas como olimpíadas de matemática e desafios de raciocínio lógico cumprem um papel estratégico. A Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), por exemplo, reúne mais de 57 mil escolas e alcança praticamente todos os municípios do país, envolvendo milhões de estudantes todos os anos. Esses ambientes apresentam a matemática como jogo intelectual, investigação e descoberta, e não apenas como lista de exercícios. Ainda que não sejam solução única, ajudam a criar uma cultura em que pensar é mais valorizado do que decorar.

É compreensível pensar que transformar esse cenário se torna inviável em um sistema educacional marcado por desigualdades e falta de recursos. Contudo, esse pensamento ignora que manter o modelo atual é, na prática, aceitar a perpetuação do fracasso. Embora os dados do Pisa 2022 sejam hoje a base mais recente para comparações internacionais amplas, especialistas em educação alertam que os esforços de recomposição de aprendizagem no período pós-pandemia ainda lutam para mover esses ponteiros de forma consistente, sobretudo em matemática, área altamente sensível a lacunas acumuladas ao longo do tempo. Em 2026, isso reforça a urgência de repensar métodos, não de repetir fórmulas pedagógicas que já se mostraram insuficientes.

Ressignificar a relação dos estudantes com a matemática não é torná-la mais fácil, mas torná-la mais humana. Significa aceitar o erro como parte do processo, valorizar perguntas tanto quanto respostas e apresentar a disciplina como instrumento para compreender e transformar a realidade. Quando isso acontece, a matemática deixa de ser inimiga e passa a ser linguagem de autonomia. O problema nunca foram os números. O problema é a forma como ensinamos a conviver com eles.

*Victor Hill é presidente e fundador da Associação Cactus, organização dedicada à promoção de olimpíadas educacionais, aprendizagem matemática e desenvolvimento do raciocínio lógico em escolas públicas.