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Procura-se 'cheiro' de ar puro nas grandes cidades

Francisco Carlos Oliver 04/03/2026
Procura-se 'cheiro' de ar puro nas grandes cidades
Engº Francisco Carlos Oliver

A superfície urbana de São Paulo tem uma dimensão impressionantemente vasta. Dentro dela, vias a singram por todas as direções. Nas artérias fluviais de maior calibre está o Rio Pinheiros, uma ex-hidrovia que lamentavelmente pereceu há décadas por causa da poluição. Ao longo de sua extensão, o fantasma malcheiroso passeia com frequência assombrando vários trechos às suas margens. Passageiros e motoristas que percorrem a marginal do Pinheiros invariavelmente vão inalar esse odor em algum momento o qual sempre deixará lembranças ruins.  

Como é uma via expressa importante para a mobilidade paulistana, milhares de pessoas circulam por ali, inclusive tem sido a rota para dois dos maiores aeroportos paulistanos, Congonhas e Guarulhos. O que torna o problema mais intenso é que um vasto número de visitantes, muitos deles turistas ou executivos estrangeiros, pode levar para casa essa cena repulsiva da célebre metrópole brasileira: a imagem de um percurso marcado pelo mau cheiro. Pensei também nas visitas do Beatle, Paul McCartney, e do ator e ex-governador, Arnold Schwarzenegger, que foram pedalar no Parque do Povo, bem ao lado do rio Pinheiros. Será que eles sentiram o desprazer dessa experiência? Espero que não, mas tudo isso vai mudar em breve ao nosso ver.

Uma boa notícia é que tem havido mais interesse do poder público em dissipar para sempre essa situação desagradável. No Brasil, o controle do odor desagradável continua sendo desafiador para todos. Por causa do incômodo existe até uma legislação específica (Resolução Conama 382/2006 e atualizações em 2024). No entanto, a gestão é ainda restrita e somente uma parcela dos estados monitora de maneira eficaz a qualidade do ar. A partir de 2025, entraram em vigor limites de poluição mais alinhados aos padrões da OMS (o Brasil, porém, ainda está cerca de 40 anos atrasado em relação às metas da organização).  Atualmente, o conjunto de leis que regulam a matéria deve intensificar a luta contra a poluição olfativa, que, por sinal, pouca gente costuma comentar.

O crescimento da promulgação de leis ambientais, evolução na tecnologia e principalmente maior demanda da sociedade por qualidade de vida e saneamento demonstra que o tema tende a se tornar mais importante, com a utilização de soluções sustentáveis, como os lavadores de odores e sistemas biológicos de tratamento, que estão apresentando mais destaque no âmbito industrial e do saneamento básico.

A Resolução CONAMA nº 491/2018, por exemplo, estabelece parâmetros de qualidade do ar para substâncias associadas a odores desagradáveis. Além do mais, vários estados e municípios têm criado ou ampliado as próprias legislações.  Em São Paulo as leis estaduais permitem que órgãos ambientais determinem a criação de planos e controles específicos de emissões atmosféricas, incluindo compostos odoríferos.

Ao que consta, no entanto, é que até o momento no âmbito federal não há uma lei específica para ‘controle de odores’. A Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938/1981) trata de forma indireta desse assunto, uma vez que ela dá mais atenção às normas ambientais mais amplas, aquelas que evitam grandes impactos ao ambiente e à saúde.   

Se comparado com o odor industrial com outras questões de saneamento o tema é mais ou menos novo no Brasil. Ele ficou mais perceptível nos últimos anos principalmente com o aumento da atenção das pessoas à conscientização ambiental. O meio ambiente, desde então, passou a ser uma pauta em evidência tanto na mídia como nas conversas do dia a dia.

Na gestão da poluição do ar, o controle de odores é entendido como um dos elementos mais complicados, principalmente pela sua natureza subjetiva e sensorial, o que dificulta a sua conceituação legal e seu padrão de medição. Como resultado, muitas ações de fiscalização atualmente são feitas por sistemas de denúncia da população, mas que poderiam se fundamentar melhor com as medições instrumentais, olfatometria dinâmica e modelagens atmosféricas.

Mesmo compostos odoríferos com pequenas concentrações podem criar grande incômodo aos vizinhos próximos de indústrias, por essa razão, quando isso acontece, é preciso geralmente soluções mais rigorosas das fábricas com seus efluentes gasosos.

Nos próximos anos, a indústria que desenvolve sistemas de controle de odor deve se expandir, motivado por novas políticas ambientais, crescimento da infraestrutura de saneamento e maior conhecimento das pessoas sobre a qualidade do ar. Os cidadãos tendem a ser mais observadores e ‘ácidos’ na questão do bem-estar. Sem falar que os padrões da ESG – Environmental, Social, and Governance (Ambiental, Social e Governança) se tornaram, pelo bem do planeta, uma obrigação não descartável de todas as indústrias.

Definitivamente, o mau cheiro (bromidrose) industrial deixou de ser apenas um incômodo pontual para se tornar um problema coletivo, ambiental e de saúde pública. Os lavadores de odores vieram para ajudar no controle de odor ambiental. A bem da verdade, o mau cheiro em lugares como indústrias e estações de tratamento de esgoto não é apenas desagradável. Originado em substâncias prejudiciais e elementos contaminantes, esses efluentes podem até causar sérios danos à saúde das pessoas.

O problema também pode afetar significativamente a fauna e a flora locais. Por essa razão, ações de controle de odor são fundamentais para prevenir esse tipo de risco. Hoje em dia, as tecnologias de lavagem e exaustão de gases são as mais recomendadas. Os novos equipamentos foram desenvolvidos especificamente para o problema e capturam o ar contaminado e malcheiroso, neutralizando suas partículas poluentes. Como resultado, eles retornam à atmosfera completamente limpos.

É importante entender que o controle de odores é uma prática essencial dentro da indústria, como também no próprio meio ambiente onde houver esse desequilíbrio. Contudo, cada segmento precisa ser planejado por suas diferentes necessidades e conforme sua demanda vai adotar o recurso mais apropriado, isto é, máquinas, equipamentos e soluções que impeçam a disseminação do mau cheiro.

Há vários sistemas projetados especificamente para solucionar esse problema. Eles operam com tecnologias de exaustão, conectadas a lavadores de gases. Dessa forma, o ar poluído é tratado de maneira rápida e eficiente. Todos os problemas e as respectivas soluções deixam claro que respirar melhor não é um luxo, é acima de tudo um direito do cidadão.

*Engº Francisco Carlos Oliver é diretor técnico industrial da Fluid Feeder Indústria e Comércio Ltda., especializada em tratamento de água e de efluentes por meio de soluções personalizadas. www.fluidfeeder.com.br