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Quando a motivação tem rosto: o que uma professora de Luanda nos ensina sobre educação
Em meio a tantos debates sobre políticas públicas, reformas curriculares e modelos de gestão escolar, uma cena simples vinda de Luanda, em Angola, nos obriga a voltar ao essencial. Alunos que cantam, sorriem e celebram a chegada de sua professora. Não porque foram obrigados. Não porque há um protocolo a cumprir, mas porque querem.
A educadora Isabel Zua — carinhosamente chamada de “Pim Pim” por seus alunos — tornou-se conhecida nas redes sociais justamente por esse momento: ao entrar na sala, é recebida com entusiasmo genuíno. Pode parecer apenas um vídeo viral. Mas é mais do que isso. É uma aula pública sobre motivação.
Há décadas, a psicologia educacional explica o que aquela cena revela na prática. Albert Bandura demonstrou que estudantes aprendem melhor quando acreditam em sua própria capacidade. Essa crença — a autoeficácia — não surge do nada. Ela é construída em ambientes onde o erro não humilha, o esforço é reconhecido e o professor transmite confiança real nas possibilidades do aluno. Quando uma turma recebe a professora com alegria, há um indicativo claro: ali existe vínculo. E vínculo fortalece a percepção de competência.
O que chama atenção no caso da professora angolana não é apenas o entusiasmo dos alunos, mas o que ele simboliza: a presença docente que mobiliza, que inspira, que cria pertencimento. Não se trata de espetáculo. Trata-se de coerência entre postura pedagógica e compromisso humano.
Enquanto isso, no Brasil — e de forma marcante no Paraná — cresce o modelo das escolas cívico-militares. A proposta enfatiza disciplina, organização, uniformização de condutas. Defensores argumentam que a presença de militares da reserva contribui para melhorar o ambiente escolar, e o número de unidades no estado tem aumentado significativamente nos últimos anos.
Não se trata aqui de negar a importância da organização. Toda escola precisa de regras claras e ambiente estruturado. O ponto central é outro: disciplina externa não é sinônimo de motivação interna. Crianças bem penteadas, em fila, fazendo posição de sentido, podem compor uma imagem de ordem. Mas imagem não é aprendizagem. Postura corporal não garante curiosidade intelectual. Silêncio não significa engajamento. Obediência não é sinônimo de compreensão.
A professora de Luanda nos lembra que educação não se sustenta na aparência, mas na relação. Seus alunos não demonstram entusiasmo porque cumprem uma regra; demonstram porque existe conexão. E a conexão é pedagógica.
O contraste entre esses dois cenários nos provoca a refletir: que tipo de escola queremos? Uma escola que forma sujeitos autônomos, capazes de pensar criticamente e aprender com sentido? Ou uma escola que prioriza conformidade visível como indicador de qualidade?
Educação de verdade não pode ser apenas fachada disciplinar. Precisa ser experiência significativa. Precisa cultivar o desejo de aprender. Precisa fazer com que o estudante queira estar ali.
A cena em Luanda nos mostra que isso é possível — mesmo em contextos desafiadores. Não é uma questão de infraestrutura sofisticada ou de aparato hierárquico. É uma questão de postura pedagógica. De coerência entre discurso e prática. De compromisso com o desenvolvimento humano integral.
Temos abundância de teorias sobre motivação. Temos debates acalorados sobre disciplina. O que a professora Isabel Zua nos oferece é algo mais simples — e mais difícil: a prova de que motivação não se decreta. Constrói-se, todos os dias, dentro da sala de aula.
E nenhuma política educacional será verdadeiramente transformadora se esquecer esse ponto fundamental.
*Valentina Daldegan é doutora em Educação pela Universidade de Bologna, doutora em Música pela Universidade Federal do Paraná e coordenadora dos cursos de pós-graduação em Educação na UNINTER.
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