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A moeda chinesa como reserva global

Fernanda Brandão 25/02/2026
A moeda chinesa como reserva global
Fernanda Brandão - Foto: Divulgação

O sistema financeiro internacional hoje é liderado pelo dólar americano, como resultado da dominância econômica do país e seu sistema financeiro, contribuindo para a manutenção dessa preponderância econômica dos Estados Unidos no cenário global.

Moedas internacionalizadas são aquelas altamente demandadas por atores domésticos e externos, público e privados, para exercer funções como reserva de valor, unidade de conta e meio de transação. Hoje, a maior parte das reservas internacionais dos países são mantidas em dólar, que é a moeda utilizada na precificação dos bens no comércio internacional e a principal referência em transações internacionais

Ser o país emissor da principal moeda da economia internacional traz vantagens como autonomia monetária e direitos de senhoriagem, uma renda resultante da diferença entre o valor de produção da moeda e seu valor de mercado. Em contrapartida, os demais países se tornam menos autônomos em termos de política monetária e atuam de forma responsiva ao que é decidido pelo Federal Reserve, o Banco Central americano.

A crise financeira ocorrida entre 2008 e 2009 mostrou os dilemas e vulnerabilidades que essa dependência em relação ao dólar cria para os países, sobretudo para aqueles em desenvolvimento. Com origem no mercado financeiro americano, o episódio contaminou rapidamente os países cujas instituições tinham grandes investimentos nos títulos que causaram a crise.

Os países em desenvolvimento, contudo, não foram imediatamente afetados pelo episódio de instabilidade financeira graças à pouca exposição de seus mercados a esses ativos. A crise chegou nesses locais através do dólar, consequência das políticas monetárias adotadas pelo governo americano para contê-la. A dependência em relação à moeda americana tornou esses países vulneráveis aos seus efeito

Desde então, o governo chinês passou a atuar de forma mais proativa, revelando a intenção de promover a internacionalização da sua moeda nacional, o Renminbi. Seu principal objetivo, até então, era reduzir a dependência do dólar como forma de proteger a continuidade do desenvolvimento econômico chinês, que é uma das principais preocupações de Pequim e fator determinante da estabilidade social no país. Medidas como acordos de swap cambial, aumento do comércio feito utilizando moedas nacionais ao invés do dólar, emissão de títulos em Renminbi, estão entre as políticas adotadas.

Além disso, a China desenvolveu seu próprio mecanismo para processamento de transações financeiras, o CIPS, que concorre com o SWIFT, método dominante na economia global, mas, que, apesar de ser uma empresa privada, já foi utilizado como forma de impor sanções econômicas, seguindo determinação dos Estados Unidos. Rússia e Irã já foram suspensos do SWIFT como parte das sanções econômicas impostas.

Um artigo recente publicado pelo presidente chinês Xi Jinping apontou para o desejo do governo em tornar o Renminbi uma moeda de reserva global. A declaração chamou atenção pela mudança do tom de Pequim quanto às ambições em relação à internacionalização da sua moeda nacional. Até então, o discurso sempre apontou para uma maior diversificação de moedas utilizadas no cenário internacional, sem buscar para si o papel que o dólar exerce nesse contexto.
 

O dólar é a principal moeda de reserva global, e buscar fortalecer o papel do Renminbi nessa função foi entendido como uma sinalização da disposição chinesa de competir pelo lugar de dominância global para sua moeda. Para realizar esse feito, o país precisa de uma moeda forte, internacionalmente confiável e demandada pelos agentes econômicos, mas a economia do país ainda possui muitas limitações que impedem a expansão do uso internacional da sua moeda, como o forte controle de capitais e a manutenção do câmbio desvalorizado para favorecimento de exportações. As mudanças necessárias envolvem uma maior abertura do mercado de capitais chinês, algo postergado pelo governo pelo potencial de desestabilização da sua economia e da continuidade do seu desenvolvimento econômico.


Contudo, essa mudança na ambição chinesa e sua divulgação pública acontece em um momento em que os Estados Unidos têm sido vistos como um parceiro econômico não confiável diante da política comercial do governo Trump e da desvalorização do dólar.
 

Nesse cenário, a China tem buscado fortalecer sua confiança, comprometida com as negociações multilaterais e com a liberalização do comércio internacional. Em 2025, o gigante asiático zerou, unilateralmente, as tarifas de importação sobre produtos de países menos desenvolvidos.
 

A sinalização de Pequim sobre a ambição de fazer do Renminbi uma moeda de reserva mostra mais uma nuance da competição pela preponderância global entre China e Estados Unidos.