Alagoas
Imprensa independente ocupa Jaraguá e denuncia pressão judicial contra jornalistas
Casa de Mãinha, em Jaraguá, recebeu dezenas de jornalistas, políticos, empresários e simpatizantes em manifestação contra a judicialização da atividade jornalística; Arísia Barros, João Mozinho e Cícero Filho fizeram contundentes defesas da liberdade de expressão
Dezenas de jornalistas, comunicadores, políticos, empresários e simpatizantes da causa da liberdade de expressão se reuniram na manhã desta terça-feira (29), na Casa de Mãinha, no bairro de Jaraguá, em Maceió, em um ato político de protesto contra o que os participantes classificam como assédio judicial contra a imprensa alagoana.
O movimento reuniu profissionais de diferentes veículos em solidariedade aos jornalistas e comunicadores que respondem a processos relacionados à cobertura política e eleitoral em Alagoas.
No centro das manifestações esteve a sucessão de ações judiciais envolvendo o candidato ao Governo de Alagoas João Henrique Caldas, o JHC (PSDB), sua federação e coligação contra jornalistas, veículos de comunicação e produtores de conteúdo.
Durante o encontro, os números dos processos dividiram espaço com depoimentos de profissionais que falaram sobre os efeitos da judicialização no exercício cotidiano do jornalismo.
Arísia Barros: “Escrever é formar ecos”
Uma das manifestações mais simbólicas foi da jornalista Arísia Barros, que buscou na própria história de Alagoas uma referência para defender a liberdade de expressão.
“A gente está em Alagoas, Alagoas que tem essa simbologia dos Palmares, da liberdade”, afirmou.
Arísia, que desenvolve seu trabalho também a partir das questões relacionadas à mulher negra e à construção de espaços de comunicação, contou que receber processos judiciais em razão de sua atuação provocou uma sensação que definiu como de “asfixia”.
“Para mim, receber processos foi uma coisa estranhíssima, porque a gente trabalha muito no lugar de fala da mulher negra, buscando estabelecer bases de comunicação. E, quando a sua fala é reprimida, porque é uma repressão, a sensação é de asfixia”, declarou.
Foi nesse ponto que a jornalista pronunciou uma das frases mais marcantes do encontro:
“Escrever é formar ecos. E formar ecos é trazer consciências. É isso que a gente faz.”
Para Arísia, impedir que ideias circulem significa atingir não somente quem escreve, mas também aqueles que poderiam ter acesso à informação e formar sua própria opinião.
“Cortar ideias é fazer com que a palavra não tenha o eco necessário”, afirmou.
A jornalista também chamou atenção para aquilo que considera um “sufocamento da palavra”.
Segundo ela, os conteúdos questionados judicialmente tratam de acontecimentos políticos e informações de interesse público.
“Quando se corta tudo isso, e é um processo desnecessário, porque a gente não disse nada demais, é complicado. O sufocamento da palavra faz com que muitas pessoas continuem nessa caminhada de não ver, não ouvir”, declarou.
A referência a Palmares, feita por Arísia, ganhou significado especial no encontro: em um Estado cuja história está profundamente ligada a um dos maiores símbolos brasileiros de resistência e liberdade, jornalistas se reuniam justamente para defender o direito de continuar falando, escrevendo e fiscalizando o poder.
João Mozinho: “Um atentado democrático”
O jornalista João Mozinho classificou a situação enfrentada pelos profissionais como uma ameaça à própria democracia.
“É um atentado democrático. A liberdade de imprensa, de expressão, está prevista na Constituição brasileira e parece que não está sendo cumprida para atender aqueles que são apontados ou criticados”, afirmou.
Mozinho ressaltou que políticos e agentes públicos possuem instrumentos para contestar uma reportagem ou opinião que considerem equivocada, mas defendeu que o contraditório não seja substituído por uma sucessão de processos com potencial de intimidação.
“É preciso contraditório, é preciso que a população entenda o que está acontecendo de fato na sociedade. Se não concordar, apresente defesa”, declarou.
O jornalista chamou atenção ainda para um aspecto que preocupa especialmente profissionais independentes e pequenos veículos: o custo financeiro de responder a múltiplas ações simultaneamente.
Para Mozinho, atingir financeiramente comunicadores pode produzir efeito intimidatório e comprometer o exercício profissional.
“Principalmente lesando também aqueles comunicadores pelo lado financeiro, de uma forma intimidatória, o que não pode acontecer”, afirmou.
Cícero Filho: “Estamos falando de fatos e provas”
O jornalista e delegado do Trabalho Cícero Filho também participou do ato e concentrou sua manifestação na natureza das informações que vêm sendo questionadas judicialmente.
“O que está sendo questionado são notícias, são fatos. E expostos são provas. Essa é a grande questão”, declarou.
Cícero ressaltou que, na avaliação dos profissionais presentes, não se trata da defesa de desinformação ou da publicação deliberada de informações falsas.
“Não estamos falando de fake news, não estamos falando de mentira”, disse.
Para ele, quem discordar de determinada reportagem deve ter assegurado o direito de contestá-la e apresentar sua versão.
“É sempre dado a quem não concordar o direito de se posicionar. Demonstre que aquilo ali tem outro posicionamento”, afirmou.
Mas Cícero fez uma ressalva contundente:
“O que não pode é, em virtude de uma notícia com base em provas, você silenciar através de ação judicial. Aí é complicado.”
A afirmação representa a avaliação do jornalista. A fundamentação de cada publicação e a eventual existência de excessos são questões analisadas individualmente nos respectivos processos.
Um ato que ultrapassou as redações
A manifestação na Casa de Mãinha não ficou restrita aos profissionais da imprensa.
A presença de políticos, empresários, jornalistas, comunicadores e simpatizantes ampliou o caráter do encontro, transformando-o em um ato público de solidariedade aos profissionais processados e de defesa da liberdade de imprensa.
Embora os participantes tenham diferentes posições políticas e ideológicas, a convergência manifestada durante o encontro esteve na defesa do direito de jornalistas investigarem, noticiarem, opinarem e criticarem fatos envolvendo agentes públicos e candidatos.
Também foi defendido o direito de resposta e de contestação daqueles que se considerem atingidos por uma publicação.
A preocupação expressada no encontro é outra: quando o volume e o custo das ações judiciais deixam de representar apenas o exercício individual do direito de recorrer à Justiça e passam, na avaliação dos profissionais atingidos, a produzir um efeito de intimidação sobre quem publica.
Processos no centro do debate
O movimento acontece em meio à multiplicação de ações judiciais relacionadas à cobertura da gestão de JHC na Prefeitura de Maceió e, mais recentemente, à campanha eleitoral.
JHC, sua federação e sua coligação sustentam nas diferentes demandas que determinados conteúdos extrapolaram os limites da crítica, divulgaram informações que consideram falsas ou atingiram sua honra e imagem.
Do outro lado, jornalistas e veículos argumentam que estão publicando informações de interesse público, sustentadas por documentos, decisões judiciais e investigações oficiais, e que o volume de ações pode produzir um efeito inibidor sobre o trabalho da imprensa.
Foi justamente essa tensão que levou profissionais que normalmente trabalham em redações diferentes — e muitas vezes possuem visões políticas distintas — a sentarem juntos na manhã desta terça-feira.
“A palavra precisa ter eco”
Ao final do encontro, a reflexão de Arísia Barros acabou sintetizando boa parte do espírito da manifestação.
“Escrever é formar ecos. E formar ecos é trazer consciências.”
A frase ajuda a explicar por que o ato realizado em Jaraguá extrapolou a situação individual dos profissionais processados.
Para os participantes, a liberdade de imprensa não pertence exclusivamente aos jornalistas. Ela existe para assegurar à sociedade o acesso a informações, críticas, opiniões e diferentes interpretações sobre aqueles que exercem ou pretendem exercer o poder.
Em Alagoas, terra de Palmares, a referência histórica utilizada por Arísia Barros deu um significado particular à mobilização desta terça-feira.
A mensagem que saiu da Casa de Mãinha foi a de que a palavra não pode ser sufocada pelo medo.
Porque, quando um jornalista deixa de publicar uma informação de interesse público por receio das consequências de fazê-lo, o silêncio não atinge apenas quem escreve.
Impede também que a palavra encontre seu eco na sociedade.
Mais lidas
-
1MÚSICA
Joelson dos Oito Baixos leva o forró pé-de-serra ao Giro das Tradições nesta terça-feira (22)
-
2SEGURANÇA PÚBLICA
Homem apontado como integrante de 'Equipe Caos' do CV no Morro do Fubá morre em confronto com PMs
-
3CULTURA
Rick e Renner: dupla que atravessou quatro décadas e teve separações e polêmicas ao longo da carreira
-
4CULTURA
Cantor Rick, da dupla com Renner, ostenta mansões nos Estados Unidos e interior de São Paulo; conheça
-
5INCLUSÃO DIGITAL
Ministério das Comunicações autoriza novos canais de TV aberta em dois municípios de Alagoas