Alagoas

Palmeira dos Índios não foi destruída pelas chuvas, mas pelas “Águas do Sertão”

Intervenções da empresa de saneamento abriram ruas, rasgaram asfaltos e deixaram a malha urbana da cidade em situação crítica

Redação 06/03/2026
Palmeira dos Índios não foi destruída pelas chuvas, mas pelas “Águas do Sertão”
Rua destruída após intervenções da rede de saneamento expõe o impacto das obras da Águas do Sertão na malha urbana de Palmeira dos Índios - Foto: Igor Barros

PALMEIRA DOS ÍNDIOS (AL) — Não foi um temporal devastador. Não houve enchente histórica. Tampouco a força da natureza foi responsável pelo cenário que hoje marca grande parte das ruas de Palmeira dos Índios. O que tem transformado a malha urbana da cidade em um mosaico de buracos, crateras e vias danificadas são as obras realizadas pela concessionária Águas do Sertão, empresa responsável pelo sistema de saneamento básico no município.
Instalada na cidade durante a gestão do ex-prefeito Júlio Cezar, a empresa assumiu a concessão do serviço de esgotamento sanitário em um contrato que girou em torno de R$ 100 milhões. O objetivo anunciado era modernizar o sistema de saneamento e ampliar a infraestrutura urbana. Na prática, no entanto, os serviços executados abriram extensas frentes de escavação em diversas ruas da cidade, deixando para trás uma série de problemas estruturais que ainda não foram plenamente resolvidos.
Até hoje, segundo críticos da concessão, também não houve uma prestação de contas detalhada à população sobre a aplicação dos recursos obtidos com o processo de concessão do serviço.

Cidade com aparência de pós-guerra


Para quem percorre os bairros da cidade, a impressão visual é impactante. Ruas abertas, asfaltos arrancados, remendos improvisados e buracos profundos passaram a fazer parte do cotidiano urbano.
Palmeira dos Índios não está em guerra. Não é o Irã, não é o Iraque, nem tampouco uma cidade sob bombardeio. Ainda assim, a paisagem urbana, em vários trechos, lembra cenários de cidades que passaram por conflitos ou catástrofes.
Em algumas vias, o asfalto simplesmente desapareceu após as intervenções para instalação de tubulações. Em outras, os reparos executados não resistiram ao tráfego diário, abrindo novamente crateras no pavimento. Há ainda bairros inteiros onde a mobilidade urbana ficou comprometida por meses.

Prejuízos para moradores e comércio


O impacto das obras vai além do aspecto visual. Comerciantes relatam queda nas vendas devido à dificuldade de acesso às lojas. Motoristas enfrentam prejuízos com danos mecânicos causados por buracos e desníveis nas ruas. Moradores convivem diariamente com poeira, lama e riscos à segurança no trânsito.
Além disso, motociclistas e ciclistas apontam o aumento do risco de acidentes em trechos onde o pavimento foi removido ou reconstruído de forma irregular.
Para muitos moradores, a promessa de modernização do saneamento acabou se transformando em um problema urbano de grandes proporções.

Debate sobre responsabilidades


A situação tem alimentado críticas e debates na cidade sobre a responsabilidade da concessionária e também sobre a forma como o contrato de concessão foi conduzido.
Enquanto a empresa sustenta que as obras fazem parte de um processo necessário para a ampliação da rede de esgotamento sanitário — considerado essencial para a saúde pública — moradores e lideranças locais cobram maior rapidez na recomposição das vias e mais transparência sobre os investimentos realizados.
Entre os questionamentos mais recorrentes está justamente o destino dos cerca de R$ 100 milhões relacionados à concessão do serviço de saneamento.

Esperança de recuperação


Apesar do cenário crítico em vários bairros, cresce a expectativa de que novas obras de recomposição urbana sejam realizadas para recuperar a malha viária da cidade.
Para os moradores de Palmeira dos Índios, a esperança é que a modernização do saneamento — necessária e esperada — não continue deixando como legado ruas destruídas e prejuízos à mobilidade urbana.
A cidade, que já enfrentou desafios históricos ao longo de sua trajetória, espera agora reconstruir suas vias e recuperar a normalidade de seu cotidiano urbano.