Alagoas
Aula inaugural da pós em História reafirma compromisso com a inclusão
Semana de acolhimento destaca crescimento do programa e promove debate sobre políticas afirmativas e diversidade na historiografia
Nesta quarta-feira (04), o auditório do Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes (Ichca) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) estava lotado para o início da Semana de Recepção das Novas Turmas do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH), que segue com atividades até quinta-feira (5). Um momento ímpar que simbolizou mais um passo na trajetória acadêmica dos novos estudantes.
Na abertura da programação, estiveram presentes o reitor da Ufal, Josealdo Tonholo; o coordenador geral das pós-graduações (Propep), Walter Marias; o assessor científico de Pesquisas e Tecnologias da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), Daniel Carvalho, a representante dos discentes do PPGH, Petra Costa; a vice-coordenadora do PPGH, Ana Cláudia Aymoré, e o coordenador Elias Veras.
O reitor da universidade reforçou a importância do constante crescimento do programa na universidade e que é graças ao empenho de pesquisadores e acadêmicos, tanto egressos como os que estão chegando agora, que a educação é um vetor de transformação.
“A gente tem uma Universidade que é a maior responsável pelo desenvolvimento do Estado, e essa fala não é uma fala vazia, não é retórica, ela é uma fala que é sustentada pelo poder de transformação que a gente presta todo dia na nossa comunidade. Pelo poder de transformação que só a educação de qualidade pode prover. E quero desejar àqueles que estão chegando aqui para a Universidade Federal de Alagoas neste momento, alunos de mestrado e doutorado, que possam exercer aqui o extremo das suas energias para continuar fazendo essa transformação que só a gente vai fazer com muita educação”, destacou.
A estudante Laila Talita é uma das novas participantes do programa. Graduada em História pela Ufal, ela contou que no curso desenvolveu sua linha de pesquisa estudando relações de poder, conflitos e movimentos sociais. Agora, ela entra no programa para dar espaço ao movimento de mulheres negras em Alagoas.
“O meu projeto de mestrado nasce das pesquisas de iniciação científica e do TCC, nos quais investiguei o movimento negro em Alagoas e, especialmente, o papel das mulheres negras na sociedade, tendo como principal referência teórica Leila Gonzales. Em diálogo com meu orientador, professor Luiz Marques, defini como tema a participação de mulheres negras no processo de nacionalização do 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, reconhecido nacionalmente apenas em 2023 após muitas lutas. A partir de fontes documentais e orais, busco relacionar essa mobilização ao contexto histórico de Alagoas, especialmente à Serra da Barriga e ao Quilombo dos Palmares, refletindo sobre como uma data pensada inicialmente no Rio Grande do Sul ganha sentido no território alagoano e investigando quem eram essas mulheres e como atuaram para que esse reconhecimento se tornasse realidade”, explicou.
Para a estudante, pesquisar esse tema e ingressar no programa representa uma vitória que ultrapassa o âmbito individual, é a concretização de um sonho coletivo, carregado de significado singular, que se realiza junto com todos aqueles que fizeram parte de sua trajetória.
“Fazer parte do mestrado da Ufal significa muito para mim, tendo em vista que eu sou o resultado de políticas públicas aplicadas de fato. Eu sou sujeita de cotas, então eu pesquiso e coloco em prática tudo que eu vejo na teoria. Eu sou o resultado de tudo isso, de todas as pesquisas. Então entrar no mestrado, conseguir fazer parte desse espaço acaba sendo muito significativo. É uma vitória não só para mim, mas para toda a minha família. Eu sou a primeira a concluir a graduação, a primeira a entrar no curso de mestrado. Espero não ser a última, mas é uma conquista que eu ainda não consigo mensurar. Estou muito feliz”, comemorou.
Espaço de inclusão
Além das boas-vindas aos recém-chegados, a programação contou com a presença da pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade de Brasília (UnB), Michele Pires, que foi a primeira travesti historiadora doutora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e ministrou a aula inaugural com o tema “Combater CISheteronorma, TRANSformar a história”.
O coordenador do PPGH, Elias Veras, destacou que o convite a Michele converge com as ações de políticas públicas que a universidade acolhe pioneiramente. Em novembro de 2025, a Ufal aprovou por unanimidade a criação de uma política de cotas destinada a pessoas transexuais nos cursos de graduação e, para Elias, a aula colabora para a discussão do campo da história e de uma historiografia mais diversa.
“O convite à professora Michele está inserido em um contexto de compromisso do próprio Programa de Pós-Graduação, um compromisso que é acadêmico, mas também político, com a política de cotas. Inclusive, fomos o primeiro programa de pós-graduação da Ufal a implementar cotas para pessoas pardas e negras e já realizamos nossas primeiras seleções nesse formato, contando, inclusive, com discentes travestis e trans compondo o programa. Então, é importante enfatizar que, neste momento, reafirmamos nosso compromisso não apenas com a pesquisa histórica e com a produção acadêmica, mas, sobretudo, com uma pesquisa referendada social e politicamente”, afirmou.
Para Michele, tratar esses assuntos na universidade é garantir a inserção e permanência de pessoas transsexuais no ambiente universitário.
“Enquanto uma travesti doutora, percebi, histórica, social e politicamente, a necessidade de historicizar a vida de pessoas trans. A cis-heteronormatividade, no fim das contas, é um sistema, mas também um conceito que atravessa essas populações que experienciam formas de gênero e sexualidade dissidentes da heteronorma. Agora, a universidade está estruturando uma comissão para tratar das ações afirmativas voltadas às pessoas trans na graduação, o que é uma demanda histórica do movimento transgênero brasileiro e da população trans em geral. Depois de muita luta e articulação, entendemos concretamente o sentido do verbo “esperançar”, defendido por Paulo Freire”, finalizou.
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