Alagoas
Sereias alagoanas:70 mulheres que encantam, lutam e transformam
Livro de professora da Ufal homenageia mulheres que precisam ser lembradas e evidenciadas
Sereia: Segundo o dicionário, é uma figura lendária que simboliza os aspectos do mar, nas tradições mitológicas. Metade mulher, metade peixe, com canto suave e melodioso. Mas em Alagoas, as sereias da vida real encantam pela arte, pela ciência, tem seria que é voz forte, precursora da história. Mulheres inteiras que se doam e deixam marcas no tempo. Algumas delas tiveram seus próprios contos narrados pela professora Adriana Capretz, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), numa obra que vai além do imaginário, faz parte da identidade de estado.
São 70 mulheres apresentadas com uma breve biografia e uma ilustração criada por um artista alagoano convidado. Em sua apresentação do livro Sereias Alagoanas – Histórias de mulheres que encantam, Adriana Capretz reforça a escolha por cada uma:
“Por vezes, elas representam apenas uma metáfora para o mito feminino do que é livre demais para ser contido e, em outras, podem simbolizar um momento da vida em que o corpo se transforma, causando dor e medo, mas também abre o caminho para algo novo e libertador”.
A pluralidade desse seleto grupo encontra singularidades em muitas outras mulheres que não estão no livro, mas que se identificam com essas histórias e que agora serão lembradas. “A grande maioria são mulheres anônimas na sociedade, apesar de tanta importância que elas têm para suas comunidades e além das comunidades. Todas elas foram muito receptivas à proposta do livro, contribuíram, ficaram lisonjeadas, agradecidas”, lembrou Capretz, que já realizou o pré-lançamento da obra, no dia 27 de fevereiro, em cerimônia especial para as homenageadas.
O projeto voltado ao público infanto-juvenil foi realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (Pnab), do governo federal, por meio do Ministério da Cultura (Minc), e operacionalizado pelo governo de Alagoas, a partir da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult). A professora Adriana é vinculada à Faculdade de Arquitetura, Urbanismo (FAU) da Ufal e criadora do Tatipirun Educacional (@tatipirun.educacional), voltado para a pesquisa e criação de produtos de educação patrimonial para crianças e também para capacitações na área de patrimônio cultural alagoano.
70 sereias além-mar
Em 200 páginas ilustradas, a obra apresenta 70 mulheres cujas trajetórias se destacam pela defesa de grupos marginalizados, pela preservação ambiental e pela luta por justiça social. Suas histórias estão agrupadas por temática: pioneiras; jovens; guardiãs da cultura popular; mestras de folguedos; artesãs; protetoras do meio ambiente; cientistas; artistas; políticas; entre outras categorias pensadas para realçar legados e projetar ações.
O livro também inclui figuras conhecidas como a jogadora Marta, a psiquiatra Nise da Silveira, a primeira deputada de Alagoas, Lily Lages, mas na mesma obra, ao lado de grandes nomes, tem líderes comunitárias, mestras e ativistas locais cuja atuação, apesar de decisiva, muitas vezes permanece sem a visibilidade merecida.
“É um trabalho que fala bastante de mim através dessas mulheres, porque a minha escolha é de mulheres que eu acredito, que realizam um trabalho que eu acredito, mulheres que eu admiro para estar nesse livro. Então, estou muito feliz, muito emocionada”, contou a professora da Ufal.
Algumas das sereias de Alagoas até já navegam em outros mares, mas se sentem acolhidas ao voltar para casa. A professora Lúcia Previato é um exemplo disso. Ela construiu carreira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ganhou notoriedade ao participar de uma importante pesquisa na prevenção da doença de Chagas, conquistou o Prêmio L’Óreal Unesco para Mulheres na Ciência, em 2024, e o Prêmio da Academia Mundial de Ciências em Biologia, em 2007. Mas foi a homenagem destacada neste livro, como filha da terra, que fez o canto da sereia ser voz embargada de emoção.
“Ela ficou emocionada por ter sido lembrada. Alagoas nunca citou essa mulher, e ela está entre as maiores pessoas do mundo”, ressaltou a autora, feliz em poder reunir num trabalho o que os mares, rios e lagoas do estado têm de mais encantador.
Para conhecer e pertencer
A publicação pela editora Mascarenhas chega em contexto legislativo e educacional relevante: 2025 marcou os 30 anos da Declaração de Pequim e o início da vigência da Lei nº 14.986/2024, que determina a inclusão obrigatória, nos currículos da educação básica, as contribuições das mulheres nas ciências, artes, política e sociedade.
Adriana Capretz sentiu a necessidade de criar um conteúdo que possa ser educacionalmente recomendado, depois de uma experiência frustrante na escola dos próprios filhos. Ela conta que um dos livros paradidáticos indicados tinha como protagonista uma ativista importante, mas faltava conexão.
“Malala é legal, mas ela tem uma realidade tão diferente da nossa, né? Uma cultura e uma sociedade diferentes. A gente precisa estudar as nossas mulheres, a contribuição delas. Minha esperança é que esse livro sirva de material didático mesmo, para que as escolas apresentem essas mulheres para as crianças e vejam o quanto de mulher incrível que a gente tem aqui”, destacou a docente.
O livro também se coloca como recurso para as escolas de Alagoas no cumprimento da Lei nº 14.164/21, que prevê a inclusão de conteúdos sobre prevenção da violência contra a mulher e institui a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher. O desejo da pesquisadora é que a inserção das mulheres no currículo não seja meramente simbólica: é preciso estudar o contexto, valorizar identidades e histórias locais e promover uma atuação que evite a reprodução de visões coloniais.
“A ideia é que meninas e meninos se inspirem nessas histórias, valorize as pratas da casa que a gente tem”, concluiu.
Histórias com traços alagoanos e da Ufal
Para mostrar as sereias alagoanas, a maior instituição pública de ensino do estado, a Ufal, se envolveu no projeto da professora Adriana Capretz, que começou ainda como extensão e culmina na publicação do livro.
A maior parte dos ilustradores que deu cor ao imaginário dos leitores é de alunos e ex-alunos dos cursos de Arquitetura e Design. Um deles é Daniel Albert, programador visual da Assessoria de Comunicação da Ufal e ex-aluno de Adriana, que ilustrou Dona Percina, mestra de bolos de Riacho Doce. Ela é destacada como Sereia que alimenta o corpo e a alma.
“Fiquei muito feliz pelo convite para participar do projeto. Acho que nossa região tem tantas histórias para contar, tanta cultura, saberes e arte… São várias mulheres importantíssimas e talentosas representadas pelos traços de diversos artistas daqui, e, mesmo assim, ainda tem tantas outras histórias e personagens importantes da cultura alagoana. Espero que o livro alcance os vários cantos do Brasil e nos inspire a apreciar mais e enaltecer nossas sereias alagoanas”, disse.
A imensidão do mar da Ufal também criou algumas sereias homenageadas no livro. Entre elas, Ângela Maria Bahia Brito (Sereias que lutam por todas), Rosângela Lyra (Sereias cientistas), e Zélia Maia Nobre (Sereias pioneiras), que impulsionou o interesse da paulista Adriana Capretz em estudar educação patrimonial de Alagoas. Uma sereia de um mar distante que deixa seu presente encantador para a Terra das Lagunas.
Veja mais fotos de @rennerboldrino nesse link.
Veja o calendário de lançamento do livro:
• Dia 6/3 às 19 horas: lançamento e autógrafos na Livraria Leitura Parque Shopping
• Dia 13/3 às 9 horas: lançamento e autógrafos na Biblioteca Graciliano Ramos, na Praça da Catedral
• Dia 27/3 às 10 horas: lançamento e autógrafos no novo novo prédio do NEES UFAL (Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais), no Campus A. C. Simões, em Maceió.
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