Alagoas

Professora Lourdes Monteiro recebe Bênção Apostólica por seu centenário

13/01/2026
Professora Lourdes Monteiro recebe Bênção Apostólica por seu centenário

Na tarde desta terça-feira (13), um gesto simples e profundamente simbólico reuniu passado, presente e futuro da história social de Palmeira dos Índios. Em sua residência, a professora Maria de Lourdes Monteiro recebeu o pergaminho que comunica a Bênção Apostólica concedida por Sua Santidade o Papa Leão XIV por ocasião de seu centésimo aniversário, a ser celebrado no próximo 6 de abril de 2026.

A entrega foi realizada pelo professor Cosme Rogério, que trabalhou ao lado de Dona Lourdes na FUNDANOR - Fundação de Amparo ao Menor, acompanhado do professor Josemar Santos, sociólogo que pesquisou academicamente a trajetória da educadora, e de José Roberto, conhecido como Beto Catatau, um dos primeiros meninos atendidos por ela quando, ainda sem instituição formal, distribuía sopa diariamente em sua própria casa - gesto cotidiano que viria a se tornar a semente da Fundanor.

O pergaminho, de inspiração medieval, com iconografia cristã e o selo da Santa Sé, registra a concessão da Bênção Apostólica como sinal de reconhecimento e oração da Igreja pelos 100 anos de vida de uma mulher cuja existência foi inteiramente dedicada ao cuidado com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Sentada em sua cadeira de rodas, cercada por amigos, antigos colaboradores e “filhos da Fundanor”, Dona Lourdes Monteiro acolheu o documento com seu bom humor habitual: "Agora eu vou dizer que o primeiro a me desejar parabéns pelos meus 100 anos foi o Papa". Um século de vida atravessado pela educação, pela caridade organizada e pela firme convicção de que nenhuma criança deve ser invisível.

Fundadora da Fundanor em 1980, Dona Lourdes construiu, a partir de gestos domésticos e persistentes, uma das mais duradouras experiências de acolhimento institucional do Agreste alagoano. Antes do estatuto, da sede e dos convênios, houve a panela no fogo, o prato estendido, a porta aberta. “A Fundanor nasceu antes de ter nome”, resume ela, lucidamente.

"A entrega do pergaminho não foi apenas um ato religioso, mas um preito público de gratidão. Gratidão de quem aprendeu com ela que educar é também proteger; que ensinar é, muitas vezes, alimentar; e que a política mais duradoura começa no cuidado cotidiano", afirma o professor Cosme Rogério, idealizador da ação.

O gesto, carregado de sobriedade e beleza, lança também um convite à cidade. Em ano de centenário, Palmeira dos Índios pode - e talvez deva - ampliar as homenagens. Uma das propostas sugeridas pelos presentes é que 2026 seja declarado, em âmbito municipal, o “Ano Lourdes Monteiro da Educação”, com ações nas escolas, rodas de memória, publicações e atividades que façam dialogar passado e presente da proteção à infância. Outras possibilidades incluem a criação de um memorial educativo ligado à história da Fundanor ou a instituição de um prêmio municipal voltado a iniciativas de educação e cuidado social.

Por ora, contudo, o que se celebrou foi o instante: o pergaminho entregue, as mãos que o sustentaram, os olhos que o contemplaram. Um século de vida resumido num gesto de gratidão coletiva. Em tempos de urgências ruidosas, a tarde de hoje ensinou, mais uma vez, que a verdadeira grandeza costuma chegar em silêncio - como quem oferece um prato de sopa e, sem saber, escreve uma bela história.