sexta-feira, 19 de agosto de 2022

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Mercenários da América Latina viram artigo cobiçado na indústria da guerra

A mão de obra especializada na guerra está em alta. Neste cenário, os mercenários latino-americanos se tornaram uma mercadoria atrativa por custarem menos que europeus e americanos e possuírem experiência em guerrilha urbana e florestas.

A demanda vem de todas as partes. Na Ucrânia, a Rússia substitui soldados perdidos por milicianos. Há menos de um ano, o presidente do Haiti foi assassinado por militares contratados. Nas guerras do Oriente Médio, as batalhas são travadas por combatentes de várias nacionalidades. O uso de mercenários é antigo, mas se intensificou nos últimos 30 anos.

Não há dados oficiais sobre mercenários, mas pesquisadores buscam há anos levantar informações de quantos são e de onde vêm. “Rastrear mercenários é como rastrear cartéis do narcotráfico”, afirma Sean McFate, professor de estratégia militar na Georgetown University e National Defense University.

PRESENÇA

Segundo ele, o mercado de mercenários é uma rede fechada, onde pouca informação vaza e organizações contratam em segredo. Mas é possível ter uma dimensão com base nos relatórios de conflitos. Um deles, produzido por McFate, em 2019, mostra que as maiores redes são de ex-militares de EUA e Reino Unido, usados no Iraque e no Afeganistão.

Depois, vêm as ex-repúblicas soviéticas e as forças especiais da América Latina. Mas o preço de americanos e europeus e a mudança na maneira de se fazer guerra, tornou os latino-americanos mais atrativos.

“Os mercenários latino-americanos são bons no que fazem e mais baratos do que americanos ou europeus”, explica McFate. “Eles sabem lutar nas cidades e na selva. Sabem fazer a guerra de guerrilha e contraguerrilha. E isso os torna atraentes.”

Grande parte desses mercenários luta no Oriente Médio, segundo relatórios. Uma investigação do New York Times, de 2015, revelou que os Emirados Árabes contrataram secretamente centenas de latino-americanos para lutarem no Iêmen – entre eles panamenhos, salvadorenhos e colombianos.

“Todos eram veteranos da guerra às drogas, trazendo novas táticas e dureza aos conflitos no Oriente Médio”, aponta o documento de McFate. “Eles eram uma pechincha, custando uma fração do que um americano cobraria.”

COLÔMBIA

A Colômbia é o principal exportador de combatentes. Os mais de 60 anos de conflito interno criaram gerações de soldados experientes em contrainsurgência e terrorismo urbano, muitos treinados nos EUA e em Israel.

“Os latino-americanos participaram de conflitos, são ex-guerrilheiros ou ex-militares que não encontraram trabalho após deixar essas atividades”, afirma Irene Cabrera Nossa, professora da Universidad Externado de Colombia. “O desafio é evitar que eles façam parte de conflitos em outros lugares do mundo.”

Na Ucrânia, relatórios apontam a presença maior de mercenários russos, especialmente do Grupo Wagner. Mas muitos latinos se juntaram às forças ucranianas, alguns por motivação ideológica, outros por questões financeiras.

Em março, vários mercenários da América Latina relataram ao jornal argentino Clarín frustrações por não conseguirem lutar na Ucrânia. Eles partiram com a promessa de um salário de US$ 2.500, mais bônus por sucessos militares, além de um visto de residência – mas não foi isso o que encontraram.

Segundo Irene, o risco é grande de pessoas serem enganadas ao aceitarem trabalhar como mercenários. “Há relatos de colombianos enganados por empresas privadas para trabalhar no Iraque, em vigilância, mas que terminaram participando de atividades hostis”, conta.

O caso mais emblemático ocorreu no Haiti, onde mercenários assassinaram o presidente Jovenel Moise, em julho de 2021. Pelo menos 15 colombianos foram detidos. Eles dizem que foram enganados. Em entrevista a uma rádio colombiana, a mulher de um preso contou que eles não sabiam para onde seriam levados. “Era uma oportunidade de trabalhar com famílias de xeques”, disse.

Como não há dados, um caminho é monitorar o surgimento de Empresas Militares e de Segurança Privadas (PMSCs, na sigla em inglês). Segundo o relatório Security on Sale, produzido por pesquisadores do Diálogo Interamericano, em 2018, existem 16 mil PMSCs na América Latina, que empregam 2,4 milhões de pessoas. A região tem o maior número de militares privados em comparação com as forças públicas.

“Embora as forças de segurança privada superem os membros da polícia em todo o mundo, na América Latina a diferença é ainda maior. No Brasil, a proporção é de quatro para um. Na Guatemala, de cinco para um. Em Honduras, há quase sete guardas particulares para cada agente de segurança pública”, afirma o relatório.

FACHADA

Muitas dessas empresas fornecem serviços de segurança privada, como escoltas e proteção de edifícios, mas algumas têm o foco em combate e inteligência para conflitos internacionais, e são contratadas por governos e organizações. A existência delas não é ilegal, e até mesmo agências da ONU contratam esses serviços para operações humanitárias.

No entanto, muitas utilizam a fachada da segurança privada para oferecer serviços que envolvem violações de direitos humanos e do direito internacional.

O caso mais famoso é da Blackwater, que mudou de nome após violações no Iraque.
Mas, mesmo ao atuarem em serviços não relacionados à guerra, a atividade dessas empresas preocupa pesquisadores, já que os Estados estão abrindo mão do monopólio do uso da força, privatizando a segurança pública.

“É um risco, porque estamos pondo nas mãos de empresas privadas informações sensíveis de inteligência”, diz Irene. A proliferação desse tipo de serviço tende a ser maior em áreas de instabilidade política e em desenvolvimento.

O uso de mercenários cresceu após a Guerra Fria, quando ex-militares se viram sem trabalho. Seu uso se tornou interessante, já que são mais baratos do que enviar o próprio Exército e isentam os Estados de culpa. Além disso, os combatentes estão em um limbo jurídico: se cometem crimes, não são punidos e permitem que seus contratantes sejam indetectáveis. “O presidente do Haiti foi assassinado. Pegaram os mercenários, mas ainda não sabem quem os contratou”, diz McFate. “Provavelmente, nem eles sabem quem os contratou.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Carolina Marins
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