domingo, 23 de Janeiro de 2022

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Um olhar demasiadamente pacato

Por Dartagnan Zanela

Há pessoas que estão sempre com aquele olhar plácido de um cágado tranquilo. Parecem estar olhando sempre para o nada, mesmo que estejam com seu olhar fixo em alguma coisa ou em alguém.

Encontramos elas nos mais variados ambientes. Algumas vezes trombamos com uma dessas figuras a perambular pelas ruas da cidade; outras vezes as encontramos numa fila qualquer, de um caixa qualquer, de um supermercado qualquer e, as vezes, encontramo-nos com esses sujeitos quando estamos, taciturnos, nos olhado no espelho num horário qualquer, de um dia qualquer, de uma das muitas semanas soturnas que formam o mosaico de uma vida qualquer. Da nossa vida.

Seja no reflexo cansado de um espelho, ou nos caminhos e descaminhos do dia a dia, lá está ele, o sereno olhar de um cágado tranquilo, vendo a vida passar enquanto por ela passamos, desatentos, deixando para trás os dias que vão sendo surrupiados de nós por nós mesmos.

É uma distração aqui que nos atropela, uma passatempo acolá que nos passa a perna, uma ociosidade vazia mais adiante que nos engambela e, quando nos damos conta, as horas e os dias se vão sem se despedir da gente, e se vão para nunca mais voltar, feito grãos de areia a despencar numa fatigada ampulheta em poeirada.

Por essa, e somente por essa razão, tenho horror desse olhar pacato de cágado tranquilo, que se encontra estampado nos rostos de muitos que alegremente se desumanizam com seu olhar pregado na vista da porta luminosa que faz morada na palma da sua mão, na ponta dos meus dedos, no coração de praticamente toda nossa geração que faz da fuga da realidade o propósito mais elevado de uma vida modernamente vivida.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela – professor e cronista (dartagnanzanela@gmail.com)

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