terça-feira, 30 de novembro de 2021

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Palavras apenas, palavras pequenas

Por Dartagnan Zanela

As palavras fofinhas são o último refúgio dos canalhas. Sempre foram. Hoje, mais do que em outras épocas. E, nesse quesito, leviandade pouca sempre é bobagem.

Infelizmente, o hábito de ignorar a realidade e, em seu lugar, colocar uma e outra palavrinha, de efeito epidérmico e emotivo, tornou-se a regra entre aqueles que se consideram as pessoas mais boas, éticas, probas, cheirosas e, é claro, científicas da galáxia. Costume esse que, não apenas desvia o olhar, criticamente crítico, da realidade que desesperadamente bate na porta, nas janelas e na soleira da alma daqueles que as utilizam, mas também acaba muitas vezes por cerrar as vistas para a verdade, nada gentil, sobre suas pessoas.

Sim, a verdade sobre os fatos e, principalmente, sobre nós mesmos, nunca é gentil, porque ela se apresenta a nós não para acariciar o nosso ego, mas sim, para nos despertar de nosso torpor. Por isso, se ela for amorosamente acolhida por nós, poderá nos libertar dos grilhões, que foram forjados com nossos delírios e ilusões, e que nos mantém apartados do senso das proporções e de toda e qualquer medida de bom senso.

Uma dessas palavras fofinhas, usada pela galera que acredita estar acima e além do bem, do mal, da alcatra e da salada de tomate, é a tal da “democracia”. Não apenas isso. Para se sentirem mais fofos, e desviarem mais ainda o seu próprio olhar da visão de sua triste condição de alienado militante, tais figuras costumam utilizá-la com algumas combinações como “democracia popular”, ou “democracia integral” e, é claro, “democracia radical”.

Quando vemos grupos de pessoas utilizando uma palavra como essa de forma repetitiva, como se fosse uma espécie de distintivo moral, como se fosse um tipo de carteirinha dos membros de um clubinho, isso não significa que os membros da trupe, de fato, defendem a tal da democracia como algo precioso, mas sim, que usam essa palavra, democracia, esvaziando-a de seu significado para utilizá-la como um instrumento de controle e manipulação, para classificar as pessoas e, dessa forma,  dizer se fulano é digno ou não de respeito. Se for, receberá o carimbo de aprovação da turma. Se não for, será marcado com toda ordem de estigmas difamatórios.

Ou seja: se eles considerarem que o caboclo é parecido com eles, esse receberá o adesivo de “democrático”; se o dito cujo rezar na mesma cartilha da turma, mesmo não sendo membro dela, receberá a carteirinha de “democrata radical”; agora, se o infeliz não caminhar no riscado estabelecido pela “diretoria” do clubinho, danou-se tudo. O pobre será marcado a ferro e fogo como sendo um “fascista”, “racista”, “machista”, “negacionista”, “taxidermista” e, farão isso, principalmente pelo fato do pobre coitado não ser nada disso.

Tal prática é infame, sei disso, mas para as pessoas que se veem tomadas pela peçonha totalitária, tal expediente é de fundamental importância para que possam manter a pose de “porta-voz do bem” e não terem de olhar diretamente nas vistas da besta tirânica que habita o seu coração peludinho.

Tais figuras – sejam elas sócias fundadoras, remidas, ostensivas ou minoritárias desse “clubinho do ódio do Bem” – precisam dizer incessantemente para si mesmas que elas são “democratas radicais” e não signatárias de uma ideologia totalitária fantasiada de humanismo. Eles necessitam olhar para o seu passado e dizer para si mesmos que têm uma história de lutas épicas e não apenas uma sucessão de enganos e auto enganos vividos numa série de rodopios alienantes. Tais peças não podem parar de dizer para si mesmos que estão lutando por um mundo melhor, ao invés de admitir que estão lavorando para edificar uma infinidade de mecanismos para controlar a vida das pessoas nos mais mínimos detalhes.

Se pararem de repetir essa cantilena politicamente correta eles terão de encarar de frente a imagem nua e crua do tipo de ser humano que se tornaram e, tal atitude, de encarar a verdade sobre si, não é nem um pouco fácil, principalmente para essa gente que construiu sua vida sobre uma farsa. Por isso ficam noite e dia, nas ruas e nas redes sociais, repetindo para si e para todos, que eles são democratas radicais que apenas estão lutando por um mundo melhor, contra o fascismo, contra o churrasco e tutti quanti. Desse modo, eles se mantêm organicamente focados em seu objetivo inconfessável: a conquista do poder, que é diferente de uma vitória numa eleição.

Enfim, como havíamos dito no início desta mísera missiva, as palavras fofinhas são o último refúgio dos canalhas. Sempre foram e continuam sendo.

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