sábado, 16 de outubro de 2021

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Menstruação, por fim enfrentamos o assunto

Por Léo Rosa de Andrade

Pobreza menstrual. O tema está em pauta. Ainda bem. Que sei eu sobre o assunto? Pouco. Sei, todavia, que a questão vem tarde às preocupações gerais. Chegou como uma lei meio apressada e com um veto insensível de um governo sem sensibilidade para a dura realidade das pessoas pobres, que, no Brasil, contam em torno de 30 milhões, algo como 15% do total da população.

Em 1965, eu com 12 anos, meu amigo Júlio, cujo pai era proprietário de um empório, convidou-me, com ar de quem me levaria a algo secreto, a ver uma coisa. Era noite, entramos no empório, de uma prateleira ele tirou uma caixa de Modess, o absorvente higiênico que então existia. Era grande, comparado aos de hoje, e não vi nele nada de interessante; era algo feito de algodão, só.

Mas, aí, na caixa, uma espécie de bula. Tudo se explicava: órgão sexual feminino, ciclo menstrual, a menstruação em si, a importância da higiene. Compreendi, sobre as diferenças aparentes entre o corpo do menino e o da menina, especificidades jamais imaginadas. Aquela noite, aquela caixa, aquela bula me agregaram um saber que me clarearam a vida e o viver.

O Modess está no Brasil desde 1930, mas nos anos 1960 ainda prevalecia o uso de toalhas higiênicas popularmente chamadas de paninhos laváveis. Esses panos, compridos o suficiente e com casas abertas em ambas as pontas para poderem ser fixados por botões pregados na parte da frente e na de trás das calças (não se dizia calcinha), eram comumente vistos a secar em varais.

Os hábitos recomendavam que uma mulher menstruada não se expusesse ao vento e, principalmente, não tomasse banho; de nenhum modo podia lavar os cabelos. A bula da caixa de Modess, todavia, ensinava que tudo isso não estava conforme o melhor procedimento; pelo contrário, exatamente no período menstrual a mulher deveria estar mais atenta à higiene, banho incluído.

Esses costumes foram fixados na Idade Média. A menstruação, então, era associada a maldição, doença e pecado. A medicina com seus equívocos e a igreja católica com sua noção de que a mulher era a culpada pelas tristezas da humanidade viam na menstruação a inferioridade do corpo feminino e o sinal de eterna purgação do que mitologia cristã nomeia pecado original.

Não faz muito tempo ainda se tinha – na verdade ainda há quem assim a veja – a menstruação como algo repulsivo a ser tratado com reserva. Não faltam homens que estabelecem distância de uma mulher menstruada, vendo o sangue menstrual como algo nojento. Igualmente, o preconceito alcança muitas mulheres que não aceitam ser tocadas e nem se tocam se estão menstruando.

Como muitas coisas que decorrem de tecnologias de guerra, parece que os primeiros absorventes, que já contam com século e meio, foram uma boa ideia de enfermeiras de hospitais de guerra. Elas perceberam que recursos úteis a ferimentos de soldados seriam benéficos a si mesmas. Tufos de algodão e polpa de madeira teriam sido os primeiros meios de aparar sangue menstrual.

A revolução da tecnologia está no descartável. Fraldas menstruais geravam assaduras e, dada a umidade, proliferam fungos e mesmo bactérias, facilitando doenças evitáveis. Produtos baratos e descartáveis foram um avanço no conforto e na saúde feminina. Estranho que mesmo se sabendo disso, no mundo e no Brasil mais ainda, demorou-se tanto a cuidar melhor do tema.

A pobreza menstrual, afinal, é um assunto de saúde pública. Se milhões de mulheres ficam desprovidas de um meio tão disponível como um absorvente, elas acabam retomando recursos vencidos ou inventando outros para atender uma necessidade fisiológica inescapável, amparando-se em panos não tão limpos, ou introduzindo na vagina o que as ajude, incluindo miolo de pão.

Além da indignidade (sim, direitos humanos) que é o ficar exposta a olhares indiscretos, muitos ignorantes, alguns até grosseiros, há a decorrência médica da falta de higiene. Um exemplo só: pão na vagina fermenta, gera organismos que provocam doenças. O SUS se sobrecarrega de pacientes e custos, a Sociedade nem sabe, mas paga bem caro por seu próprio descaso.

O atual (des)governo tem razão ao dizer que outros governos descuidaram do assunto. Isso contudo não é argumento, é pretexto para abandonar uma causa justa. Males da desídia passada não autorizam recusar uma lei cujo teor, inclusive, pode ser atendido por medidas administrativas. Esse (des)governo, como soe acontecer, trai a dignidade humana e o interesse social.

Sei que o (des)governo retrocedeu e pretende, segundo declarou, atender ao requerimento da Sociedade. Mas, enquanto afirma consentir, apresenta falsos dilemas, como “ou o absorvente, ou a vacina”. E argumenta que ofertará os itens na “hora certa”. Procrastina. A hora certa já passou, a menstruação desce todo mês. Mas, valeu. Essa luta, finalmente, parece, venceu a estupidez.

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