terça-feira, 30 de novembro de 2021

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Isaac Asimov mescla exatas e humanas em suas obras

A plataforma de streaming Apple TV+ lançou na sexta-feira, 24, a aguardada adaptação da saga Fundação, de Isaac Asimov. Na obra, um grupo de cientistas liderados por Hari Seldon (Jared Harris), tido como um alter ego do escritor, prevê por meio da psico-história – uma mescla fictícia de ciências exatas e humanas – o inevitável colapso de um império de proporção galáctica e propõe um plano de contingência para reduzir o período de barbárie que se seguiria à derrocada. É claro que a “profecia estatística” de Seldon desagrada aos poderosos e ele acaba sendo perseguido e acusado de traidor.

Semelhanças à parte com a sina de cientistas que alertam sobre catástrofes na vida real, a Fundação foi inspirada em grande medida no relato do historiador Edward Gibbon sobre a ascensão e queda do Império Romano. Apesar das narrativas futuristas, das naves espaciais e dos dilemas sobre a tecnologia, Asimov jamais escondeu ser um inveterado amante de história. Tanto que, de cerca dos 500 livros que ele publicou, editou ou organizou, a ficção foi numericamente uma minoria diante das obras de divulgação das ciências exatas e humanas.

Um exemplo dessa produção acaba de ganhar nova edição: Os Egípcios – As Origens, o Apogeu e o Destino de uma Civilização, lançado pelo selo Minotauro da editora Planeta. O livro é parte da Coleção História Universal Isaac Asimov, que contempla também os povos grego e romano, cujos volumes devem ser publicados no Brasil em 2022.

Acompanhar a jornada do Egito pelas palavras de Asimov é compreender como fatores ligados à natureza influenciaram o desenvolvimento da humanidade, uma vez que o escritor trata não apenas dos aspectos puramente históricos, mas mostra, por exemplo, como o degelo das regiões polares no fim da última era glacial transformou o Saara em um deserto e fez com que a civilização que daria origem ao Egito se fixasse às margens do colossal rio Nilo.

Foi graças às planícies alagáveis do vale do Nilo que os egípcios puderam desenvolver a agricultura, se assentar em cidades, aumentar sua população e prosperar. Como o mecanismo biológico por trás da germinação das sementes ainda era desconhecido para essa civilização, rituais místicos de fertilidade eram associados ao sucesso das plantações, o que, de acordo com Asimov, foi fundamental para o surgimento de uma sociedade tão organizada em torno de sua religião. Foram os sacerdotes egípcios, ao estudar o movimento da Lua e os padrões de cheias do Nilo, que notaram a regularidade de ciclos de 365 dias que costumava se repetir e fizeram um calendário lunar que foi mais ou menos a base do que usamos até hoje.

Se as inundações anuais do Nilo fertilizavam a terra e pavimentaram o surgimento do império egípcio, elas também borravam as demarcações entre lotes individuais. Para solucionar essa questão, criou-se um conjunto de métodos de medição da terra que lançaram as bases da geometria. Também se fez necessário identificar quem produziu o quê e em qual propriedade. Para isso, os egípcios levaram adiante a invenção pictográfica dos povos que viviam às margens dos rios Tigre e Eufrates, criando assim o sofisticado sistema de hieróglifos – mas a teimosia de 2 mil anos para adotar o dinâmico sistema alfabético somada à inferioridade bélica e ao isolacionismo exacerbado levariam o Egito a ser dominado por povos estrangeiros, como núbios, assírios e romanos. Como ocorre também em sua prosa literária, nos livros de história Asimov gosta de evidenciar como as inovações tecnológicas são determinantes para a prosperidade de um povo e como o conservadorismo dogmático costuma deixá-lo para trás.

A privilegiada posição estratégica do Egito, entre os mares Mediterrâneo e Vermelho, fez com que suas terras fossem cobiçadas por muitos impérios da Antiguidade e obrigou os egípcios a se defender com diferentes graus de sucesso, usando artifícios políticos variados, mas também permitiu que fossem grandes comerciantes. Já no século 13 a.C. o faraó Ramsés II planejou construir um canal unindo os mares – hoje, 12% do comércio global passa pelo Canal de Suez – e, por volta de 600 a.C., os egípcios contrataram os navegantes mais talentosos da Antiguidade, os fenícios, para realizarem a primeira circum-navegação da África – dois mil anos antes dos portugueses.

Talvez por não ser um historiador de formação – ele era bioquímico -, Asimov explica ao leitor leigo não apenas a história do Egito, mas como funciona o método historiográfico, a diferença de confiabilidade entre os tipos de fontes históricas e como ele chegou às conclusões que oferece. Quem já leu a saga da Fundação vai notar que muito do interesse do autor pela intriga política e pela influência da religião na sociedade se faz presente em Os Egípcios – na Fundação, uma pequena colônia de enciclopedistas assume o vácuo de poder deixado pelo antigo Império Galáctico graças a diversas artimanhas, inclusive a dominação de povos bárbaros por meio de uma espécie de “religião científica”.

Asimov passa pela unificação do Egito, ainda em sua pré-história, sob a figura semilendária de Menés; pela construção das pirâmides no Antigo Império, há mais de 4 mil anos; pela dinastia ptolomaica, com personagens saborosos como Cleópatra, Júlio César e Marco Antônio; pela expansão e pelas crises do Império Romano sob o ponto de vista egípcio – como quando o imperador bizantino Justiniano, um católico fervoroso, fechou o Templo de Isis e destruiu a religião milenar egípcia; e pela ascensão do Egito islâmico, que encerra o livro.

Ao fazer disciplinas exatas e humanas dialogarem, popularizando o saber científico em todas as suas formas, Asimov contribuiu para a divulgação do conhecimento tanto em sua obra literária quanto em seus livros de não ficção. Os Egípcios é uma dessas pérolas, finalmente disponibilizada aos leitores brasileiros.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: André Cáceres
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