Vida Esportiva
Clássico entre Flamengo e Botafogo apresenta clubes com scouts distintos
Gestões e filosofias diferentes marcam as abordagens na montagem das equipes cariocas
Flamengo e Botafogo se enfrentam hoje, no Maracanã, às 16h, em um clássico do Brasileirão. Os clubes cariocas vêm seguindo caminhos distintos, tanto na gestão quanto na filosofia de montagem de suas equipes. Uma das principais diferenças está no processo de scout — a busca por jogadores — já que os rivais são influenciados de maneiras muito diferentes pelos profissionais responsáveis.
No Flamengo, o departamento de scout ainda se encontra em fase inicial, não funcionando conforme prometido pela gestão de Luiz Eduardo Baptista. Ao assumir a presidência no início do ano passado, Bap contratou José Boto, conhecido por sua capacidade de garimpar talentos com bom custo-benefício no futebol europeu. No entanto, com mais da metade do mandato cumprido, nem o desempenho esportivo de destaque esconde que a atuação no mercado continua centrada em contratações de jogadores utilizando o alto poderio financeiro. A volta de Lucas Paquetá, por R$ 315 milhões, estabeleceu um novo recorde na história do futebol brasileiro, evidenciando essa tendência.
O exemplo de maior repercussão foi o atacante Mikey Johnston, mas com uma conotação negativa. Quando o nome do irlandês foi ventilado em 2025, houve uma rejeição massiva por parte da torcida, levando Bap a vetar a negociação. Posteriormente, o clube investiu milhões de euros na contratação de Samuel Lino, Carrascal e Emerson Royal.
O caso de Juninho também ilustra um scout que ainda não trouxe nomes relevantes ao elenco. Contratado como reserva de Pedro no início do ano passado, o centroavante teve uma passagem discreta e já foi negociado com o futebol mexicano.
Boto não foi o único estrangeiro atraído ao Ninho do Urubu para reformular o scout. O departamento é chefiado pelo ucraniano Andrii Fedchenkov, que havia previamente colaborado com o português na Ucrânia e na Grécia. A equipe, ainda reduzida em número de profissionais, trabalha na identificação e análise de talentos com uma abordagem mais profissional e tecnológica do que durante a gestão de Rodolfo Landim, que sofria com forte interferência política. Contudo, isso não implica que o processo tenha se tornado mais ágil.
A janela de transferências deste meio de ano, na qual o Flamengo ainda não contratou reforços após vários meses de especulação, novamente coloca o trabalho sob avaliações críticas. Jovens talentos do futebol argentino foram associados ao rubro-negro, o que poderia sugerir uma mudança na estratégia do departamento, que agora conta com menos folga no orçamento. Contudo, não houve movimentações concretas até o momento, além de nomes consagrados como Thiago Almada e Luiz Henrique.
Além de não realizar novas contratações, o clube se despediu de dois jogadores na semana passada, com as vendas de Gonzalo Plata e Wallace Yan.
Outra ideia
Em uma transição administrativa, com a iminente chegada da GDA Luma, do empresário mexicano Gabriel de Alba, que assumirá 90% das ações da SAF, o Botafogo utilizou o departamento de scout como base para praticamente todos os sete reforços contratados. A única exceção é Tiquinho Soares, ídolo do clube entre 2022 e 2024 e campeão brasileiro e da Libertadores, que retornou mais pelo apelo emocional do que por questões esportivas. Foi ele quem procurou o alvinegro, e sua contratação contou com o apoio de líderes do elenco, como Alex Telles e Vitinho.
Os outros seis reforços — os goleiros Gabriel Batista e Warleson, o lateral Paulinho, o zagueiro Lucas Monzón, o volante Domingos Andrade e o atacante Danilo Pereira — foram indicados pela área responsavel pela análise de atletas ao redor do mundo. Chefiada por Brunno Noce, que sucedeu Alessandro Brito, atualmente em posição de destaque no Crystal Palace, da Premier League, a equipe conta com mais de dez profissionais mapeando jogadores de todos os continentes. Existe uma divisão para que os funcionários acompanhem ligas específicas com maior profundidade. Noce, por exemplo, é considerado especialista no futebol uruguaio.
Um dos departamentos que mais recebeu investimento desde o início da SAF, o scout do Botafogo se adapta às expectativas e realidades do clube. Em 2022, a estratégia consistia em contratar jogadores pouco conhecidos no cenário do futebol brasileiro, mas que se adequassem ao estilo Botafogo Way, idealizado por John Textor: atletas fortes, rápidos e técnicos. Essa abordagem foi fundamental para que o time quase conquistasse o título brasileiro em 2023, antes de ver seu desempenho decair no segundo turno.
Em 2024, com a decisão de Textor em incrementar os investimentos, o posicionamento também mudou. Ao mesmo tempo em que contratou Igor Jesus nos Emirados Árabes sem custos, o scout indicou Luiz Henrique como substituto para Junior Santos, cuja valorização no mercado ocorreu em paralelo. Textor optou por manter todos os atletas. Chegaram ainda Alex Telles (sem custos), Vitinho (R$ 49,3 milhões), Savarino (R$ 13,2 milhões) e Thiago Almada (R$ 120 milhões), todos cruciais para as conquistas sob a direção de Artur Jorge.
A área de análise do Botafogo também mantém um monitoramento contínuo sobre o desempenho e métodos de trabalho de treinadores em diversas ligas. Com isso, o departamento de futebol avalia se um determinado técnico se enquadraria no perfil do elenco alvinegro.
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