Vida Esportiva

Alison dos Santos é o 1º brasileiro recordista mundial em atletismo de pista desde 1975

Piu correu os 400m com barreiras em 45s80, em Zurique; na rua, Ronaldo da Costa foi recordista mundial da maratona em 1998

Agência O Globo - 27/08/2026
Alison dos Santos é o 1º brasileiro recordista mundial em atletismo de pista desde 1975
Alison dos Santos - Foto: Reprodução / Instagram

Alison dos Santos colocou o Brasil novamente no livro de recordes mundiais do atletismo nesta quinta-feira. O Piu venceu os 400 metros com barreiras na etapa de Zurique da Diamond League em 45s80, quebrando uma das marcas mais fortes do esporte: os 45s94, com que o norueguês Karsten Warholm havia conquistado o ouro olímpico em Tóquio, em 2021. Warholm também participou da prova e terminou em segundo lugar, com 46s69.

Esse feito encerra um intervalo de quase 51 anos sem que um brasileiro estabelecesse um recorde mundial em provas de pista e campo. O último a conseguir tal feito foi João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, em 15 de outubro de 1975. Naquele dia, também em uma competição internacional de grande prestígio, o brasileiro saltou 17,89m no triplo durante os Jogos Pan-Americanos da Cidade do México. Desde então, o país conquistou títulos olímpicos e mundiais no atletismo, mas nenhuma nova marca mundial em uma prova disputada dentro do estádio.

A nova marca representa um salto extraordinário na carreira de Alison. Antes desta quinta-feira, seu recorde pessoal era de 46s29, obtido no título mundial em Eugene, em 2022. Agora, ele baixou esse tempo em 49 centésimos, tornando-se o primeiro homem da história a correr os 400m com barreiras abaixo de 45s90. Aos 26 anos, Piu já havia sido campeão mundial em 2022, vice em 2023 e conquistou bronzes nas Olimpíadas de Tóquio e Paris. Em 2026, ele chegou a Zurique após fazer 46s43 quatro dias antes, na Silésia, a melhor marca da temporada.

João do Pulo também estabeleceu, em 1975, um recorde que parecia pertencer a outra dimensão. O salto de 17,89m da Cidade do México melhorou em 45 centímetros a marca anterior, estabelecida em 17,44m, e permaneceu no topo por quase dez anos, até que o americano Willie Banks alcançasse 17,97m em 1985. João ainda conquistaria duas medalhas olímpicas de bronze, em Montreal-1976 e Moscou-1980, mas seu salto no Pan permanece como a última ocasião em que um brasileiro saiu de uma prova de pista e campo com um recorde mundial absoluto.

Antes dele, essa história brasileira foi construída principalmente por Adhemar Ferreira da Silva. Bicampeão olímpico do salto triplo, Adhemar teve cinco recordes mundiais ratificados entre 1950 e 1955. Ele começou com 16m em São Paulo, igualando a melhor marca existente, e avançou para 16,01m no Maracanã em 1951. Na final olímpica de Helsinque-1952, ele melhorou o recorde duas vezes na mesma competição, para 16,12m e depois 16,22m. Em 1955, novamente na altitude da Cidade do México, alcançou 16,56m.

Entre Adhemar e João do Pulo, houve um dos recordes mundiais mais breves da história olímpica. Na final do salto triplo durante os Jogos da Cidade do México, em 1968, Nelson Prudêncio alcançou 17,27m na quinta tentativa, tornando-se recordista mundial por cerca de cinco minutos, até que o soviético Viktor Saneyev saltasse mais longe logo em seguida. Prudêncio ficou com a prata, mas garantiu seu lugar na curta lista de brasileiros que alcançaram a melhor marca mundial no atletismo.

Uma particularidade torna o feito de Alison ainda mais inédito. Todos os recordes brasileiros anteriores em provas de pista e campo foram obtidos no salto triplo, com Adhemar, Prudêncio e João do Pulo. Assim, Piu é o primeiro brasileiro a estabelecer um recorde mundial absoluto em uma corrida disputada na pista, e o fez justamente nos 400m com barreiras, prova que nos últimos anos passou por uma revolução de marcas, liderada por ele, Warholm e o americano Rai Benjamin.

O intervalo entre João do Pulo e Alison precisa, porém, de uma ressalva: o Brasil teve outro recordista mundial nesse período, mas nas ruas. Em 1998, Ronaldo da Costa venceu a Maratona de Berlim em 2h06min05s, quebrando o recorde mundial e se tornando o primeiro homem a completar os 42,195km abaixo de 2h07. Assim, Alison se torna o primeiro brasileiro a quebrar um recorde mundial absoluto do atletismo desde Ronaldo, há 28 anos, e o primeiro em pista e campo desde João do Pulo, em 1975.

Os recordes mundiais do Brasil no atletismo

1950 — Adhemar Ferreira da Silva: 16,00m no salto triplo, São Paulo

1951 — Adhemar Ferreira da Silva: 16,01m no salto triplo, Rio de Janeiro

1952 — Adhemar Ferreira da Silva: 16,12m no salto triplo, Helsinque

1952 — Adhemar Ferreira da Silva: 16,22m no salto triplo, Helsinque

1955 — Adhemar Ferreira da Silva: 16,56m no salto triplo, Cidade do México

1968 — Nelson Prudêncio: 17,27m no salto triplo, Cidade do México

1975 — João Carlos de Oliveira: 17,89m no salto triplo, Cidade do México

1998 — Ronaldo da Costa: 2h06min05s na maratona, Berlim

2026 — Alison dos Santos: 45s80 nos 400m com barreiras, Zurique