Vida Esportiva

Legado da Rio-2016: ex-judocas viram treinadores e formam campeões

Nove dos 14 judocas olímpicos atuam na formação de novos atletas; Maria Portela e Érika Miranda revelam campeãs.

Agência O Globo - 24/08/2026
Legado da Rio-2016: ex-judocas viram treinadores e formam campeões

É como um ciclo virtuoso: no judô, especialmente na última década, ex-atletas de sucesso têm se mantido nos tatames mesmo após a aposentadoria, mas para desempenhar uma nova função. No papel de treinadores, eles passam adiante tudo o que aprenderam e já garantem bons resultados para jovens talentos da modalidade. Dos 14 judocas que disputaram a Olimpíada do Rio, há dez anos, nove são técnicos atualmente e um lidera um projeto social voltado para a formação de atletas. O objetivo é continuar fazendo girar a engrenagem da modalidade que mais rendeu medalhas olímpicas para o país até hoje, com 28 pódios desde Los Angeles-1984.

Maria Portela e Érika Miranda fazem parte dessa lista de ex-atletas que se tornaram treinadoras. Com êxito imediato: no ano passado, as duas “produziram” campeãs mundiais em suas antigas categorias de peso: Clarisse Vallim (cadete até 70kg) e Nicole Marques (júnior até 52kg). Portela é a treinadora da seleção brasileira cadete (sub-18), e Érika, que atualmente é técnica da seleção canadense júnior, estava à frente da equipe júnior do Brasil (sub-21) na ocasião.

— O judô é uma mãe e valoriza os seus. Temos treinadores, gestores, fisioterapeutas e por aí vai. É muito legal continuar na modalidade — celebra Érika.

Ontem, sob o comando de Portela, Clarisse voltou a vencer o Mundial Cadete, disputado em Guayaquil, no Equador, e, aos 15 anos, tornou-se bicampeã nos 70kg. Ela também compete no júnior e está perto de confirmar sua vaga na seleção para o Mundial da categoria, em novembro, no Uzbequistão.

No Mundial Cadete de 2026, o país obteve três medalhas: um ouro, uma prata e um bronze. Já na edição de 2025, registrou sua melhor campanha histórica, com cinco pódios: além da conquista de Clarisse, levou outro ouro, uma prata e dois bronzes. O mesmo ocorreu na última edição do Mundial Júnior: além do título de Nicole, o Brasil conquistou outros dois ouros e três bronzes. Os feitos de Clarisse e Nicole fazem parte de uma campanha de 13 medalhas do judô brasileiro em Mundiais de todas as categorias na temporada 2025 (quatro ouros, três pratas e seis bronzes).

Inspirações

Clarisse começou no judô aos 4 anos, após incentivo do pai e do avô, também judocas, no projeto social Samurais do Morro, na Zona Norte do Rio. Hoje, representa o Flamengo e considera um privilégio contar com Portela na seleção:

— A Portela luta junto comigo. Quando olho para ela, me passa confiança. Ela viveu tudo isso, foi atleta olímpica na minha categoria. É um privilégio, um alívio estar com uma treinadora que conhece tão bem o meio e a categoria — conta Clarisse.

Orgulhosa da pupila, Portela concorda que ambas têm sintonia. Relembra o início dessa parceria e festeja o sucesso obtido no início da nova carreira:

— Lembro da nossa primeira conquista em 2025. Era como se eu estivesse lutando junto mesmo. Claro que tem o trabalho dos clubes, que é essencial. Mas tem o dia D, a competição em si. Eu já tinha passado por muitas situações semelhantes e tentei auxiliá-la da melhor maneira possível. Criei estratégias para mim e pude utilizá-las novamente. Acho que os judocas se sentem seguros.

Quando atleta, Portela já era chamada a comandar treinos, dar aquecimento e exercícios de mobilidade. Sem perceber, já estava sendo preparada para o novo ofício. Começou na Sogipa e logo chegou à seleção cadete. Em 2024, primeiro ano como treinadora, foi convidada a integrar a comissão técnica do Brasil no Mundial Cadete como assistente. E foi ela quem acompanhou Nycolly Carneiro (48kg) na disputa pelo bronze, vencida pela brasileira.

Ela revela que a transição de carreira “foi assustadora” e que teve muitas dúvidas. Por isso, procurou se especializar, fez cursos, como o do Comitê Olímpico do Brasil, e um intercâmbio na Hungria. Tentou reescrever a história, já que, quando era atleta no Centro Olímpico (SP), aos 19 anos, teve apenas um medalhista olímpico como técnico: Henrique Guimarães.

— Esse movimento é mais recente e já tem impacto no Brasil. Hoje, o mercado internacional está mais aberto — explica Portela, que já teve convite para trabalhar na seleção do Chile, mas decidiu permanecer com a equipe brasileira e, no ano que vem, atuará com atletas do júnior. — Acho que os judocas continuam no esporte por amor ao judô mesmo. O difícil é não continuar no meio. Quero, como treinadora, alcançar o que não consegui como atleta: chegar ao pódio olímpico. E pelo Brasil.

Sucesso no exterior

Ao contrário de Portela, Érika não pensava em ser treinadora. A ex-judoca se aposentou em 2018 e quis atuar na área de gestão esportiva. Viajou ao Canadá para se preparar e, no meio do caminho, foi chamada para treinar a equipe principal de judô na Alemanha.

— Me apaixonei — confessa Érika, que atuou no Centro Olímpico de Munique de 2021 a 2023. — Desenvolvia as atletas e senti que podia contribuir. Tive muito sucesso e aprendizado.

A ex-judoca conta que, diferentemente do que ocorre no Brasil, atletas no exterior treinam e estudam (ou treinam e trabalham). Por isso, ao encerrarem as carreiras no tatame, seguem para áreas diversas de atuação.

— Há muita oportunidade para treinadores no exterior. O judô praticado no Brasil é apreciado no mundo inteiro. Na Europa, o judô é físico. Na Ásia, técnico. E o Brasil tem a mescla. A gente se encaixa em qualquer lugar. Sem contar que o povo brasileiro é aberto, sabe lidar com mudanças, tem criatividade e improviso. E isso é único.

Apesar de focar na carreira internacional, Érika tem carinho especial pela fase em que esteve à frente da seleção júnior do Brasil.

Ela, que defendeu a seleção brasileira por mais de dez anos, foi a duas Olimpíadas e faturou cinco medalhas em Mundiais, conta que viu Nicole, campeã mundial júnior, nascer e treinou com o pai dela quando era pequena.

Nicole, de 18 anos, foi revelada na mesma academia da mentora, a Espaço Marques, no Distrito Federal.

— Vê-la campeã mundial foi muito lindo. Ainda vamos escutar muito sobre a Nicole — diz Érika.

Além de Portela e Érika, a equipe olímpica feminina da Rio-2016 foi formada por Sarah Menezes (48kg), Rafaela Silva (57kg), Mariana Silva (63kg), Mayra Aguiar (78kg) e Maria Suelen Altheman (+78kg). Rafaela é a única que ainda compete, e Mariana Silva, a única que deixou a área: é advogada. O time masculino contou com Felipe Kitadai (60kg), Charles Chibana (66kg), Alex Pombo (73kg), Victor Penalber (81kg), Tiago Camilo (90kg), Rafael Buzacarini (100kg) e Rafael Silva (+100kg). Buzacarini ainda não se aposentou.

Dessa geração, assim como Portela e Érika, tornaram-se técnicos Maria Suelen (Pinheiros), Kitadai (seleção da Alemanha), Chibana (Israel), Pombo (Grêmio) e Penalber (também diretor técnico do Instituto Reação).

O judô foi uma das modalidades protagonistas do Brasil em Paris-2024. O pódio mais emocionante foi o bronze da equipe mista, com Rafaela Silva, ouro na Rio-2016. Cinco dias após perder a disputa pelo bronze no individual, ela se reinventou para fazer o ponto decisivo do torneio.

Na modalidade, o país obteve um ouro, com Beatriz Souza, e dois bronzes, com Larissa Pimenta e a equipe mista. Sarah Menezes, técnica do sênior por quatro anos, até março de 2026, estava à frente do time feminino nesses Jogos. É a primeira e única campeã olímpica como atleta e treinadora do judô brasileiro.

Além disso, todos os medalhistas do Brasil faziam parte, à época, do Pinheiros, onde Rafael Silva, o Baby, é supervisor técnico; Leandro Guilheiro, treinador-chefe; e Maria Suelen, técnica. Eles são ex-atletas olímpicos recheados de títulos.