Vida Esportiva

A ‘manobra da vida’ durou segundos: como skatista espanhol desafiou eclipse em imagem planejada por mais de um ano

Ao GLOBO, Danny León e filmmaker Gonzalo de Vega revelam bastidores de registro que exigiu câmera a 500 metros, rampa especial e precisão para aproveitar janela única.

Agência O Globo - 14/08/2026
A ‘manobra da vida’ durou segundos: como skatista espanhol desafiou eclipse em imagem planejada por mais de um ano
Danny León

A imagem parece simples por uma fração de segundo: Danny León deixa a rampa, ganha o céu com o skate sob os pés e, atrás dele, a Lua encobre o Sol. Para aquele momento existir, porém, foi preciso mais de um ano de planejamento, uma rampa construída especialmente para o projeto, câmeras posicionadas a cerca de 500 metros do skatista, cálculos sobre a deslocação do Sol e uma corrida contra o relógio durante o eclipse solar que atravessou a Espanha nesta quarta-feira (12).

'Manobra da minha vida':

No momento decisivo, houve apenas alguns segundos para fazer tudo funcionar.

— Se alinharam todos os astros, literalmente, e conseguiram a foto perfeita — resume León, em entrevista ao GLOBO.

O skatista olímpico espanhol, o atleta de 31 anos define o registro como a "melhor foto" de sua carreira e a manobra como uma candidatura a ser "a manobra da vida". Não necessariamente pela dificuldade técnica do salto, mas por tudo que aconteceu ao mesmo tempo para que ele fosse registrado exatamente antes do eclipse.

O projeto reuniu León, o cineasta Gonzalo de Vega, conhecido como Gochi, o fotógrafo José "Jaicano" Izquierdo e a empresa SB Ramps. Cada um tinha uma função. Jaicano determinaria o lugar exato. De Vega organizou uma filmagem. A SB Rampas construiria as estruturas. E Danny teria que escolher e acertar a manobra.

A natureza ficaria responsável pelo restante.

Um ano de preparação

A história começou muito antes do grupo montar as rampas. León e Jaicano já produziram uma fotografia utilizando o Sol como elemento central da composição. O resultado chamou a atenção de Gonzalo. Em 5 de março de 2025, o cineasta invejou uma mensagem ao skatista: haveria um eclipse na Espanha. Por que não tentar algo ainda maior?

— Com o Danny, costumo gravar conteúdos mais artísticos e cuidadosos. Assim que eu sabia que teria um eclipse na Espanha, contei diretamente para ele e para o Jaicano. Isso foi um ano ou mais antes do eclipse — conta De Vega ao GLOBO.

A ideia surgiu cedo. A certeza de que seria possível repeti-la, não.

Assista a manobra:

O grupo não tinha apoio para colocar a estrutura de pé e chegou a considerar abandonar o projeto. A situação mudou apenas em 21 de junho, quando Sergi, da SB Rampas, decidiu participar e disponibilizar as rampas de permissão. A partir daí, as funções foram divididas.

— Jaicano buscou a localização, eu fiquei responsável pelos truques, SB Ramps pelas rampas e Gochi por todo o plano de gravação — explica León.

Câmera estava a 500 metros

Não bastava colocar Danny diante do Sol e esperar pelo eclipse. A perspectiva era fundamental para produzir a ilusão visual desejada. O skatista, a rampa, o Sol e a câmera precisam ocupar posições determinadas com precisão.

Jaicano ficou responsável pelos cálculos e mapeou previamente os pontos nos quais a equipe deveria estar conforme o eclipse avançasse.

A distância entre Danny e a equipe de imagem chegava a cerca de 500 metros. No dia anterior, o grupo montou a rampa e utilizou o pôr do sol como ensaio. Leão repetiu diferentes manobras para descobrir quais funcionariam melhor visualmente. Também foram aplicados o enquadramento e o tempo necessários para acompanhar a posição do Sol. O resultado, curiosamente, não foi animador.

— Nos testes do dia anterior, não tínhamos certeza se seria possível criar essa imagem com Danny durante o momento de escuridão total. Na verdade, não conseguimos nenhuma imagem semelhante no teste — lembra De Vega.

Quatro minutos para ocupar a posição

Na quarta-feira, Danny continuou repetindo os movimentos enquanto os fotógrafos e cineastas percorriam a região buscando os melhores ângulos.

Ainda havia uma variável impossível de controlar: o tempo. A equipe chegou a escolher dois locais separados por aproximadamente 100 milhas. Se as nuvens impedissem o registro em um deles, o plano era correr para o outro.

Quando o eclipse se mudou do momento decisivo, iniciou-se uma operação que havia sido planejada durante meses.

Quatro minutos antes da totalidade, a equipe se comunicou pela rádio. Danny ganhou alguns instantes para recuperar o fôlego. As luzes foram preparadas. Jaicano e Gonzalo se deslocaram para o ponto previamente calculado para pista Sol, rampa e skatista. Então veio a janela que todos esperavam. Cerca de 30 segundos.

— Danny começou a fazer truques sem parar, um atrás do outro. Já testamos antes e sabíamos que ele conseguiria três ou quatro manobras — conta De Vega.

Para o cineasta, havia outro problema. Justamente no eclipse total, quando aconteceria a imagem mais importante, a quantidade de luz despencaria.

— O mais difícil durante um eclipse total é que esse é o momento em que há menos luz. Eu tive que retirar o filtro da câmera e ajustar tudo novamente sem perder muito tempo dentro desses 30 segundos.

Enquanto a câmera era reajustada, Danny enfrentava vento e uma luminosidade completamente diferente daquela dos treinamentos.

— Eu tinha que escolher o truque perfeito para aquele momento, que fica bonito na câmera e ainda fez-lo com estilo — diz o skatista. — Foi uma corrida contra o relógio para todo o mundo.