Vida Esportiva
Da descoberta às vésperas da Copa à volta ao microfone na Libertadores
Narrador retorna às transmissões da Globo nesta quarta-feira, em Cruzeiro x Flamengo, após tratamento com 33 sessões de radioterapia e sete de quimioterapia; diagnóstico o tirou do Mundial de 2026
Quatro meses depois de trocar a cabine de transmissão pelo tratamento contra um câncer, Luis Roberto volta nesta quarta-feira ao lugar que ocupou durante boa parte de seus 64 anos: diante de um microfone e de um campo de futebol. O narrador comandará na TV Globo a transmissão de Cruzeiro x Flamengo, às 21h30, no Mineirão, pelo jogo de ida das oitavas de final da Libertadores, ao lado dos comentaristas Caio Ribeiro e Ana Thaís Matos. É a primeira narração desde o afastamento anunciado em abril, quando um diagnóstico inesperado interrompeu também o projeto profissional que culminaria na Copa do Mundo.
A notícia se tornou pública em 7 de abril. Exames de rotina haviam identificado uma neoplasia na região cervical, e Luis Roberto precisaria se afastar das transmissões para concentrar-se no tratamento. Naquele primeiro comunicado, afirmou que o quadro estava sob controle, destacou o amparo da família, dos médicos e da Globo e reconheceu o tamanho da renúncia profissional: ficaria fora inclusive da Copa, disputada entre junho e julho nos Estados Unidos, México e Canadá. “O maior de todos é vencer esta etapa. Esse é o meu foco”, disse na ocasião.
No dia seguinte, uma frase publicada pelo próprio narrador dimensionou de outra maneira o que significava abrir mão do Mundial. Luis Roberto contou que o diagnóstico havia chegado “na hora certa”, que havia tratamento e cura e que já estava sob cuidados médicos em São Paulo. Depois de anos de preparação para a competição que seria o ponto alto de 2026, resumiu a mudança brusca de prioridade: “A Copa agora é estar vivo.” Na mesma mensagem, prometeu lutar para voltar ao cotidiano e às transmissões.
O tratamento se estendeu justamente pelos meses que antecederam e atravessaram o Mundial. Foram 33 sessões de radioterapia e sete de quimioterapia, segundo revelou Luis Roberto em julho. Ele classificou o processo como pesado e falou também da importância da saúde mental para enfrentar a doença. O diagnóstico, que o narrador descreveu publicamente como câncer, havia sido descoberto em um exame de rotina, quando ainda faltavam cerca de dois meses para a abertura da Copa.
A ausência ganhou uma dimensão especialmente simbólica durante o torneio. Luis Roberto, narrador da TV Globo desde 1998 e escalado originalmente para comandar os jogos da seleção, foi substituído por Everaldo Marques. No dia 5 de julho, quando o Brasil enfrentou a Noruega pelas oitavas de final, ele participou do Domingão com Huck, falou publicamente sobre o tratamento e recebeu uma homenagem. Aplaudido de pé, emocionou-se e conversou ao vivo com a equipe que estava no estádio. A Everaldo, amigo de mais de duas décadas que assumira sua função, fez questão de elogiar: “Seu trabalho é de excelência”.
A doença também fez Luis Roberto usar a própria experiência para chamar atenção para a saúde. Os cânceres de cabeça e pescoço abrangem tumores em diferentes regiões, e sintomas como nódulos no pescoço, feridas na boca que não cicatrizam, rouquidão persistente e dificuldade para engolir estão entre os sinais que merecem investigação médica. O diagnóstico precoce aumenta as chances de sucesso do tratamento e pode reduzir o risco de sequelas, segundo o Ministério da Saúde. No caso do narrador, a descoberta ocorreu durante exames de rotina, antes que ele próprio relatasse publicamente qualquer sintoma mais grave.
Agora, quatro meses depois do anúncio que o tirou da Copa, a trajetória volta a encontrar o futebol. Ao confirmar que estaria novamente numa cabine nesta quarta-feira, Luis Roberto escolheu palavras que dialogam diretamente com aquela frase de abril. Falou em “celebrar a vida” e na “chance de recomeçar”. Depois de agradecer a quem esteve ao seu lado durante o período de tratamento, explicou o que significará entrar novamente em um estádio e ligar o microfone:
-- É sentir a vida pulsando com toda a intensidade que ela merece -- declarou.
A Copa que passou sem sua narração já terminou. Para Luis Roberto, a Libertadores começa também como um retorno à rotina pela qual disse que lutaria desde o primeiro dia.
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