Vida Esportiva

Documento revela que Infantino negociou criação da 'Superliga da Fifa' antes de condenar projeto publicamente; entenda

Arquivo interno mostra que entidade de Gianni Infantino discutiu parceria de 12 anos com organizadores da competição liderada por Florentino Pérez; plano previa controle sobre torneio e novo calendário do futebol

Agência O Globo - 06/08/2026
Documento revela que Infantino negociou criação da 'Superliga da Fifa' antes de condenar projeto publicamente; entenda
Gianni Infantino - Foto: ANSA

A Fifa esteve muito mais próxima da Superliga Europeia do que admitiu publicamente. Um documento interno de outubro de 2020, revelado pelo jornal britânico The Guardian, mostra que a entidade comandada por Gianni Infantino participou de negociações avançadas com os idealizadores do torneio para criar uma parceria estratégica que transformaria a competição em um projeto oficial da federação internacional.

Maior contratação da história

Hexacampeão francês

Segundo o documento, as conversas chegaram à fase de um acordo preliminar e incluíam até uma mudança de nome. A ideia era que a competição passasse a ser chamada de "Superliga da Fifa", com a entidade assumindo um papel central em sua governança.

A revelação contrasta com o discurso adotado por Infantino meses depois. Quando a Superliga foi anunciada oficialmente, em abril de 2021, e enfrentou forte rejeição de torcedores, clubes, ligas e jogadores, o presidente da Fifa afirmou que a organização "desaprovava veementemente" a iniciativa.

De acordo com o documento, a parceria teria duração inicial de 12 anos.

A proposta previa a criação de uma joint venture entre a Fifa e os organizadores da Superliga para administrar os direitos comerciais e explorar economicamente a competição.

Além disso, a entidade receberia uma chamada "golden share" (ação de ouro), mecanismo que lhe garantiria poder de veto sobre decisões estratégicas, como:

formato da competição;

distribuição das receitas;

nomeação dos principais executivos;

mudanças estruturais no torneio.

Na prática, a Fifa deixaria de ser apenas uma entidade reguladora para se tornar uma das controladoras do novo campeonato.

Mundial de Clubes anual

O projeto também previa mudanças profundas no calendário internacional. Entre elas estava a criação de um Mundial de Clubes anual, disputado sempre em um período fixo de três semanas e em formato eliminatório.

A competição substituiria o modelo atual do torneio e seria diretamente ligada à Superliga, reforçando o protagonismo dos principais clubes do futebol mundial.

Menos espaço para seleções

Outro ponto sensível do documento era a reformulação das datas Fifa. A proposta reduzia drasticamente as janelas internacionais para apenas dois períodos de duas semanas por ano, diminuindo o espaço reservado às seleções nacionais.

Segundo o The Guardian, a mudança poderia provocar perdas financeiras para diversas federações nacionais, que dependem das partidas internacionais para gerar receitas comerciais.

O plano também previa discussões sobre uma redução do calendário das ligas nacionais e a construção de um novo modelo para o futebol internacional.

Modelo fechado

A estrutura da Superliga seria semelhante à apresentada em 2021. O torneio teria 15 clubes permanentes e outras cinco vagas preenchidas por critérios de classificação esportiva.

Todos os participantes precisariam integrar a Associação Mundial de Clubes de Futebol (WFCA), entidade criada em 2019 e liderada por Florentino Pérez, presidente do Real Madrid e principal defensor da Superliga.

O documento também mencionava a criação de uma Superliga feminina, embora sem estabelecer um cronograma para seu lançamento.

Nova pressão sobre Infantino

A revelação surge em um momento delicado para Gianni Infantino.

Nos últimos dias, o presidente da Fifa enfrentou forte desgaste após abandonar o projeto da Fifa Forward Enterprise (FFE), iniciativa que previa a entrada de investidores privados na exploração comercial das principais competições da entidade.

Embora o The Guardian afirme que não há provas de que um contrato definitivo tenha sido assinado, os documentos indicam que a Fifa avaliou seriamente tornar-se parceira institucional da Superliga antes de condenar publicamente o projeto.