Vida Esportiva
Fim da crise? Infantino pede desculpas, reconhece erros e tenta colocar fim à maior turbulência de sua gestão na Fifa
Presidente reconhece erros na condução do projeto que previa venda de participação em torneios, obtém apoio da cúpula da entidade e tenta conter rebelião às vésperas da eleição de 2027
Gianni Infantino deu o primeiro grande passo para tentar estabelecer a maior crise política de seus dez anos à frente da Fifa. Pressionado por dirigentes, confederações e federações nacionais após o fracasso do projeto de criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), o dirigente suíço sofreu erros na condução do processo, pediu desculpas formalmente às 211 associações filiadas e, por ora, garantiu sua permanência na presidência da entidade.
De acordo com a rede inglesa BBC , a mudança de postura aconteceu durante uma reunião de emergência realizada nesta quarta-feira, em Rabat, no Marrocos, convocada pelo próprio Infantino para tentar reconstruir pontes após uma onda de críticas provocadas pelo plano de venda de participação nos torneios da Fifa, incluindo as Copas do Mundo masculina e feminina, a investidores privados.
Ao final do encontro, a Fifa divulgou uma nota em que corrige falhas na condução do projeto e afirma que o conselho administrativo reafirmou o apoio ao presidente.
Além do comunicado oficial, Infantino e o secretário-geral da entidade, Mattias Grafström , enviaram uma carta conjunta aos vice-presidentes, membros do Conselho da Fifa e às 211 federações nacionais. No documento, os dois admitem que cometeram erros e pedem desculpas pela forma como o processo foi prolongado.
— Pedimos sinceras desculpas pelos erros cometidos e nos comprometemos a garantir que eles não voltem a acontecer — afirma o texto.
Reconhecimento de falhas
A principal concessão feita por Infantino foi assumir que a proposta da FFE deveria ter sido debatida anteriormente com o Conselho da Fifa e com as associações nacionais, algo que não ocorreu.
Segundo a própria entidade, "não era intenção" excluir dirigentes das discussões e o processo "deveria ter sido prolongado de maneira diferente".
A Fifa também descobriu que a gestão da crise após o vazamento de informações para a imprensa agravou o desgaste político.
Apesar da autocrítica, o comunicado mantém o discurso de que todas as ações foram realizadas dentro das normas da entidade e afirma que a Fifa não aceitará ataques à sua governança ou à segurança da instituição.
Apoio interno evita queda
O pedido de desculpas veio acompanhado de um movimento estratégico para demonstrar unidade.
Mattias Grafström, que havia classificado internamente toda a condução do caso como uma sequência de acontecimentos "tristes e repreensíveis", apareceu ao lado de Infantino após a reunião e confirmou o comunicado que reafirma o apoio ao presidente.
Os dois também foram fotografados juntos durante uma partida da Copa Africana de Nações Feminina , em Rabat, gesto interpretado como uma tentativa de transmitir estabilidade após dias de forte turbulência.
O respaldo da alta cúpula da entidade reduz, pelo menos temporariamente, o risco de uma saída antecipada de Infantino.
Crise política continua
Embora tenha conseguido conter a pressão dentro da Fifa, o dirigente segue enfrentando resistência no cenário internacional.
A Uefa continua afirmando que perdeu a confiança no presidente e considera que o projeto foi desenvolvido sem transparência. A entidade europeia chegou a ameaçar recorrer à Justiça para contestar a condução do processo.
Nos últimos dias, algumas federações nacionais também retiraram o apoio à candidatura de Infantino para um quarto mandato, entre elas o País de Gales. A Inglaterra avalia uma posição semelhante.
Fora do futebol, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney , declarou que não confia mais na liderança do dirigente suíço. Já o ex-jogador português Luís Figo pediu a sua renúncia imediata, afirmando que Infantino "degradou a carga que prometeu engrandecer".
Base de apoio permanece sólida
Apesar da operação europeia, Infantino ainda mantém uma ampla base de sustentação política.
Diversas federações da África e da Ásia reiteraram apoio ao dirigente nos últimos dias, incluindo Marrocos, Egipto, Filipinas, Níger, Mauritânia e República Democrática do Congo.
Grande parte desses países recebeu investimentos do programa Fifa Forward , principal iniciativa de financiamento da entidade durante a gestão Infantino, fator apontado como decisivo para preservar sua influência política.
Esse apoio pode ser determinante na eleição presidencial marcada para março de 2027, quando serão necessários ao menos 106 votos das 211 associações filiadas para garantir a vitória.
Estratégia para virar a página
Ao reconhecer publicamente os erros, abandonar o projeto da Fifa Forward Enterprise e reafirmar o compromisso com mudanças nos processos internos, Infantino tenta transformar uma derrota política em um gesto de defesa institucional.
A estratégia busca reduzir a tensão com parte das federações e evitar que uma crise se transforme em um movimento global capaz de ameaçar sua permanência no comando da entidade.
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