Vida Esportiva
Dez anos da Rio-2016: Deodoro e os contrastes no legado esportivo
Complexo abriga equipamentos que funcionam a todo vapor e espaços fechados ao público
Do ponto de vista esportivo, observar o legado da Rio-2016, exatos dez anos após a Cerimônia de Abertura dos Jogos, revela contrastes marcantes. Entre as arenas construídas ou reformadas, algumas continuam funcionando em total ou quase total capacidade, contribuindo para o desenvolvimento do esporte, tanto em nível olímpico quanto não. Por outro lado, há instalações que se encontram fechadas ou subutilizadas desde então — tendo custado R$ 910,8 milhões aos cofres públicos, em valores da época. A maior parte dessas estruturas está localizada em Deodoro, na Zona Oeste do Rio, que é o segundo maior complexo de competições dos Jogos. Um passeio pelo bairro evidencia essa dicotomia.
No local, estão o Estádio Olímpico de Canoagem Slalom e o Centro Olímpico de Ciclismo BMX, que operam a todo vapor, sendo utilizados inclusive por atletas de alto rendimento. Ambos estão situados no Parque Radical, que pertence à Prefeitura do Rio. Em contrapartida, a Arena de Hóquei, a Arena da Juventude, o Centro Militar de Hipismo e o Centro Militar de Tiro Esportivo estão fechados ao público desde março de 2025, devido a um impasse financeiro entre o Exército, proprietário dos espaços, e o Ministério do Esporte.
No ano passado, o Centro de Educação Física do Exército (CCFEX) estimou que necessitaria de pelo menos R$ 20,5 milhões por ano para manter os equipamentos esportivos e estructuras, além de arcar com os custos de água e luz. Entre 2018 e 2024, o Ministério do Esporte repassou R$ 255 milhões para o custeio do complexo. Entretanto, o acordo foi rompido após a pasta limitar os repasses a R$ 10 milhões por ano destinados ao legado olímpico.
— A estrutura é excelente, a melhor do Brasil, mas deixou de receber nossos atletas para treinos — afirma Jodson Gomes Edington Júnior, presidente da Confederação Brasileira de Tiro Esportivo. — Entre 2021 e 2024, realizamos várias competições internacionais em Deodoro, incluindo Sul-Americanos e Mundiais. Foram feitas até seletivas para Paris-2024. Em 2025, vamos retirar a candidatura ao Sul-Americano, que acabou sendo sediado em Buenos Aires. O impasse é prejudicial para todos.
Atualmente, o espaço está disponível apenas nos fins de semana, conforme informações do site do complexo. Para utilizar os equipamentos, é necessário ser militar ou obter autorização especial.
Impasse cancela eventos
A arena da Juventude, localizada à margem da Avenida Brasil, perto da entrada para o BRT Transolímpico, foi a mais utilizada pelo público quando o acordo esteve em vigor. Ao longo dos anos, se tornou referência para treinos e competições de artes marciais, especialmente o jiu-jitsu. Com o impasse, quarenta e um eventos de luta que ocorreriam ali no ano passado precisaram ser cancelados. Muitas das atividades foram transferidas para o Parque Olímpico da Barra, nos arredores do Velódromo. Entretanto, nos últimos meses, o espaço foi cedido para alguns eventos gospel.
— A arena era um espaço excelente também para o público, atraindo muitos moradores da Zona Oeste. Realizamos torneios de judô, boxe e muay thai que recebiam de quatro a cinco mil pessoas por fim de semana — lamenta Fabrício Xavier, presidente do Sindicato de Lutas Marciais.
Procurado, o CCFEX declarou que caberia ao Ministério do Esporte comentar sobre a situação. O ministério, por sua vez, manifestou-se por nota, reafirmando seu compromisso com a preservação e valorização do legado dos Jogos Rio-2026, mas sem mencionar uma possível retomada dos pagamentos.
Exemplo do Parque Radical
O lado positivo do complexo de Deodoro está no Parque Radical, que abriga um dos maiores legados da Rio-2016: o Estádio Olímpico de Canoagem Slalom. Este local se tornou a casa de atletas como Gabriel Mascarenhas, que em sua rotina de treinos nas corredeiras artificiais conta com a companhia de atletas como Ana Sátila — referência na modalidade no país, com quatro edições de Jogos no currículo. Patrocinado pela prefeitura, o carioca de 22 anos começou a praticar o esporte há quatro anos, já participou de competições internacionais e exprime sua admiração pela pista construída em sua cidade natal.
— Todos os colegas comentam que o desenho e o nível de dificuldade dela só ficam atrás da estrutura montada para a Olimpíada de Londres — afirma ele.
A pista, que mantém os obstáculos adquiridos para a Rio-2016, continua a ser utilizada para treinos da seleção brasileira. O espaço permaneceu aberto pela prefeitura do Rio após os Jogos, exceto durante um período de interrupção em 2020 devido à pandemia de Covid-19.
Além disso, no Parque Radical, o Centro Olímpico de Ciclismo BMX ficou sem sedear torneios oficiais por mais de oito anos, devido a falta de manutenção, que levou a rachaduras e outros problemas estruturais. Porém, no início de 2025, a prefeitura finalizou uma reforma de R$ 4,5 milhões que recuperou a área. A retomada das competições internacionais ocorreu em outubro do ano passado, com a realização do Campeonato Ibero-Americano de BMX. O espaço é utilizado pela seleção brasileira da modalidade e também por atletas de outros países.
O complexo ainda conta com uma pista de mountain bike, atualmente em reforma. Uma piscina é aberta ao público nos fins de semana, e atividades físicas gratuitas são oferecidas à população. O local abriga também a Floresta dos Atletas: em 2016, 13.725 mudas foram plantadas por atletas com espécies da Mata Atlântica, recuperando uma área anteriormente degradada no Parque Radical.
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