Vida Esportiva
Rebeca Andrade recomeça 'do zero' e mira volta no Pan-Americano antes do Mundial
Maior medalhista olímpica do Brasil passou por recuperação intensa para retomar o alto rendimento após período sem competir.
Após um processo descrito como um “recomeço do zero”, a ginasta Rebeca Andrade , de 27 anos, está de volta ao ambiente competitivo. Maior medalhista olímpica do Brasil, ela participará do Campeonato Pan-Americano de Ginástica Artística , que começa nesta segunda-feira com o Treino de Pódio, no Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro — o mesmo local onde fez sua estreia olímpica, nos Jogos Rio-2016.
Sem competir desde os Jogos Olímpicos de Paris-2024, Rebeca passou por um trabalho intenso de fisioterapia, fortalecimento muscular e controle de carga para recuperar o alto rendimento. A decisão de enfrentar novamente uma rotina exigente — e muitas vezes dolorosa — partiu do próprio atleta, que mira o Mundial deste ano e, mais adiante, os Jogos Olímpicos de Los Angeles-2028.
O fisioterapeuta Álvaro Margutti , membro das seleções brasileiras de ginástica artística, acompanha Rebeca de perto desde 5 de janeiro. O trabalho foi realizado tanto no Centro de Treinamento da modalidade quanto na casa do Atleta.
— Fiquei no cangote mesmo, intensivamente — contorno Álvaro. — Mesmo sendo uma esportista com memória muscular, após um ano e meio parada, ela teve de recomeçar do zero. Perdeu força, mobilidade, agilidade, estabilidade articular. É normal. E o maior desafio era fazer essa volta sem sofrimento. Por isso, fizemos de forma leve, mas com cobranças.
Segundo a fisioterapeuta, por causa de lesões e patologias crônicas, Rebeca é uma atleta que sente dores mesmo sem esforço físico. No auge da capacidade muscular, quando conquistou quatro medalhas olímpicas em Paris-2024, incluindo o ouro no solo, ela também precisou controlar dores ao longo da preparação e das competições.
Álvaro relata que a ginasta chegou a ter dúvidas sobre a possibilidade de voltar à boa forma, especialmente por sentir dores mesmo durante o período sabático. Ainda assim, foi ela quem manifestou o desejo de retornar às competições.
O planejamento, então, foi estruturado de forma individualizada. Foram mais de três meses dedicados prioritariamente à fisioterapia, com controle específico de carga, definição da quantidade de elementos por dia ou semana e restrição inicial aos exercícios técnicos da ginástica. Em paralelo, Rebeca manteve a preparação física.
Desde então, a rotina tem sido intensa: dois treinos por dia, praticamente de segunda a segunda, com poucas folgas. Nem mesmo durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, em fevereiro, quando foi convidado para participar da Cerimônia de Abertura, houve pausa no tratamento. Álvaro venceu a Itália com um atleta para dar continuidade ao trabalho.
De acordo com a fisioterapeuta, os primeiros meses foram os mais difíceis, período em que Rebeca sentiu mais dores e desconfortos. Com o avanço do processo, a resposta física melhorou.
Para Álvaro, o “novo despertar” de Rebeca para o alto rendimento foi favorecido pela memória muscular do atleta, mesmo diante de limitações fisiológicas e biomecânicas. A ginasta já passou por três cirurgias de ligamento cruzado anterior no joelho esquerdo.
— Não preparamos essas atletas apenas para acertar. Preparamos para o erro também. A estrutura precisa ser adequada para minimizar riscos de danos — explicou Álvaro. — Ela detesta corrida, mas a corrida para que o salto tenha de ser perfeito. Também gosta de mobilidades ativas, de quadril, tornozelo e lombar. Curte terapia manual e treino na areia, na natureza.
Há cerca de um mês, Rebeca foi liberada para retomar os treinos técnicos. Aos poucos, voltou a introduzir elementos da ginástica. Na fase de transição, treinava salto em um dia, com até cinco execuções — incluindo dois saltos de aquecimento — e descansava no dia seguinte. Agora, já consegue treinar saltos em dias consecutivos.
— Esse Pan é só o começo, faz parte de um processo para ela chegar ao Mundial — afirmou Álvaro, que agora conduz uma nova etapa da fisioterapia externa à recuperação. — Ela não vai se livrar de mim — brincou.
Um ou dois saltos?
Segundo Francisco Porath , o Chico, técnico da seleção brasileira feminina de ginástica artística, Rebeca deverá competir apenas no salto e está apta a executar dois. A definição, no entanto, será tomada a partir desta segunda-feira, após o Treino de Pódio, quando as ginastas testaram os aparelhos oficiais da competição.
O fato de o Pan-Americano ser disputado no Brasil ajudou a criar, segundo a comissão técnica, uma “condição ótima de competição internacional” para a volta do atleta.
— A gente conseguiu resgatar a vontade da Rebeca de estar no ginásio. Ela está feliz, motivada, quer competir, quer mais uma Olimpíada. Ela ainda tem restrições? Tem, mas ela não precisa estar bem em tudo agora. Calma. É muito solicitado e gratificante. Ela é uma atleta que já tem tudo. Para a gente, é até estranho. Depois de tudo o que passou, é um exemplo. Tem vezes que olho para ela no acampamento e penso: “O que ela está fazendo aqui?” —disse Chico. — Se vai ou não ganhar mais uma medalha olímpica, não sabemos. Mas ela tem uma função. O que está ensinando e deixando para os outros atletas é muito bom.
O treinador afirmou que ainda não sabe se Rebeca competirá de fato neste momento. Após o Treino de Pódio, a comissão técnica finalizará a análise sobre a contribuição da ginasta para a equipe e decidirá se ela fará dois saltos, apenas um ou se ficará na reserva.
A competição marca o início da caminhada rumo a Los Angeles-2028 . O Pan-Americano é disputado por equipes e classifica cinco vezes feminino e quatro masculino para o Mundial de Roterdã, primeiro classificado para a Olimpíada. As equipes medalhistas na Holanda garantirão vaga nos Jogos de 2028.
Como Rebeca atuará em apenas um aparelho, outras ginastas precisarão compor a equipe brasileira com foco no melhor somatório de notas.
Sem Flávia Saraiva e Lorrane Oliveira , o Brasil contará também com Gabriela Barbosa , Gabriela Bouças , Julia Soares e Thais Fidelis .
— Temos que lembrar que a Rebeca é hoje uma ferramenta dentro da equipe, principalmente quando falamos de competições por equipe. Depende também de como as meninas serão. É quase um xadrez — afirmou Chico. — A ideia inicial é que Rebeca faça um salto para a equipe, para compor a nota do Brasil. Se fizer o segundo, será para ter uma chance de avançar até o final do aparelho. Em uma conversa muito sincera e profissional, falamos a respeito. É bom que ela sinta de novo a sensação de um final, de fazer dois saltos.
Questionado sobre a possibilidade de Rebeca ficar na reserva e não competir, Chico disse que o atleta está apto fisicamente, mas que a decisão final será tomada nesta segunda-feira.
— Pode ser frustrante se a Rebeca não competir, mas não será por uma questão física ou mental. Será por estratégia de equipe, por opção de melhor somatório de notas. A gente precisa fazer a melhor matemática — explicou o treinador, lembrando que Rebeca pode fazer a diferença mesmo com apenas um salto. — Será preciso verificar primeiro como todas as ginastas se adaptarão aos aparelhos e se houver necessidade de mudanças no nível de dificuldade das apresentações.
O formato prevê cinco ginastas em ação, com quatro se apresentando em cada aparelho. As três melhores notas de cada rotação são validadas para a equipe.
Chico também adiantou que Rebeca não fará os mesmos saltos apresentados em Paris-2024, mas executará elementos que podem colocar-la no final do aparelho.
O salto, segundo o treinador, é o aparelho que exige menor esforço físico de Rebeca neste momento. Além de exigir menos tempo de execução, é uma prova dominada pela ginasta.
Sobre o futuro, Chico disse que a expectativa é que Rebeca dispute o Mundial e esteja apta a competir em mais de um aparelho. A tendência é que ela volte primeiro à viagem, antes das barras assimétricas, aparelho no qual tem o sonho de alcançar uma final olímpica.
— Pensando mais à frente, ela tem vontade de ser finalista olímpica nas paralelas. E teremos de mudar a série antiga. Para qualquer novo aparelho, haverá um novo planejamento. Seguimos assim — explicado Chico. — O que mais me deixa consciente disso tudo é a motivação dela no processo.
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